Genocídio armênio
24 abr. 1915 a 1923 (Wikidata) · Anatólia e Cáucaso, Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Destruição sistemática do povo armênio no Império Otomano durante a Primeira Guerra Mundial, por meio de deportações e assassinatos em massa conduzidos pelas autoridades otomanas. Os mortos estão estimados entre cerca de 1 milhão, na fase principal de 1915–1916 (Tatoyan 2025), e 1,5 milhão (Gust 2013). A historiografia citada aponta o governo do Comitê União e Progresso como responsável.
Um partido que funcionava como governo paralelo
Galustyan (2022), do Museu-Instituto do Genocídio Armênio, em Erevan, reconstitui a trajetória do Comitê União e Progresso. Fundado em 1889 como sociedade secreta de membros de origens variadas, ele já era, no golpe de 1908, uma organização turco-muçulmana que queria um Estado-nação turco. Depois da lei de associações de 1909, separou-se formalmente da bancada parlamentar, mas seguiu agindo como governo paralelo; um relatório de Bahaeddin Şakir contava, no fim de 1909, 360 centros e mais de 850 mil membros. Com a invasão da Sublime Porta, em 23 de janeiro de 1913, o partido instalou uma ditadura que durou até a derrota de 1918: ministros, governadores, juízes e professores eram quadros seus. Decidia um comitê central de 12 a 16 pessoas, no qual os médicos Bahaeddin Şakir e Nazım tinham poder real sem cargo visível. Hofmann (2021) lembra que Talaat foi ministro do Interior de 1913 a 1917 e grão-vizir até outubro de 1918. (Galustyan 2022; Hofmann 2021)
Racismo, guerra e “inimigos internos” no ideário unionista
Para Galustyan (2022), as deportações e massacres não foram aplicação direta de uma doutrina nem fruto de uma única decisão, e sim de teorias ajustadas à crise política e econômica e ao projeto de um Estado-nação turco; é a tese da autora. Ela rastreia influências europeias: as hierarquias raciais de Gobineau e Le Bon, traduzido por Abdullah Cevdet; a turcologia de Vámbéry e Léon Cahun, cuja leitura despertou o interesse de Ziya Gökalp pela história turca; e o general prussiano Colmar von der Goltz, que formou oficiais otomanos entre 1883 e 1895 e difundiu a ideia de “nação em armas”. Seguindo esse modelo, Ahmed Rıza publicou em 1907 um folheto que tratava os cristãos não otomanizados como inimigos internos. Cita ainda Parvus, conselheiro econômico em Istambul, que pregava uma economia nacional e boicotes a produtos europeus; esses boicotes, observa ela, acabaram atingindo sobretudo comerciantes armênios e gregos. Racismo e darwinismo social seriam, na sua leitura, os dois legados principais. (Galustyan 2022)
Trebizonda: boicote, ordens seladas e deportação
Abrahamyan (2022), em artigo em armênio, reconstitui o caso de Trebizonda com memórias, imprensa armênia e depoimentos do julgamento de 1919. Em setembro de 1908 um cartaz anônimo afixado nas ruas já pedia a eliminação dos armênios para salvar o Estado. Em 1913–1914 os unionistas incitaram um boicote contra comerciantes armênios e gregos, e mercadorias ficaram retidas no porto. Em julho de 1914 Cemal Azmi assumiu o governo da província; no outono, presos foram soltos para engrossar bandos irregulares (çete). No início de junho de 1915 chegou Bahaeddin Şakir, chefe da Organização Especial; segundo testemunhas ouvidas em 1919, trazia instruções em envelopes selados. Seguiram-se reuniões com governador e funcionários, o assassinato de notáveis levados de barco “para Samsun” e, em 26 de junho, o edital de deportação. O primeiro comboio saiu em 1º de julho. A autora lê a entrega de crianças a “orfanatos” oficiais como turquificação, citando relatos do cônsul dos EUA, Oscar Heizer. (Abrahamyan 2022)
Cortes marciais, anistia e o julgamento de Berlim
Segundo Hofmann (2021), as prisões só começaram em abril de 1919, quando a maioria dos suspeitos já tinha fugido. Em 1919–1920 as cortes marciais de Istambul condenaram à morte 17 dirigentes, mas só três sentenças foram cumpridas; em 5 de julho de 1919 Talaat, Enver e Cemal foram condenados à revelia. O governo de Ancara aboliu essas cortes em 11 de agosto de 1920, e a anistia de 31 de março de 1923 libertou os presos; os detidos em Malta pelos britânicos foram soltos em 1921, numa troca por reféns. Uma rede ligada à Federação Revolucionária Armênia, a Operação Nêmesis, passou a perseguir os condenados. Em 15 de março de 1921 Soghomon Tehlirian matou Talaat em Berlim; após um julgamento de um dia e meio, o júri o absolveu em 3 de junho, sem dar motivo; o promotor supôs que fosse por incapacidade de culpa. O jurista Raphael Lemkin, então estudante, acompanhou o caso pela imprensa e escreveu que ali sentiu a falta de uma lei contra o assassinato de grupos raciais ou religiosos. (Hofmann 2021)
Cônsules estrangeiros como testemunhas
A apresentação do volume organizado por Gust (2013) destaca que só a Alemanha, aliada otomana, podia enviar diariamente relatórios cifrados sobre o que ocorria. Hofmann (2021) cita um deles: em 7 de julho de 1915 o embaixador Wangenheim informou a Berlim que as deportações tinham sido estendidas a Trebizonda, Mamuret-ül-Aziz e Sivas, províncias sem ameaça de invasão, e concluiu que o governo buscava eliminar os armênios do Império. Em Trebizonda, segundo Abrahamyan (2022), o cônsul norte-americano Heizer escreveu que bastava ser armênio para ser tratado como criminoso, e o cônsul austro-húngaro informou a Viena, em 20 de julho, que as promessas de poupar os católicos não eram sérias, pois eles também foram deportados. Os armênios da cidade apelaram aos cônsules dos EUA, da Áustria-Hungria, da Alemanha e da Itália; as exceções obtidas (doentes, viúvas, católicos, protestantes) foram desfeitas semanas depois. (Gust 2013; Hofmann 2021; Abrahamyan 2022)
Fontes
- Akçam, T. (2012). The Young Turks' Crime against Humanity. Princeton University Press. DOI 10.1515/9781400841844; ISBN 9780691153339. Acessar
- Suny, R. G. (2015). "They Can Live in the Desert but Nowhere Else": A History of the Armenian Genocide. Princeton University Press. DOI 10.1515/9781400865581. Acessar
- Tatoyan, R. (2025). "Calculations of the Armenian Death Toll during the Main Phase of the Armenian Genocide (1915–1916): Sources, Data, and Methods, 1915–1923". Ցեղասպանագիտական հանդես 13: 8–45. DOI 10.51442/jgs.0060. Acessar
- Gust, W. (org.) (2013). The Armenian Genocide: Evidence from the German Foreign Office Archives, 1915–1916. Berghahn Books. DOI 10.3167/9781782381433; ISBN 9781782381433. Acessar
- Galustyan, R. (2022). "The Roots of the Racial Nationalism of the Committee of Union and Progress: Ideas, Individuals, Influences". International Journal of Armenian Genocide Studies 7(1): 7–25. DOI 10.51442/ijags.0027. Acessar
- Abrahamyan, L. Y. (2022). "Նախապատրաստելով Հայոց ցեղասպանությունը Տրապիզոնում. վաղ փուլ և ակտիվացում". Ցեղասպանագիտական հանդես 10(2): 26–48. DOI 10.51442/jgs.0032. Acessar
- Hofmann, T. (2021). "A Hundred Years Ago: The Assassination of Mehmet Talaat (15 March 1921) and the Berlin Criminal Proceedings against Soghomon Tehlirian (2/3 June 1921): Background, Context, Effect". International Journal of Armenian Genocide Studies 5(1): 67–89. DOI 10.51442/ijags.0009. Acessar
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