Atlas da História

União de Lublin

1º jul. 1569 · Europa Oriental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Ato de 1º de julho de 1569, aprovado no Sejm reunido em Lublin, que uniu o Reino da Polônia e o Grão-Ducado da Lituânia num só corpo e numa só república. Parte da elite lituana viu a união como derrota, e a ideia de uma república lituana própria seguiu viva na literatura do Grão-Ducado.

Plano da cidade de Lublin
Vista da cidade onde se reuniu o Sejm de 1569, impressa no atlas de cidades de Braun e Hogenberg. É um olhar de fora feito para o público europeu e mostra a cidade-sede da união: muralhas, igrejas e casario, num centro urbano relevante na República. Plano da cidade de Lublin, Georg Braun e Frans Hogenberg (Civitates Orbis Terrarum), séc. XVI–XVII (edição do vol. VI). Domínio público. Ver no acervo

Para os lituanos, um funeral da república

O ato de Lublin declarou Polônia e Lituânia “um só corpo indivisível” e “uma república comum”. Kuolys (2022) mostra que muitos políticos lituanos viveram a decisão como o “funeral e a destruição” da república do Grão-Ducado, outrora livre e independente, que o Segundo Estatuto, aprovado em 1566 no parlamento de Vilnius, tinha consolidado e que garantia à nobreza o papel de senhora do país. Daí nasceu um programa de “correção da união”. Em 1571, num acordo secreto, os representantes das famílias mais poderosas, o chanceler Mikołaj Radziwiłł, o Ruivo, e Jan Chodkiewicz, uniram forças para defender os direitos lituanos dentro da nova República. O autor acompanha como essa ideia de república lituana sobreviveu à união nos textos de juristas, poetas e historiadores. (Kuolys 2022)

Os rutenos entre Polônia e Lituânia

Kempa (2019) olha para as terras ucranianas do Grão-Ducado. Na noite de 28 de fevereiro para 1º de março de 1569, os lituanos deixaram Lublin em segredo, e com isso perderam força de negociação. Konstanty Wasyl Ostrogski, voivoda de Kiev, e Stefan Zbaraski, grande magnata da Volínia, ficaram de início, sem apoiar as propostas polonesas, e logo também partiram. Os nobres das terras ucranianas não voltaram a Lublin nem foram à assembleia que os lituanos convocaram em Vilnius, marcando posição própria. Em fins de março, a assembleia regional de Lutsk se distanciou de poloneses e lituanos e recusou a decisão, anunciada pelo rei em março, de unir a Volínia à Polônia sem a participação dos volínios. Só voltaram a Lublin depois de convocações e ameaças do rei de tirar cargos e bens a quem rejeitasse a união. Ali, nos últimos dias de maio, depois de horas de conversa, quatro grandes magnatas volínios aceitaram a incorporação, mediante garantias para seus títulos de príncipe, para os direitos da Igreja ortodoxa e para a autonomia da região, e pediram que Kiev também fosse incluída. (Kempa 2019)

Uma autonomia negociada

Os atos de incorporação da Volínia, com Bratslav, e de Kiev, assinados em 26 de maio e 5 de junho de 1569, descrevem a nova relação entre a nobreza polonesa e a rutena como união “de iguais com iguais e de livres com livres”, fórmula que os deputados ucranianos repetiriam por décadas (Kempa, 2019). As fronteiras das províncias foram declaradas invioláveis, a administração anterior foi mantida e as doações de terras régias, confirmadas. O Segundo Estatuto Lituano continuou a ser a lei dessas terras mesmo depois de 1588, quando a Lituânia adotou o Terceiro Estatuto, e o ruteno seguiu como língua oficial dos tribunais e dos documentos régios para a região. Os deputados de Volínia, Kiev e Bratslav vigiavam de perto esse ponto. Para Kempa, os atos funcionaram como leis fundamentais bilaterais, e os grandes beneficiários foram as famílias principescas da Volínia, como os Ostrogski, os Zbaraski e os Korecki. (Kempa 2019)

A república lituana na literatura

Kuolys (2022) mostra como a ideia de uma república lituana atravessou os séculos seguintes. Na crônica de Maciej Stryjkowski, impressa em Königsberg em 1582, o mito do príncipe romano Palemon, que teria chegado à Lituânia com 500 nobres, vira poema: Palemon é comparado a Eneias, e seus companheiros aos defensores da república romana em Farsália. O prefácio de Lew Sapieha ao Terceiro Estatuto (1588) define a república como reunião e comunidade de pessoas, e esse texto foi reimpresso nas edições do Estatuto até 1786. A Radivilias de Jan Radwan (1592) mostra os Radziwiłł defendendo a república lituana; em 1597 Elias Pilgrimovius dedicou um poema ao “senado e povo lituano”, eco do SPQR romano; e no séc. XVII Albertas Kojalavičius-Vijūkas, professor da universidade de Vilnius, fez da Res Publica Lituana a protagonista de sua história. (Kuolys 2022)

Quatro historiografias da união

A leitura da união mudou com o país de quem escreve. Kempa (2019) resume: historiadores lituanos tenderam a tratar os rutenos do Grão-Ducado como lituanos, e os poloneses, na maior parte, contestaram as teses lituanas. Os historiadores ucranianos, como os lituanos, viram em Lublin a expansão polonesa para o leste, com polonização e catolicização; por muito tempo recusaram-se a destacar que a união acelerou a modernização dessas terras, ponto que os mais recentes passaram a reconhecer. Czerniecka-Haberko (2021) acompanha a historiografia polonesa em cinco épocas, da anterior à insurreição de janeiro ao pós-guerra, passando pela virada do século e pela Segunda República, e conclui que ela foi sobretudo factual, voltada a reconstituir os acontecimentos. (Kempa 2019; Czerniecka-Haberko 2021)

Fontes

  1. Kuolys, D. (2022). "Po Liublino (1569): Lietuvos Respublikos vaizdinys Kunigaikštystės literatūroje". Senoji Lietuvos literatūra 53: 19–48. DOI 10.51554/sll.22.53.02. Acessar
  2. Czerniecka-Haberko, A. (2021). "Unia lubelska w historiografii polskiej XIX i XX wieku". Echa Przeszłości 21(2): 153–169. DOI 10.31648/ep.6349. Acessar
  3. Kempa, T. (2019). "The Attitude of Ruthenian Magnates and Nobles toward the Union of Lublin (1569) and the Problem of the Autonomy of Ukrainian Lands within the Polish-Lithuanian Commonwealth". Zapiski Historyczne 84(4): 41–72. DOI 10.15762/ZH.2019.36. Acessar

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