Funan
c. 68–550 (Wikidata) · Sudeste Asiático continental
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Reino antigo com centro no delta do Mekong, conhecido sobretudo pelo sítio de Óc Eo. Comerciantes indianos estavam presentes ali, o que liga Funan às rotas marítimas do oceano Índico.
Os enviados de Wu e os livros perdidos
Para Chen (1988), os escritos de dois enviados chineses são material indispensável para a história antiga do Camboja. No século III, o reino de Wu enviou a Funan dois funcionários, Zhu Ying e Kang Tai. De volta, Zhu Ying escreveu um livro sobre as coisas estranhas de Funan e Kang Tai um relato dos países estrangeiros da época Wu; ambos se perderam, mas trechos sobrevivem citados no Comentário ao Clássico das Águas e em obras Tang e Song. A data da missão é discutida. Sugimoto Naojirō a punha em 229, Pelliot entre 245 e 250, Watabe entre 243 e 252. Chen Xiansi, da Universidade de Zhengzhou, argumenta que os enviados vieram por ordem do próprio soberano Sun Quan, encontraram o rei Fan Xun, que sucedeu a Fan Zhan; segundo Chen (1988), foi Fan Zhan, ainda no trono, quem mandou músicos a Wu em 243, e conheceram ali dois enviados indianos, Chen e Song. Eles respondiam a uma embaixada de Fan Zhan à Índia e levaram quatro anos para chegar; daí sua proposta de 244 a 247. (Chen 1988)
Liuye e Hun Tian: o relato de fundação
O Livro de Liang, que se apoia em Kang Tai, conta que Funan era governado por uma mulher, Liuye (Folha de Salgueiro). Hun Tian, de um país ao sul, sonhou que um deus lhe dava um arco, embarcou num navio mercante e chegou a Funan; quando o povo de Liuye tentou tomar o navio, ele disparou uma flecha que atravessou um barco; a rainha se rendeu, e ele a ensinou a vestir-se com um pano, casou-se com ela e passou a governar (Inuishi 1975). Uma inscrição sânscrita de 658, de Mỹ Sơn, em Champa, narra outra versão: o brâmane Kauṇḍinya chega com uma arma recebida de Aśvatthāman e casa com Somā, filha de um rei nāga. Há décadas se discute o nome original de Hun Tian: Coedès e Yamamoto Tatsurō liam Kauṇḍinya, Sugimoto, Kuṇḍina. Inuishi aceita Kauṇḍinya, mas propõe que a inscrição se refira a um segundo Kauṇḍinya, que no fim do século IV teria imposto leis indianas, e fala em duas dinastias de conquistadores indianos. É uma leitura do autor; Bui (2023), com a arqueologia vietnamita, sustenta que a cultura de Óc Eo se formou sobre uma base local. (Inuishi 1975; Bui 2023)
Óc Eo: canais, palafitas e oficinas de contas
Louis Malleret escavou Óc Eo em 1944, e entre 2017 e 2020, num projeto coordenado pela Academia Vietnamita de Ciências Sociais, três institutos abriram mais de 16.000 m² em oito pontos de Óc Eo – Ba Thê, área de cerca de 160 ha na província de An Giang (Bui 2023). As casas eram palafitas sobre estacas de madeira, ao longo de canais. O canal de Lung Lớn, natural, com 30 a 35 m de largura e 1,5 a 2 m de profundidade, só dava passagem a barcos pequenos, de que restaram remos; para Bui, levavam mercadorias até um porto onde ancoravam navios maiores, e o canal teve intenso movimento de meados do século II ao início do VII. Ali saíram 218 mil contas de vidro, e há indícios de oficinas de vidro e pedras. Contas de Óc Eo foram achadas na Tailândia, na Malásia, na China e na Coreia. Entre os objetos de fora há cerâmica romana do século II, espelho e moedas wuzhu dos Han, cerâmica indiana da época Gupta e da Ásia Ocidental do século VIII. A 12 km dali, Nền Chùa, escavada em 1982–83 e em 2018, seria a porta para o mar. (Bui 2023)
Ba Thê: templos de Vishnu, Shiva e do Buda
Ao pé do monte Ba Thê, as escavações revelaram um conjunto religioso com templos, portões, muros, poços sagrados e um caminho cerimonial de tijolos de mais de 200 m que leva ao pagode de Linh Sơn, onde há uma estátua de Vishnu (Bui 2023). Em Gò Út Trạnh, três templos hindus de planta quadrada, dos séculos VI e VII, são lidos como dedicados a Brahma, Vishnu e Shiva. Em Linh Sơn Bắc apareceram uma estela com letras sânscritas e khmer, da primeira metade do século VIII, e uma imagem do Buda em meditação, declarada tesouro nacional em 2021, como um anel de ouro do século V com o touro Nandin. Em Nền Chùa, um linga de pedra, o corpo de uma Durga e a mão de um Surya indicam outro templo hindu. Para Bui, a presença de imagens hindus e budistas mostra a convivência das duas religiões. Ele conclui que Óc Eo foi uma cidade no interior da planície costeira, ligada ao golfo da Tailândia por canais, e não apenas um porto. (Bui 2023)
Um fim mais tardio do que se dizia
Na visão corrente, consolidada por Coedès, o Chenla anexou Funan no início do século VII e o extinguiu nas primeiras décadas do período Zhenguan (627–649). Fukami Sumio (2025) propõe outra cronologia: Funan teria sido anexado três vezes pelo Chenla entre meados do século VI e o início do VII, deslocando-se para o sul, e sobrevivido. A última menção seria do monge Yijing, em 691, que fala do país de Banan, antes chamado Funan, onde o budismo florescera, mas fora suprimido por um mau rei. Outro monge, Yilang, trocou de navio em Funan por volta de 670, sinal de que o porto ainda servia às rotas do mar da China Meridional. Fukami registra também as grafias 扶南, 跋南 e 夫南, que trata como transcrições do mesmo som, e aponta Angkor Borei como provável sede. Para ele, Funan conviveu na região do delta com o primeiro Srivijaya; é uma hipótese assumida como afastada do consenso. (Fukami 2025)
Fontes
- Bui, M. T. (2023). "Memory of Oc Eo ancient city and Funan Kingdom in light of recent archaeological discoveries". The Russian Journal of Vietnamese Studies 7: 53–67. DOI 10.54631/vs.2023.71-321707. Acessar
- Nguyễn, V. K.; Doãn, T. A. (2022). "Indian merchants in ancient Southeast Asia: the case of Óc Eo – Funan". Journal of Global and Area Studies 6: 155–173. DOI 10.31720/jga.6.1.8. Acessar
- Chen, X. (1988). "朱応, 康泰が使節として扶南へ出た年代について [Analysis of the Time of Zhu Ying and Kang Tai's Serving as Diplomatic Envoys to Funan]". Tōnan Ajia: Rekishi to Bunka (Southeast Asia: History and Culture) 17: 107–114. DOI 10.5512/sea.1988.107. Acessar
- Inuishi, H. (1975). "扶南の建国説話について [The Nationalization Narratives of Fu-nan]". Indogaku Bukkyōgaku Kenkyū (Journal of Indian and Buddhist Studies) 24(1): 166–167. DOI 10.4259/ibk.24.166. Acessar
- Fukami, S. (2025). "7世紀後半の扶南と初期シュリーヴィジャヤ [Funan and early Srivijaya in the latter half of the 7th Century]". Tōnan Ajia: Rekishi to Bunka (Southeast Asia: History and Culture) 54: 5–26. DOI 10.5512/sea.2025.54_5. Acessar
Na mesma região
- Cobre de minas distantes nas primeiras peças de bronze do nordeste da Tailândia: Xepon (Laos) em Ban Chiang e Khao Wong Prachan (Tailândia central) em Ban Non Wat fim do séc. XI a.C. (fim do séc. XI e séc. X a.C., datas das sepulturas com as peças de cobre mais antigas, conforme Higham e colegas 2015)
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- Angkor Wat séc. XII (Wikidata, precisão de século)
- Reino de Ayutthaya 1350–1767
- Ban Chiang c. 1500 a.C. em diante (UNESCO; Higham et al. 2015)
- Indochina Francesa 1887–1954