Atlas da História

Revolta Pueblo

10 a 21 ago. 1680 · América do Norte

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Levante indígena dos povos pueblos contra os colonizadores espanhóis no Novo México, em agosto de 1680.

Uma revolta contada por olhos espanhóis

Liebmann e Preucel (2007) notam que quase toda a história da revolta veio de diários militares espanhóis e cartas de franciscanos. Esses autores tentavam justificar a derrota e a reconquista, tratavam o levante como episódio isolado e apagavam a longa resistência pueblo à exploração e à perseguição religiosa. Entre 1680 e 1692 os espanhóis ficaram no exílio, com raras incursões mal registradas, e os pueblos não escreviam sua história; por isso os relatos saltam de 1680–81 para a retomada ritual de Diego de Vargas em 1692. Em 1681, testemunhas pueblos apontaram Po’pay, um tewa de San Juan, como principal organizador. Ele teria pregado a eliminação da influência estrangeira e a volta aos costumes dos antepassados, e igrejas foram saqueadas em mais de uma dúzia de pueblos, além de Zuni e Hopi. Entre 1996 e 2004, os autores estudaram, em parceria com Cochiti e Jemez, seis aldeias erguidas no alto de mesas entre 1680 e 1696. (Liebmann e Preucel 2007)

Aldeias de duas praças no alto das mesas

Entre 1680 e 1685, keres e jemez deixaram os pueblos das missões em Cochiti, Santo Domingo e Jemez e ergueram Patokwa, Kotyiti e Boletsakwa nas mesas vizinhas; datas de anéis de árvores confirmam obras em Boletsakwa entre 1680 e 1683. As três têm o mesmo plano compacto: duas praças separadas por um bloco central de casas, muito diferente das aldeias dispersas das missões, e foram planejadas em conjunto pela comunidade. Liebmann e Preucel (2007) propõem, como hipótese, que o plano duplo expressa o revivalismo pregado por Po’pay e uma organização em metades, como as metades Turquesa e Abóbora dos pueblos keres e jemez de hoje. A cerâmica vai na mesma direção: em Kotyiti, 36% dos desenhos identificados são variantes do motivo da chave, quase sempre de duas cabeças, antigo no Rio Grande, raro antes da revolta e retomado depois dela também em Patokwa, Boletsakwa, Hopi e Zuni. (Liebmann e Preucel 2007)

Novas identidades na cerâmica de Jemez

Para os autores, um efeito central da revolta foi a criação de identidades que atravessavam as antigas fronteiras de língua e etnia. Os espanhóis usavam a categoria “pueblo” para naturalizar relações desiguais; Po’pay a virou do avesso para unir aldeias diversas contra os colonizadores. A cerâmica de Jemez mostra a mudança. Antes de 1680, o preto-sobre-branco de Jemez era cerca de 43% dos conjuntos; nos sítios da revolta, Astialakwa e Patokwa, caiu para 5,6%. As cerâmicas vidradas do Rio Grande passaram de cerca de 2,8% para 13%, e as tewas, de 0,1% para 5,8%. Para Liebmann e Preucel (2007), a troca entre jemez e tewas foi mais intensa nos dezesseis anos seguintes à revolta do que nos três séculos anteriores, o que questiona a ideia, comum entre historiadores, de que a unidade pueblo se desfez logo e de que esses grupos estiveram em guerra entre 1680 e 1696. (Liebmann e Preucel 2007)

Uma diáspora que redesenhou o mundo pueblo

Os anos seguintes trouxeram, segundo estudos citados pelos autores, uma das maiores migrações já registradas no sudoeste. Muitas comunidades de hoje nasceram dali (Liebmann e Preucel, 2007). Em Hopi, refugiados do Rio Grande fundaram Hano: o povo de Galisteo passou por Santa Fe e pelo vale de Española e se fixou ali em 1700. Cinco aldeias zunis se juntaram na mesa de Dowa Yalanne e, após a reconquista, desceram juntas para Halona:wa, a atual Zuni. Laguna, ao que parece, foi fundada entre 1680 e 1692 por refugiados. Pueblos que acompanharam os espanhóis na retirada criaram Socorro del Sur, Senecú del Sur e Ysleta del Sur, perto de El Paso; Ysleta é hoje a casa dos tiguas. Algumas migrações foram curtas: os picuris que foram para Cuartelejo, nas planícies do atual Kansas, voltaram em 1707, e o povo de Sandia que ergueu Payupki em Hopi voltou em 1748. Ainda assim, deixaram trocas duradouras, como o kachina Hemis, que os hopis associam aos jemez. (Liebmann e Preucel 2007)

Memória: a corrida de 1980 e a estátua de Po’pay

Liebmann e Preucel (2007) contestam a ideia de que as tradições orais pueblos não guardaram a revolta: relatos contados hoje em Cochiti são quase idênticos aos que Ruth Benedict registrou no início do séc. XX, e as versões jemez da batalha de Astialakwa, em 1694, revelam detalhes ausentes dos registros espanhóis. Em 1980, no tricentenário, corredores pueblos foram de Taos a Hopi levando um cordão de couro com dois nós, como os cordões com nós que marcaram a contagem para o levante. Em 1997, Herman Agoyo e outros líderes pediram ao Legislativo do Novo México que escolhesse Po’pay para a segunda estátua do estado no Capitólio dos EUA; a obra de Cliff Fragua, do pueblo de Jemez, foi inaugurada em 23 de setembro de 2005. Os autores lembram ainda que, depois da revolta, os pueblos deixaram de ser submetidos à encomienda e ao repartimiento, e os franciscanos ficaram mais tolerantes com a religião pueblo. (Liebmann e Preucel 2007)

Fontes

  1. Knaut, A. L. (1995). The Pueblo Revolt of 1680: Conquest and Resistance in Seventeenth-Century New Mexico. University of Oklahoma Press. ISBN 9780806127279.
  2. Liebmann, M.; Preucel, R. W. (2007). "The Archaeology of the Pueblo Revolt and the Formation of the Modern Pueblo World". Kiva 73(2): 195–217. DOI 10.1179/kiv.2007.73.2.006. Acessar

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