Pegadas humanas de White Sands
c. 23–21 mil anos atrás (Bennett et al. 2021; Pigati et al. 2023) · América do Norte
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Pegadas humanas preservadas nas antigas margens do Lago Otero, no atual Parque Nacional de White Sands (Novo México), entre camadas de sementes datadas de cerca de 23 a 21 mil anos atrás, no Último Máximo Glacial. Um aquecimento abrupto baixou o nível do lago e expôs superfícies onde pessoas e megafauna deixaram rastros.
Pegadas de adolescentes e crianças
O sítio fica na Bacia de Tularosa, uma bacia fechada de cerca de 14 mil km², no centro-sul do Novo México. O Lago Otero foi o maior de vários lagos perenes que ocuparam a bacia entre cerca de 36 mil e 19 mil anos atrás, e nas margens do atual leito seco aparecem rastros de mamutes, preguiças-gigantes, canídeos, felinos, bovídeos e camelídeos, quase sempre ao lado de pegadas humanas (Bennett et al., 2021). Na Localidade 2, os autores documentaram 61 pegadas humanas, distribuídas em sete superfícies e num pacote com várias outras. Elas têm calcanhar, arco e dedos bem marcados e são mais chatas que pés modernos, como costuma ocorrer em quem anda descalço. Muitas parecem ser de adolescentes e crianças, e as de adultos grandes são raras. Uma hipótese dos autores é a divisão do trabalho: os adultos fariam tarefas especializadas, e os adolescentes, acompanhados de crianças, buscariam e carregariam coisas, deixando mais rastros. (Bennett et al. 2021)
Sementes de uma planta aquática
A cronologia de 2021 veio de onze datações por radiocarbono de camadas de sementes de Ruppia cirrhosa, uma planta aquática, que vão de 22,86 ± 0,32 a 21,13 ± 0,25 mil anos e respeitam a ordem das camadas. Bennett et al. (2021) sabiam do risco: plantas aquáticas podem absorver carbono antigo da água dura e parecer mais velhas. Responderam com três argumentos: a margem rasa do lago tornava esse efeito improvável; as idades seguem a ordem estratigráfica mesmo entre amostras separadas por centímetros; e, na mesma bacia, material terrestre e aquático deu idades concordantes entre cerca de 44 mil e 25 mil anos. Madsen et al. (2022) não se convenceram e pediram verificação independente, já que o efeito reservatório poderia envelhecer as datas em milhares de anos. Pigati et al. (2023) resumem o debate em duas objeções: o carbono antigo e a possibilidade de as sementes, muito resistentes, terem vindo de depósitos mais velhos. (Bennett et al. 2021; Madsen et al. 2022; Pigati et al. 2023)
Pólen de coníferas e grãos de quartzo
Para testar as datas, Pigati et al. (2023) usaram materiais, técnicas e um laboratório de espectrometria de massa diferentes dos da equipe original. Coletaram mais de 1 kg de sedimento nos mesmos níveis das sementes e separaram o pólen por citometria de fluxo. O pólen de plantas terrestres fixa carbono da atmosfera e não sofre o efeito da água dura. Três amostras de pólen de coníferas, cada uma com cerca de 75 mil grãos, deram idades calibradas de 23,4 ± 2,5 a 22,6 ± 2,3 mil anos, com margens largas por causa das correções. Grãos de quartzo datados por luminescência opticamente estimulada deram idade mínima de 21,5 ± 1,9 mil anos. Os dois métodos são estatisticamente indistinguíveis das sementes. O pólen também mostra outro clima: pinheiros abundantes, algumas píceas, abetos e pinheiros-de-douglas e uma estepe de artemísia que hoje não existe na região, sinal de um ambiente bem mais frio e úmido. (Pigati et al. 2023)
Antes do fechamento das rotas do norte
As camadas registram a passagem de um lago para depósitos de rio, que Bennett et al. (2021) relacionam ao aquecimento abrupto do evento Dansgaard-Oeschger 2, iniciado por volta de 23,3 mil anos atrás. A descida do lago expôs faixas largas da margem, por onde passaram pessoas e megafauna. Para os autores, as pegadas mostram gente ao sul do manto de gelo antes de o avanço glacial fechar o corredor livre de gelo e a rota costeira do Pacífico. A convivência de humanos e megafauna por pelo menos dois milênios sugere que, se havia caça, ela foi sustentável no início, e abre a possibilidade de um papel humano em extinções antes atribuídas a épocas anteriores à chegada de pessoas. Os autores ressalvam que continua incerto e contestado quando as pessoas chegaram pela primeira vez e quando a ocupação se tornou contínua; as pegadas mostram apenas um momento e um lugar com presença humana. (Bennett et al. 2021)
Fontes
- Bennett, M. R.; Bustos, D.; Pigati, J. S.; Springer, K. B. et al. (2021). "Evidence of humans in North America during the Last Glacial Maximum". Science 373: 1528–1531. DOI 10.1126/science.abg7586. Acessar
- Madsen, D. B.; Davis, L. G.; Rhode, D.; Oviatt, C. G. (2022). "Comment on ‘Evidence of humans in North America during the Last Glacial Maximum’". Science 375. DOI 10.1126/science.abm4678. Acessar
- Pigati, J. S.; Springer, K. B.; Honke, J. S.; Wahl, D. et al. (2023). "Independent age estimates resolve the controversy of ancient human footprints at White Sands". Science 382: 73–75. DOI 10.1126/science.adh5007. Acessar
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