Campanha do faraó Shoshenq I ao Levante (c. 926 a.C.) e as leituras da lista de Karnak
c. 926 a.C. (5º ano de Roboão, segundo 1 Reis 14:25; c. 926 segundo Wilson 2004; c. 930 segundo Gil Orduña 2024, que descreve essa data como a da baixa cronologia) · Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Segundo 1 Reis 14 e 2 Crônicas 12, no quinto ano do rei Roboão o faraó Shishak (Shoshenq I) marchou contra Jerusalém e levou os tesouros do Templo e do palácio. A lista de topônimos do relevo triunfal de Karnak é lida de formas opostas: como roteiro de um exército (leitura tradicional), como imagem ideal de domínio sobre terras estrangeiras sem valor de itinerário (Wilson) ou como sinal de uma campanha voltada ao cobre do sul (Finkelstein). A data e as destruições atribuídas a ela em sítios do Levante também estão em discussão.
O que dizem 1 Reis e 2 Crônicas
O relato de 1 Reis 14:25-26 é curto: no quinto ano do rei Roboão, o rei Shishak do Egito marchou contra Jerusalém e levou os tesouros do Templo de Deus e do palácio, inclusive todos os escudos de ouro que Salomão mandara fazer. Os versículos seguintes contam que Roboão pôs escudos de bronze no lugar e que os guardas os levavam sempre que o rei ia ao Templo. 2 Crônicas 12:2-9 conta a mesma incursão com mais detalhe: 1.200 carros, 60.000 cavaleiros, tropas de líbios, sucitas e cuxitas, tomada de cidades fortificadas de Judá e a mensagem do profeta Semaías, segundo a qual a submissão do rei e dos oficiais evitou a destruição de Jerusalém. (Bíblia Hebraica (Tanakh))
O relevo de Karnak segundo Wilson
Wilson (2004) lembra que os estudiosos que usaram a lista de Karnak como mapa partiram da ideia de que ela guarda a linha de marcha. Ao comparar doze relevos triunfais de Tutmés III, Seti I, Ramsés II e Ramsés III, ele afirma que as listas desse gênero não seguem o itinerário dos exércitos (nas listas de Tutmés III, Gaza, uma das primeiras cidades dos Anais, não aparece) e que as inscrições falam de 'todas as terras estrangeiras' sem nomear campanhas. Daí conclui que o relevo de Shoshenq mostra uma imagem ideal de conquista do mundo conhecido e não pode servir de roteiro. (Wilson 2004)
A leitura de Finkelstein: cobre e Arabá
Finkelstein (2020) escreve que os lugares da lista de Karnak mostram uma campanha dirigida a várias regiões específicas, incluindo o vale de Berseba e áreas vizinhas, e liga a campanha à produção de cobre no Arabá. Em sua reconstrução, a demanda do Egito da 22ª dinastia por cobre e o objetivo provável de monopolizar o metal e desviar o fluxo para a planície costeira do sul e para o Egito levaram à campanha; ele aponta a mudança de tecnologia nos centros de cobre e o escaravelho de Shoshenq I achado em Khirbet en-Nahas. É uma hipótese entre outras e não é a de Wilson. (Finkelstein 2020)
Destruições, data e radiocarbono
Wilson (2004) abre seu artigo com o debate sobre a datação de camadas do século X a.C.: os arqueólogos que defendem a datação tradicional (Stager, Dever) e os que a baixam para o século IX (Finkelstein, Ussishkin) usam camadas de destruição atribuídas a Shoshenq como ponto de apoio, e ele sustenta que a campanha não deixou tantas destruições. Gil Orduña (2024) lembra que a campanha, por volta de 930 a.C., é o marco da baixa cronologia, relata destruições por volta de 930 em Tell Keisan 9a, Tell el-Hammah e Yoqne'am XVII, e conclui que a mudança de cerâmica não se explica por um único evento político. (Wilson 2004; Gil Orduña 2024)
Fontes
- Bíblia Hebraica (Tanakh), na tradução inglesa The JPS Tanakh: Gender-Sensitive Edition (Jewish Publication Society), lida pela API de textos da Sefaria (https://www.sefaria.org/I_Kings.14 e https://www.sefaria.org/II_Chronicles.12), consultada em out. 2026. Acessar
- Wilson, K. A. (2004). The Campaign of Pharaoh Shoshenq I in Palestine. The Bible and Interpretation (Arizona Center for Judaic Studies, Universidade do Arizona), set. 2004. https://bibleinterp.arizona.edu/node/3423, consultado em out. 2026. Acessar
- Gil Orduña, E. (2024). A Bayesian Statistical Reassessment of Levantine Late Iron Age I Radiocarbon Data. Cuadernos de Prehistoria y Arqueología de la Universidad Autónoma de Madrid, 50(1): 135-180. DOI 10.15366/cupauam2024.50.1.007 (https://revistas.uam.es/cupauam/article/download/19541/17355/66600), consultado em out. 2026. Acessar
- Finkelstein, I. (2020). The Arabah Copper Polity and the Rise of Iron Age Edom: A Bias in Biblical Archaeology? Antiguo Oriente, vol. 18, pp. 11-32. Texto lido no Repositorio Institucional da UCA: https://repositorio.uca.edu.ar/bitstream/123456789/11726/1/arabah-copper-polity.pdf, consultado em out. 2026. Acessar
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