Atlas da História

Cabanagem (Grão-Pará, 1835–1840)

7 jan. 1835 a jul. 1840 (anistia) · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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A Cabanagem começou em 7 de janeiro de 1835, quando proprietários, artesãos, soldados e camponeses tomaram Belém, e durou até a anistia de julho de 1840. Reuniu uma aliança frágil, com indígenas, contra o controle distante e o trabalho compulsório; o governo regencial respondeu com repressão violenta.

De Belém aos rios: a tomada e a guerra de quatro anos

Segundo Harris (2020), em 7 de janeiro de 1835 proprietários, artesãos, soldados e camponeses tomaram Belém e o fazendeiro Félix Malcher, solto da prisão, foi proclamado presidente por aclamação popular; o governo do Rio recusou-se a reconhecê-lo, apesar de sua declaração de lealdade ao Império. O governo rebelde logo se dividiu entre as elites locais e seus aliados mais pobres. Malcher foi assassinado pelos próprios partidários, e Francisco Vinagre, que o sucedeu, acabou preso pelas forças imperiais (Ricci 2007). Em agosto de 1835 a multidão adotou Eduardo Angelim como terceiro presidente. A capital voltou às mãos imperiais em 13 de maio de 1836, mas a luta se espalhou pela região por mais quatro anos: os rebeldes perdiam vilas e acampamentos sem serem derrotados militarmente, até a anistia geral concedida por d. Pedro II em julho de 1840. Para Ricci (2007), a revolta nasceu em Belém e avançou pelos rios amazônicos e pelo Atlântico. (Harris 2020; Ricci 2007)

Lideranças, bandeiras e o aprendizado da luta

Ricci (2007) conta que, em janeiro de 1835, a bandeira dos levantados era a morte aos portugueses e aos maçons, e que Malcher, uma vez no poder, conclamou os cabanos a largar as armas e voltar ao trabalho, o que a massa entendeu como continuar na mesma condição social. Seu governo foi acusado de atos ilegais, como aumentar o salário de funcionários, recolher armas da Marinha e revalidar moedas de cobre para pagar milicianos sem soldo, e desarmar os revoltosos desagradava à massa; Malcher foi morto, e Francisco Vinagre governou Belém de fevereiro a agosto, dizendo esperar ordens do Império. A prisão de Vinagre levou o irmão Antônio a retomar a cidade, em agosto, numa mortandade sem precedentes; Antônio morreu em combate e Angelim assumiu. Ricci sustenta que os cabanos tiveram um aprendizado de luta, e que parte de sua experiência de classe nasceu da relação com os líderes. Com a carestia, a fuga de moradores e uma epidemia de varíola, Angelim deixou Belém em maio de 1836. (Ricci 2007)

Indígenas e tapuios nas batalhas fluviais

Barriga (2026) afirma que, quanto mais longe do litoral, mais indígenas eram os combates da Cabanagem, que se davam pelos rios e pela mata; os grupos do estuário conheciam bem esses obstáculos. Ricci (2007) vê na revolta uma identidade comum entre indígenas, africanos e mestiços, baseada no ódio ao mandonismo branco e português e na luta por direitos. Mas os povos indígenas se dividiram: segundo Barriga, os Munduruku, que firmaram paz com os portugueses em 1795, combateram em grande parte do lado das forças contrárias aos rebeldes. Em Ixituba, no rio Tapajós, eles apoiavam o comando legalista, com uma força de 50 homens; em 1840, ex-cabanos anistiados procuravam o lugar para se estabelecer, e o comandante deportou em 1838 um tapuio acusado de dizer aos Munduruku que os brancos os enganavam. A autora lembra que a política colonial de recrutamento compulsório de trabalho indígena continuou no Império. (Barriga 2026; Ricci 2007)

Mortes, repressão e leituras da Cabanagem

Ricci (2007) fala em mais de 30 mil mortos, entre mestiços, indígenas e africanos pobres ou escravizados, e em população que só voltou a crescer em 1860; Silva (2009) fala em 30 mil mortos, mais de 35% da população do Grão-Pará em 1819, na repressão. Harris (2020) nota que a pacificação violenta foi justificada pelo governo ao apresentar o movimento como guerra racial de pessoas de cor incapazes de governar-se. Quanto às leituras, Ricci mostra que Domingos Antonio Raiol, o primeiro a estudá-la, depois de 1865, tratou-a como motim político de caráter regional; nos anos 1930, Caio Prado Júnior viu nos cabanos os únicos revolucionários populares que tomaram o poder, e a historiografia marxista seguiu essa linha. A própria Ricci propõe lê-la como revolução social com disputa sobre cidadania e patriotismo. (Ricci 2007; Silva 2009; Harris 2020)

Fontes

  1. Harris, M. (2020). "The Cabanagem in Pará, 1835–1840". Oxford Research Encyclopedia of Latin American History. Oxford University Press. DOI 10.1093/acrefore/9780199366439.013.810. Acessar
  2. Silva, N. F. da (2009). "Cabanagem of Grão-Pará, Brazil, 1835–1840". The International Encyclopedia of Revolution and Protest: 1–2. Wiley. DOI 10.1002/9781405198073.wbierp0277. Acessar
  3. Ricci, M. (2007). "Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo na Amazônia entre 1835 e 1840". Tempo 11 (22): 5–30. DOI 10.1590/s1413-77042007000100002. Acessar
  4. Barriga, L. P. (2026). "A guerra Munduruku e as Cabanagens indígenas nos sertões da Amazônia". Revista Trilhas da História 15 (32): 24–45. DOI 10.55028/9mk5b698. Acessar

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