Atlas da História

Guerra do Paraguai / Guerra da Tríplice Aliança

dez. 1864 (ou out. 1864) a 1º mar. 1870 · Cone Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Conflito de grande escala na América do Sul, entre 1864 e 1870, que opôs o Paraguai ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai. A queda da população paraguaia na guerra é estimada entre 8,7% (Reber 1988) e 69% (Whigham e Potthast 1999, segundo Kleinpenning 2002), e sua escala segue em debate.

Leia sobre isto

Trincheira de Curupaytí
Pintura de Cándido López, soldado argentino que perdeu o braço direito na guerra e passou a pintar com a esquerda. Mostra a batalha de Curupaytí de 1866 do lado dos aliados. Trincheira de Curupaytí, Cándido López, 1899. Domínio público. Ver no acervo

Do Uruguai ao Marquês de Olinda

Caimi e Teixeira (2013) mostram que todos os livros didáticos brasileiros que analisaram apontam o mesmo estopim: a captura do vapor brasileiro Marquês de Olinda pelo governo paraguaio, em 11 de novembro de 1864, quando subia o rio Paraguai rumo a Cuiabá levando o coronel Frederico Carneiro de Campos, novo presidente da província de Mato Grosso. A historiografia de orientação marxista, porém, desloca a origem para o Uruguai: em 1863–64, segundo essa leitura, o Império apoiou, a pedido de estancieiros gaúchos, a "Cruzada Libertadora" que derrubou o governo blanco de Atanasio Aguirre e levou ao poder o colorado Venancio Flores. Os blancos eram aliados do governo paraguaio, que havia declarado que a deposição de um governo amigo por potência estrangeira seria motivo de guerra. Ao Paraguai interessava o equilíbrio de forças no Prata e uma saída para o mar pelo porto de Montevidéu. (Caimi e Teixeira 2013)

Quatro maneiras de contar a guerra no Brasil

Caimi e Teixeira (2013) dividem a historiografia brasileira da guerra em quatro "atos": a tradicional militar-patriótica, do pós-guerra até os anos 1930; a crítica positivista, de Raimundo Teixeira Mendes e outros, que chegou a propor a devolução dos troféus de guerra ao Paraguai; o revisionismo de esquerda dos anos 1960 a 1980; e o neorrevisionismo, desde os anos 1990. Num corpus de onze livros didáticos, um por década, os autores veem os mesmos deslocamentos: até os anos 1970 o Brasil aparece agredido de surpresa; em 1984 o manual de José Dantas inverte os papéis e afirma que o Brasil, em busca de um pretexto, enviara o navio carregado de armas; e entre 1990 e 2010 os textos passam a atribuir a versão da agressão "aos militares brasileiros". Os manuais dos anos 2010 combinam razões políticas, territoriais e econômicas. (Caimi e Teixeira 2013)

Alberdi, O'Leary e as raízes do revisionismo

Pires Junior e Izecksohn (2020) recuam a crítica à guerra até o argentino Juan Bautista Alberdi, que em 1865 publicou panfletos reunidos em 1869 como La Guerra del Paraguay. Para Alberdi, o conflito prolongava as guerras civis argentinas, opondo Bartolomé Mitre e Buenos Aires às províncias, somadas ao expansionismo brasileiro; os autores apontam também o determinismo racista desses textos. No Paraguai, a recuperação de Solano López começou com Juan E. O'Leary, em 26 artigos publicados a partir de maio de 1902 no jornal La Patria, de Assunção. A mãe de O'Leary fora uma das "destinadas", mulheres de famílias acusadas de traição que vagavam pelas cordilheiras durante a guerra, famintas e atacadas. Depois da Guerra do Chaco (1932–1935) e do governo de Rafael Franco, o lopizmo virou política de Estado. (Pires Junior e Izecksohn 2020)

A tese do imperialismo britânico posta à prova

Nos anos 1960, autores como José María Rosa e León Pomer, na linha da teoria da dependência, atribuíram a guerra aos interesses britânicos; no Brasil, os estudos revisionistas se afirmaram com Genocídio americano (1979), de Júlio José Chiavenato, e se misturaram à oposição à ditadura (Caimi e Teixeira 2013; Pires Junior e Izecksohn 2020). Pires Junior e Izecksohn argumentam que faltam provas: com base em Abente Brun (1987), o algodão paraguaio vendido à Grã-Bretanha equivalia a cerca de 3% do que o Brasil exportava do mesmo produto para lá, e em 1880 os negócios britânicos no Paraguai eram 1% do investimento britânico na América do Sul. Francisco Doratioto, em Maldita guerra (2002), explicou a guerra pelas contradições platinas e pela ação agressiva do governo paraguaio e descartou a interferência britânica; Caimi e Teixeira reconhecem o avanço da obra, mas criticam seu tom patriótico. (Pires Junior e Izecksohn 2020; Caimi e Teixeira 2013)

Contar a população: censos em disputa

A escala da queda da população paraguaia depende de como se leem censos incompletos. Reber (1988) comparou taxas de crescimento com dados de censos e de domicílios e chegou a perdas muito menores que as da tradição. Whigham e Potthast (1999) apresentaram um censo de 1870 recém-encontrado e concluíram que as estimativas altas tradicionais estavam basicamente corretas. Kleinpenning (2002) contestou: o censo de 1870–72 contou 116.351 habitantes, e os dois autores acrescentaram de 25 a 50 mil pessoas para povoados que não enviaram dados; para ele, essa soma superestima a confiabilidade dos censos paraguaios da época. Caimi e Teixeira (2013) registram que a tese de genocídio difundida por Chiavenato em 1979 é hoje contestada por grande parte dos estudiosos. (Reber 1988; Whigham e Potthast 1999; Kleinpenning 2002; Caimi e Teixeira 2013)

Fontes

  1. Doratioto, F. (2002). Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. Companhia das Letras. ISBN 9788535902242.
  2. Whigham, T. L.; Potthast, B. (1999). "The Paraguayan Rosetta Stone: New Insights into the Demographics of the Paraguayan War, 1864–1870". Latin American Research Review 34: 174–186. DOI 10.1017/s0023879100024341. Acessar
  3. Reber, V. B. (1988). "The Demographics of Paraguay: A Reinterpretation of the Great War, 1864-70". Hispanic American Historical Review 68: 289–319. DOI 10.1215/00182168-68.2.289. Acessar
  4. Kleinpenning, J. M. G. (2002). "Strong Reservations about “New Insights into the Demographics of the Paraguayan War”". Latin American Research Review 37: 137–142. DOI 10.1017/s002387910002450x. Acessar
  5. Pires Junior, A. L.; Izecksohn, V. (2020). "Juan Bautista Alberdi, a Guerra do Paraguai e os Revisionismos Históricos". Diálogos 24(3): 132–154. DOI 10.4025/dialogos.v24i3.56810. Acessar
  6. Caimi, F. E.; Teixeira, F. B. (2013). "O passado é imprevisível! Controvérsias historiográficas acerca da Guerra do Paraguai no livro didático de história (1910-2010)". Revista Territórios & Fronteiras 6(3): 67–91. DOI 10.22228/rt-f.v6i0.246. Acessar

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