Sínodo de Whitby (664): a disputa pela data da Páscoa entre as tradições irlandesa e romana na Nortúmbria
664 (ano dado por Beda: 22º ano do reinado de Oswy; Wikidata: 664) · Europa Ocidental e do Norte
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Segundo Beda, em 664 o rei Oswy da Nortúmbria reuniu clérigos no mosteiro de Streanæshalch, dirigido pela abadessa Hilda, para decidir a data da Páscoa e outras práticas da Igreja. De um lado estavam o bispo Colmán e a tradição que ele dizia herdar dos seus antepassados; do outro, Wilfrid, que defendia o uso de Roma. Oswy decidiu a favor de Roma, e Colmán partiu com os que não aceitaram. Segundo Richard Abels, a explicação de Beda, centrada na Páscoa, deixa de lado motivos políticos do rei e do seu filho.
Quem se reuniu e onde
Beda conta que a controvérsia chegou ao rei Oswy e ao filho Alfrid. Oswy fora instruído e batizado pelos irlandeses e falava bem a língua deles; Alfrid fora instruído por Wilfrid, que estudara em Roma e em Lyon. Ficou combinado um sínodo no mosteiro de Streanæshalch, que Beda traduz como "Baía do Farol", onde presidia a abadessa Hilda. Vieram os dois reis, Colmán com seus clérigos irlandeses, o bispo Agilbert, dos saxões do oeste, com os padres Agatho e Wilfrid, além de Tiago e Romano. Hilda e os seus ficaram com os irlandeses, e o bispo Cedd fez de intérprete para ambos os lados. (Beda (673–735). Ecclesiastical History of the English Nation)
Os argumentos no debate
Segundo Beda, Colmán defendeu a Páscoa que recebera de seus mais velhos e atribuiu ao evangelista João. Wilfrid respondeu que Roma, a Itália, a Gália, a África, a Ásia, o Egito e a Grécia guardavam outra data, e que só os pictos e os bretões, nas duas ilhas remotas, se opunham ao resto do mundo. Os dois discutiram as luas, entre a 14ª e a 20ª ou entre a 15ª e a 21ª, e a autoridade de Anatólio e de Columba. Wilfrid terminou com a promessa de Cristo a Pedro. Oswy perguntou a Colmán se Columba tinha poder semelhante; ouviu "nenhum" e disse que não contrariaria o porteiro do céu. (Beda (673–735). Ecclesiastical History of the English Nation)
O que aconteceu depois, segundo Beda
Beda diz que todos os presentes, grandes e pequenos, aceitaram a decisão do rei. Colmán, vendo a sua doutrina rejeitada, partiu com os que não quiseram aceitar a Páscoa romana nem a tonsura, para consultar a sua gente. Cedd abandonou as práticas irlandesas e voltou ao seu bispado. Tuda, que seguia a Páscoa católica, foi feito bispo dos nortúmbrios, e Eata ficou como abade de Lindisfarne. Colmán levou consigo parte dos ossos de Aidan e deixou parte na igreja. Beda registra que isso se deu no ano 664, 22º do reinado de Oswy, e descreve com simpatia a vida frugal dos mestres irlandeses. (Beda (673–735). Ecclesiastical History of the English Nation)
A leitura política de Abels
Abels observa que Beda cita só uma disputa anterior sobre a Páscoa, entre o bispo Finan e o irlandês Ronan, e que o sínodo só veio em 664, treze anos depois da morte de Aidan (651); para ele, isso não combina com uma controvérsia que atormentava os nortúmbrios. Defende que os dois reis tinham razões políticas, cada qual a sua. Alhfrith, que governava Deira, tinha adotado os usos romanos e expulsado os monges irlandeses de Ripon; Oswy escolheu Roma, segundo Abels, para recuperar prestígio diante da Mércia e para obter reconhecimento do papa na escolha do novo arcebispo. Abels apoia isso numa carta do papa Vitaliano a Oswy. (Abels)
Fontes
- Beda (673–735). Ecclesiastical History of the English Nation, livro III, caps. 25 e 26. Tradução inglesa sem tradutor indicado com clareza (a página sugere a de L. C. Jane, Temple Classics; Londres: J. M. Dent, 1910), preparada por Alexander Pyle para o Internet Medieval Sourcebook, Fordham University: https://sourcebooks.fordham.edu/basis/bede-book3.asp. Texto bruto lido em 28/10/2026. Acessar
- Abels, R. "The Council of Whitby: A Study in Early Anglo-Saxon Politics". Publicado no site Medievalists.net em 13 abr. 2025 (a página não informa a publicação original): https://www.medievalists.net/2025/04/council-whitby-anglo-saxon-politics/. Texto bruto lido em 28/10/2026. Acessar
Na mesma região
- Livro de Durrow (evangeliário insular, c. 650–700) c. 650–700 (Trinity College Dublin)
- Moinho de maré de Nendrum (Irlanda do Norte), c. 619–621 619 (relatório de escavação) ou 619–621 (Catling), por dendrocronologia
- Hilda (Hild) de Whitby c. 614 – c. 680 (Mackie, Universidade de Surrey)
- De temporum ratione, de Beda: o tratado sobre a contagem do tempo e o cálculo da Páscoa, escrito em 725 em Nortúmbria escrito em 725, versão ampliada do Liber de temporibus de 703, segundo Plaza Picón e González Marrero (2006)
- Batalha de Poitiers ou de Tours (732–733): o fim de uma incursão de Abd al-Rahman al-Ghafiqi na Aquitânia 732 (o Wikidata dá 10 de outubro; a fonte do séc. VIII lida e Collins sugerem 731 ou 733)
- Alcuíno de York (Alcuinus, Albinus Flaccus), mestre nortúmbrio, conselheiro de Carlos Magno e abade de Tours, c. 733–804 nasceu na Nortúmbria por volta de 730 a 735; morreu em Tours em 19 de maio de 804