Atlas da História

Caverna do Espírito

c. 12 mil a 7 mil anos atrás (Conrad et al. 2016) · Sudeste Asiático continental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

A Caverna do Espírito, na província de Mae Hong Son (norte da Tailândia), foi usada de modo esporádico por caçadores-coletores entre c. 12 mil e 7 mil anos atrás, numa fase de mudança climática. As escavações publicadas por Gorman em 1969 deram as primeiras datas de radiocarbono associadas ao hoabinhiano e indícios, segundo ele, de domesticação de plantas c. 7000 a.C.

Tham Phii man, sobre o vale do riacho Khong

Conrad et al. (2016) grafam o nome tailandês do sítio como Tham Phii man, forma corrigida por Rasmi Shoocongdej, e o descrevem como um abrigo pequeno no alto de um penhasco sobre o riacho Khong, na região cárstica de Mae Hong Son. Segundo Gorman (1972), a caverna se abre num paredão de calcário a 600–700 m de altitude, e as aldeias mais próximas, Mai Sang Nam e Mae Suya, ficam na área shan (thai-yai). Foram caçadores locais que avisaram Gorman do sítio (Conrad et al. 2016); ele contratou guias de Mai Sang Nam, visitou o conjunto de três câmaras em 25 de abril de 1966 e escavou a câmara do meio em junho e julho. O trabalho prolongava o levantamento feito pela Universidade do Havaí com o Departamento de Belas Artes do governo tailandês, que patrocinaram a pesquisa. Algum tempo depois da última camada de ocupação, grandes caixões em forma de barco foram erguidos sobre andaimes nas três câmaras (Gorman 1972). (Conrad et al. 2016; Gorman 1972)

Cinco camadas e datas de carvão de bambu

Gorman dividiu o depósito em cinco camadas, da 5, estéril, à 1, a mais recente, e peneirou o sedimento em malha de 1 mm, recolhendo muito carvão de bambu; das 14 amostras enviadas para radiocarbono, nove foram publicadas (Conrad et al. 2016). Corrigidas, as datas vão de c. 11.690 a 7.622 anos antes do presente (Gorman 1972). Para Conrad et al., formaram uma das primeiras sequências cronológicas sistemáticas do Sudeste Asiático continental. Gorman agrupou as camadas 4 a 2 num nível cultural I, com sumatrálitos e mós associadas a ocre. A partir da superfície da camada 2 surgem enxós quadrangulares lascadas e polidas, facas de ardósia e cerâmica, que formam o nível II; para ele, esses objetos se somaram ao conjunto anterior, que continuou em uso. A camada 1 é a parte mais discutida: datas da resina que reveste cacos de cerâmica dessa camada sugerem que as datas de carvão são cedo demais. Como o ponto segue contestado, Conrad et al. (2016) tratam essa camada com cautela. (Conrad et al. 2016; Gorman 1972)

Plantas e a hipótese do cultivo

Os restos vegetais incluem cabaça (Lagenaria), areca, Canarium, Aleurites, Terminalia, castanha-d'água (Trapa), um pepino (Cucumis) e leguminosas. Para Gorman (1972), as espécies tropicais, que ainda crescem na região, indicam um ambiente pouco alterado entre c. 12 mil e 7.600 anos antes do presente e uma exploração que ia do fundo do vale às cristas. Cabaça, pepino, castanha-d'água e leguminosas sugeririam uma relação com as plantas além da simples coleta; as leguminosas foram tratadas, com cautela declarada pelo autor e sem material de comparação, como possíveis variedades domesticadas. A ideia já estava no resumo de Gorman (1969), que associa o complexo de ferramentas sobre seixos a plantas. Gorman (1972) também julgou que a passagem do Pleistoceno ao Holoceno foi pouco relevante nos trópicos úmidos, sem exigir grandes readaptações. Ossos não queimados, muitos fogões e muito carvão de bambu o levaram a supor que a carne era cortada e cozida em gomos de bambu verde. Conrad et al. (2016) não testaram a hipótese do cultivo. (Gorman 1972; Gorman 1969; Conrad et al. 2016)

Morcegos, lebre e tartaruga: a fauna relida

Da coleção de 1966 resta só uma parte. Os ossos passaram pelo Havaí, seguiram em 1968 para a Universidade de Otago, na Nova Zelândia, e chegaram em 2014 à Universidade do Novo México (Conrad et al. 2016). Na reanálise, morcegos-de-folha-redonda (Hipposideros) dominam as camadas 2, 2a e 4. Eles vivem em grandes colônias e evitam abrigos frequentados por pessoas; seus ossos, inteiros e sem marcas de corte nem de quebra, indicam morte natural. Para os autores, isso aponta para períodos de abandono e uso esporádico do abrigo, e não para a ocupação quase contínua defendida por Gorman. Há poucos sinais de ação humana: a fração de ossos queimados varia de 11% a 28% por camada, e há marcas de corte numa costela de sambar e num fêmur de pequeno mamífero. Um calcâneo de lebre-birmanesa, todo calcinado, na camada 2 (c. 8 mil anos antes do presente), é lido como sinal de perturbação da paisagem. A tartaruga-de-pântano-negra, hoje ausente da área, indica retração da sua distribuição, e um osso de ave do tamanho do galo-banquiva, provável ancestral da galinha, sugere exploração antiga dessa espécie. (Conrad et al. 2016)

Hoabinhiano: de cultura a tecnocomplexo

O termo hoabinhiano foi definido em 1932, num congresso reunido em Hanói, a partir dos trabalhos de Madeleine Colani na região de Hoa Binh, no norte do atual Vietnã (Gorman 1972). Gorman duvidava que sítios espalhados do Vietnã a Sumatra fossem restos de um só grupo cultural e propôs tratá-lo como tecnocomplexo, conjunto de traços técnicos difundido entre povos diversos como resposta a condições comuns. Suraprasit et al. (2021), estudo com a arqueóloga tailandesa Rasmi Shoocongdej entre os autores, citam a caverna entre os abrigos cársticos de altitude da Tailândia e do Laos usados por caçadores-coletores. Descrevem o hoabinhiano como tecnocomplexo marcado por enterros fletidos, sumatrálitos e ferramentas sobre seixos, do fim do Pleistoceno a meados do Holoceno. Em Tham Lod, também em Mae Hong Son, datado de 34 mil a 12 mil anos atrás, os isótopos dos dentes indicam coleta oportunista num mosaico de floresta e campo. (Gorman 1972; Suraprasit et al. 2021)

Fontes

  1. Gorman, C. F. (1969). "Hoabinhian: A Pebble-Tool Complex with Early Plant Associations in Southeast Asia". Science 163: 671–673. DOI 10.1126/science.163.3868.671. Acessar
  2. Conrad, C.; Higham, C.; Eda, M.; Marwick, B. (2016). "Palaeoecology and Forager Subsistence Strategies during the Pleistocene–Holocene Transition: A Reinvestigation of the Zooarchaeological Assemblage from Spirit Cave, Mae Hong Son Province, Thailand". Asian Perspectives 55: 2–27. DOI 10.1353/asi.2016.0013. Acessar
  3. Shoocongdej, R. (2022). "The Hoabinhian: The Late and Post-Pleistocene Cultural Systems of Southeast Asia". In: The Oxford Handbook of Early Southeast Asia. Oxford University Press, p. 149–181. ISBN 9780199355358. DOI 10.1093/oxfordhb/9780199355358.013.16. Acessar
  4. Gorman, C. F. (1972). "Excavations at Spirit Cave, North Thailand: Some Interim Interpretations". Asian Perspectives 13: 79–107. Handle 10125/19128.
  5. Suraprasit, K.; Shoocongdej, R.; Chintakanon, K.; Bocherens, H. (2021). "Late Pleistocene human paleoecology in the highland savanna ecosystem of mainland Southeast Asia". Scientific Reports 11: 16756. DOI 10.1038/s41598-021-96260-4. Acessar

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