Atlas da História

Revolta dos Malês (Salvador, 1835)

noite de 24 para 25 jan. 1835 · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Na noite de 24 para 25 de janeiro de 1835, africanos escravizados e libertos, em maioria iorubás e muçulmanos, saíram às ruas de Salvador. O plano foi descoberto e o levante durou horas; a repressão trouxe condenações, expulsões de libertos africanos e leis contra a prática do islã.

Uma revolta planejada e logo detida

Segundo Damião (2025), a revolta ocorreu na madrugada de 24 para 25 de janeiro de 1835 e encerrou um ciclo de insurreições de cativos na Bahia entre 1807 e 1835, com africanos islamizados, em maioria nagôs, se rebelando em vários pontos de Salvador. Para João José Reis, em entrevista ao Brasil de Fato (2025), o plano vinha sendo traçado com meses de antecedência, mas um grupo reunido para ultimar os detalhes foi surpreendido pela polícia e a revolta começou por volta de meia-noite ou uma hora. A estratégia era chegar aos engenhos de açúcar do Recôncavo e levantar os escravizados de lá, mas os rebeldes foram barrados em Água de Meninos pela tropa de polícia montada. Reis fala em um massacre, com mortes de 50 a 60 rebeldes, alguns afogados ao tentar fugir pelo mar, e diz que só dez pessoas do lado oposto morreram e que nenhuma casa foi incendiada. (Damião 2025; Brasil de Fato (24 jan. 2025). Entrevista com o historiador João José Reis sobre a Revolta dos Malês. https://www.brasildefato.com.br/2025/01/24/se-revolta-dos-males-tivesse-vingado-o-haiti-poderia-ser-aqui-defende-historiador-joao-jose-reis (consultado em 08/10/2026).)

Quem eram os rebeldes e o que veio depois

Reis (Brasil de Fato 2025) afirma que o grupo foi formado inteiramente por africanos escravizados e libertos, de origem em grande parte iorubá (os nagôs, na Bahia), e que as lideranças eram muçulmanas. O nome vem de uma palavra iorubá para muçulmano e a liderança escrevia em árabe, em escritos que muitas vezes eram amuletos com passagens do Alcorão. Damião (2025) lembra que a polícia apreendeu roupas brancas, livros e papéis em caracteres arábicos, tábuas de escrever e amuletos, que revelam uma identidade afroislamizada. Houve devassa, interrogatórios e julgamentos; dezenas foram condenados a açoites, prisão e, no caso de 16 rebeldes, à morte, e dezenas de libertos foram expulsos. Leis passaram a perseguir os africanos, com deportação sumária de suspeitos. Reis diz que, até 1835, o islã era praticado com cuidado, mas de modo bastante público, e que depois entrou na clandestinidade, sem ser extinto. (Brasil de Fato (24 jan. 2025). Entrevista com o historiador João José Reis sobre a Revolta dos Malês. https://www.brasildefato.com.br/2025/01/24/se-revolta-dos-males-tivesse-vingado-o-haiti-poderia-ser-aqui-defende-historiador-joao-jose-reis (consultado em 08/10/2026).; Damião 2025)

Jihad, etnia ou luta contra a escravidão: o debate

Damião (2025) mostra que as leituras da revolta mudaram ao longo do tempo. Nos primeiros trabalhos, o padre Etienne Ignace, que a chamou de guerra santa, e Nina Rodrigues destacaram o islã como força unificadora; Manuel Querino, contra o racismo científico, negou a participação de malês e citou só nações como nagô, tapa e bornu. Clóvis Moura, em 1959, voltou à documentação da devassa para mostrar o escravizado insurgente como sujeito ativo, e Décio de Freitas (1976) viu nas insurreições a meta de derrubar o sistema escravista. Reis reconhece a hegemonia malê no bloco rebelde, mas não sua solidão, com uma vanguarda malê e a participação de outras etnias; em 2023 sustentou que os malês viram o levante como harb, guerra política, e não jihad. Alberto da Costa e Silva e Paul Lovejoy criticaram Reis por pouco enfatizar as origens africanas e o contexto do jihad. (Damião 2025)

Fontes

  1. Nascimento, S. R. do; Ribeiro, S.; Barreto, K. R. (2016). "A revolta dos Malês; resistência contra a escravidão e a imposição religiosa, Bahia 1835". Revista Univap 22(40): 178. DOI 10.18066/revistaunivap.v22i40.566. Acessar
  2. Brasil de Fato (24 jan. 2025). Entrevista com o historiador João José Reis sobre a Revolta dos Malês. https://www.brasildefato.com.br/2025/01/24/se-revolta-dos-males-tivesse-vingado-o-haiti-poderia-ser-aqui-defende-historiador-joao-jose-reis (consultado em 08/10/2026). Acessar
  3. Damião, E. C. (2025). "O que dizem por aí: a Revolta dos Malês na historiografia". Revista Em Favor de Igualdade Racial 8 (6): 43–60. DOI 10.29327/269579.8.6-5. Acessar

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