Atlas da História

Nakba

1948 · Mesopotâmia e Levante

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Expulsão e fuga em massa de palestinos durante a guerra de 1948 na Palestina, que deslocou entre cerca de 700 mil (Slater 2020) e 750 mil pessoas (Slater 2020; Goldstein 2020). Deu origem ao problema dos refugiados palestinos e à disputa sobre o direito de retorno.

Das cidades às aldeias: como a sociedade se desfez

A edição revista do estudo de Benny Morris (2003), refeita com arquivos militares israelenses abertos depois da primeira versão, de 1988, detalha o que se passou em Jerusalém, Jafa e Haifa e como os combates nessas cidades levaram ao colapso da sociedade urbana palestina; o livro trata também das batalhas e atrocidades que desagregaram as comunidades rurais. Slater (2020) registra que as expulsões começaram antes da entrada dos exércitos árabes. Na síntese de Almassri (2023), apoiada em Morris, a saída veio em ondas: entre dezembro de 1947 e março de 1948 partiram sobretudo famílias de classe alta e média, e com elas fecharam escolas, clínicas e comércios; na primavera de 1948 houve o êxodo em massa de bairros e aldeias tomados; em julho e entre outubro e novembro, novas levas. A mesma autora fala em 400 a 600 aldeias atingidas, em nomes de lugares árabes trocados por nomes hebraicos e em menos de 150 mil palestinos que continuaram no território de Israel. (Morris 2003; Slater 2020; Almassri 2023)

O retorno barrado e o nascimento da questão dos refugiados

Segundo Goldstein (2020), a recusa de David Ben-Gurion ao retorno se firmou à medida que as vitórias israelenses se tornavam incontestáveis, apesar das dúvidas éticas do próprio Ben-Gurion e dos esforços internacionais pela repatriação. Em dezembro de 1948, a Assembleia Geral da ONU pediu o retorno dos refugiados, a restituição de propriedades e indenizações (resolução 194), segundo a página da ONU sobre a Questão da Palestina. Almassri (2023), seguindo Morris, relata que em julho de 1949 Israel se dispôs a receber 100 mil pessoas se os Estados árabes reassentassem as demais e fizessem a paz, oferta que estes julgaram pequena demais; Israel recusou o retorno porque queria as terras e casas abandonadas para novos imigrantes e temia a desestabilização. A agência da ONU para os refugiados da Palestina (UNRWA) foi criada pela resolução 302 (IV), de 8 de dezembro de 1949, e começou a operar em maio de 1950; o refugiado é definido por ter vivido na Palestina entre 1º de junho de 1946 e 15 de maio de 1948 e perdido casa e meio de vida na guerra. (Goldstein 2020; Nações Unidas; Almassri 2023)

Fuga ou expulsão: o que as leituras disputam

A primeira edição do livro de Morris, de 1988, abalou as interpretações tradicionais sobre se os palestinos haviam partido por vontade própria ou sido expulsos segundo um plano sistemático (Morris 2003, resumo). Slater (2020) reúne o que historiadores israelenses mostraram: a guerra talvez pudesse ter sido evitada com acordos com os palestinos e com o Egito, e os exércitos árabes que entraram em maio eram pequenos, mal coordenados e movidos mais pela rivalidade entre si do que pela capacidade de destruir Israel, embora sua retórica antissemita tenha levado Israel a ver no ataque um projeto de aniquilação. Para Slater, a expulsão é o que se chama de Nakba ou, em termos atuais, de limpeza étnica. Goldstein (2020) escreve dentro da moldura israelense da Guerra de Independência e discute o momento das decisões, não o nome do evento. Almassri (2023) resume o desencontro: os palestinos veem um plano deliberado de expulsão, enquanto narrativas israelenses costumam culpar os exércitos árabes, incidentes militares ou uma fuga espontânea. (Morris 2003; Slater 2020; Goldstein 2020; Almassri 2023)

Uma memória guardada nos campos de refugiados

O Arquivo de História Oral Palestina (POHA) reúne mais de mil entrevistas em vídeo e áudio com refugiados da Nakba que vivem no Líbano, onde as leis locais lhes negam direitos básicos e os campos foram bases da OLP nos anos 1970 e 1980. Awwad et al. (2026) lembram que essas fontes orais registram a experiência de mulheres e de gente comum, pouco presente nos arquivos e na historiografia nacional. Ao comparar as narrativas por métodos computacionais, mostram que a aldeia de origem é o que mais aproxima as histórias, sobretudo quando os refugiados também vivem no mesmo lugar no exílio, e que os relatos das mulheres são mais coesos entre si nos temas, em especial sobre o período do Mandato Britânico. No plano internacional, a Assembleia Geral da ONU pediu pela resolução 77/23, de 30 de novembro de 2022, que se lembrasse pela primeira vez o aniversário da Nakba, o que ocorreu em 15 de maio de 2023; uma resolução posterior (79/82) tornou a lembrança anual. Segundo a mesma página da ONU, a UNRWA conta mais de 5 milhões de refugiados da Palestina espalhados pelo Oriente Médio. (Awwad et al. 2026; Nações Unidas)

Fontes

  1. Morris, B. (2003). The Birth of the Palestinian Refugee Problem Revisited. Cambridge University Press. DOI 10.1017/cbo9780511816659. Acessar
  2. Khalidi, W. (org.) (1992). All That Remains. Institute for Palestine Studies. ISBN 9780887282249.
  3. Khalidi, R. (2020). The Hundred Years' War on Palestine. Metropolitan Books / Picador (2021). ISBN 9781250787651.
  4. Slater, J. (2020). "The 1948 War". In: Mythologies Without End. Oxford University Press, p. 73–92. ISBN 9780190459086. DOI 10.1093/oso/9780190459086.003.0006. Acessar
  5. Goldstein, Y. (2020). "Ben-Gurion and the Palestinian Refugees". Israel Studies Review 35: 37–55. DOI 10.3167/isr.2020.350104. Acessar
  6. Almassri, J. J. J. (2023). "Forced Migration: The 1948 Palestinian Refugees". Hadtudományi Szemle 16(1): 5–15. DOI 10.32563/hsz.2023.1.1. Acessar
  7. Awwad, G.; Dunagan, L.; Gamba, D.; Rayan, T. N. (2026). "Collective Memory and Narrative Cohesion: A Computational Study of Palestinian Refugee Oral Histories in Lebanon". Computational Humanities Research: 1–16. DOI 10.1017/chr.2026.10046. Acessar
  8. Nações Unidas, Question of Palestine, "About the Nakba". https://www.un.org/unispal/about-the-nakba/ (consultado em 07/10/2026). Acessar

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