Atlas da História

Mães da Praça de Maio

desde 30 abr. 1977 · Cone Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Movimento de mães de desaparecidos da ditadura argentina iniciada em 1976. Em 30 de abril de 1977, 14 mães, por iniciativa de Azucena Villaflor, reuniram-se na Praça de Maio, diante da Casa de Governo, para esperar o general Jorge Rafael Videla, então a mais alta autoridade do Estado; do grupo nasceram, no fim daquele ano, as Avós da Praça de Maio.

Mães da Praça de Maio
Mães com lenços brancos na marcha das quintas-feiras na Praça de Maio, como fazem desde 1977 para cobrar o paradeiro de filhos desaparecidos. A foto é de 2005. Mães da Praça de Maio, Georgez, 2005. CC BY (2.0 a 4.0). Ver no acervo

Das repartições à ronda das quintas-feiras

Antes de chegar à praça, as mães percorreram hospitais, prisões, necrotérios, delegacias e igrejas, e aprenderam a usar o habeas corpus (D'Antonio 2018). Já existiam outras entidades, como a Liga Argentina pelos Direitos do Homem, a Assembleia Permanente pelos Direitos Humanos e os Familiares de Desaparecidos e Detidos, criada em 1976 (Zarranz 2026). Em agosto de 1977, numa quinta-feira à tarde, desafiando a norma do estado de sítio que proibia reunir mais de três pessoas na rua, elas começaram a caminhar em volta da pirâmide da Praça de Maio. Diante da ordem policial de "circular", tomaram-se pelo braço e andaram em duplas; desde então, marcham todas as quintas-feiras às 15h30, sem interrupção, e a ocupação da praça acabou dando nome à organização (Zarranz 2026). (D'Antonio 2018; Zarranz 2026)

Lenços-fralda, solicitadas e o sequestro na Santa Cruz

Em setembro de 1977, as mães publicaram no jornal La Prensa uma primeira solicitada paga, com mais de duzentas assinaturas e os nomes dos desaparecidos que conheciam; pouco depois passaram a cobrir a cabeça com o lenço branco, o "pañuelo-pañal" (D'Antonio 2018). Barroso Rego (2025) lembra que os lenços eram originalmente as fraldas dos filhos e netos levados. Entre 8 e 10 de dezembro de 1977, um grupo de ativistas que se reunia na Igreja de Santa Cruz foi sequestrado e assassinado; entre eles estavam as mães Azucena Villaflor de De Vincenti, Mary Ponce de Bianco e Esther Ballestrino de Careaga, que havia fugido da ditadura de Higinio Morínigo no Paraguai. Dois dias depois, mães e familiares publicaram em La Nación outra solicitada, com mais de oitocentas assinaturas, pedindo o paradeiro dos desaparecidos, estivessem vivos ou não. (D'Antonio 2018; Barroso Rego 2025)

Uma foto holandesa e as redes de denúncia

No início de 1978, durante o Campeonato Mundial de Hóquei na Argentina, o jogador holandês Hans Jorritsma fotografou a ronda e publicou a imagem num jornal de seu país, o que mobilizou grupos de mulheres na Holanda e em outras partes da Europa. O regime respondeu, durante a Copa do Mundo de futebol daquele ano, com a campanha "Los argentinos somos derechos y humanos". Mães viajaram aos Estados Unidos e à Europa e fizeram contato com Patricia Derian, do governo Carter, com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e com a Anistia Internacional. Na visita da CIDH à Argentina, em 1979, formaram-se longas filas na Avenida de Mayo; cerca de 150 mães foram recebidas, e a comissão registrou 5.580 denúncias, 4.153 delas novas. Em 1980, mulheres holandesas financiaram a primeira sede do grupo (D'Antonio 2018). (D'Antonio 2018)

Marcha da Resistência e Siluetazo

No início dos anos 1980 surgiu a palavra de ordem "aparición con vida" (D'Antonio 2018). Em 10 de dezembro de 1981, Dia Internacional dos Direitos Humanos, as mães fizeram a primeira Marcha da Resistência: ocuparam a Praça de Maio por 24 horas seguidas, desafiando o estado de sítio. A ditadura mobilizou grande aparato policial e, à noite, cortou a luz da praça. Em 21 de setembro de 1983, na III Marcha da Resistência, aconteceu o Siluetazo: centenas de silhuetas humanas em tamanho natural foram desenhadas, pintadas e coladas na praça e arredores, tornando visível a ausência dos desaparecidos (Longoni e Bruzzone, citados por Zarranz 2026). Para Zarranz, essas ações fizeram do corpo um instrumento político e borraram a fronteira entre o público e o privado. (Zarranz 2026; D'Antonio 2018)

Os lenços como monumento da ausência

Barroso Rego (2025) lê os lenços brancos das Mães e das Avós como lugares de memória, no sentido de Pierre Nora: diante da falta de túmulo e de rito fúnebre, as fraldas perderam sua função e passaram a guardar a memória de cada pessoa desaparecida. O número de desaparecidos segue em disputa: a CONADEP, em 1983–84, registrou mais de 9 mil casos, o governo depois falou em 11 mil, e organizações da sociedade civil estimam cerca de 30 mil (Barroso Rego 2025); já em setembro de 1978, uma carta das mães ao presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano, antes da conferência de Puebla, estimava cerca de 30 mil pessoas detidas clandestinamente em três anos (D'Antonio 2018). Felitti e Morales, citadas por Barroso Rego, veem nos lenços verdes do movimento feminista latino-americano pela legalização do aborto uma herança dos lenços brancos. Hoje o movimento se divide entre a Associação Mães da Praça de Maio e a Linha Fundadora (D'Antonio 2018). (Barroso Rego 2025; D'Antonio 2018)

Fontes

  1. Grenat, S. (2009). "Madres de la Plaza de Mayo". In: Ness, I. (ed.). The International Encyclopedia of Revolution and Protest. Wiley-Blackwell, p. 1–3. DOI 10.1002/9781405198073.wbierp0946; ISBN 9781405184649. Acessar
  2. Barroso Rego, L. (2025). "Monumentalização do ausente a partir do simbolismo dos lenços das Madres e Abuelas de Plaza de Mayo". Revista Latino-Americana de História 13(30). DOI 10.4013/rlah.2025.1.12. Acessar
  3. D'Antonio, D. (2018). "Redes de denuncias políticas y jurídicas por violaciones a los derechos humanos en el plano internacional: el rol de las Madres de Plaza de Mayo (Argentina, 1976-1983)". Travesía 20(2): 15–44. DOI 10.70198/t.291. Acessar
  4. Zarranz, L. (2026). "Madres de Plaza de Mayo: el cuerpo como construcción política". RevCom 17: e098. DOI 10.24215/24517836e098. Acessar

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