Neolitização do Mediterrâneo ocidental (c. 5750–5450 a.C.): expansão costeira rápida e o modelo da colonização marítima pioneira
c. 7700 cal AP (5751 cal a.C., ponto de partida da simulação em Arene Candide) até cerca de 300 anos depois, segundo Isern e outros (2017); anos astronômicos por 1950 − cal AP · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Segundo Isern, Zilhão, Fort e Ammerman (2017), as datas mais antigas do Neolítico no Mediterrâneo ocidental mostram uma expansão de cerca de 2.500 km em aproximadamente 300 anos, a partir de c. 7700 cal AP (5751 cal a.C.), muito mais rápida que a média europeia de cerca de 1 km por ano. A simulação deles indica que viagens costeiras de pelo menos 300 km por geração são necessárias, e que a interação com forrageadores do Mesolítico pode ter ajudado, mas não bastou. O modelo estende a hipótese da colonização marítima pioneira, proposta por Zilhão em 2001.
A base de datas e a hipótese de partida
A base de dados do estudo reúne datas de alta qualidade de 42 sítios do Neolítico Antigo do Mediterrâneo ocidental, do noroeste da Itália, sul da França, Espanha, Portugal e norte do Marrocos, quase todos costeiros. Para cada sítio, os autores escolhem a data mais antiga como o momento em que o Neolítico chegou. A região cantábrica fica de fora porque, para eles, a expansão ali foi um processo independente, do interior para a costa e mais tardio. A hipótese de cabotagem parte de Arene Candide (7660 cal AP, no norte da Itália), por falta de obsidiana sarda nos sítios neolíticos ibéricos. (Isern et al. 2017)
Quatro modelos de dispersão
A simulação usa células de 50 km, gerações de 32 anos e uma taxa de crescimento de 2,8% ao ano. No modelo 1 não há viagem por mar, e o resultado é lento demais. O modelo 2 permite viagens até certo alcance com preferência pelo destino mais próximo; o 3 dá a todos os destinos a mesma probabilidade; o 4 é de saltos: todos os viajantes se deslocam a uma distância fixa pela costa. O 4 é o que melhor reproduz os dados com menor alcance, e com saltos de 350 km todas as áreas costeiras são atingidas na data observada. Os dados dão 8,66 km por ano; o modelo 4 prevê 7,66 km por ano, e o 1, 1,70. (Isern et al. 2017)
Navegar e falta de obsidiana
Os autores lembram que as viagens do Neolítico Antigo são bem documentadas no Mediterrâneo oriental, pela obsidiana de Chipre, do Egeu e do Tirreno, mas que ali as travessias de mar aberto entre as três bacias são raríssimas. No Mediterrâneo ocidental a obsidiana é rara nos sítios dessa idade: aparece em pequenas quantidades no sul da França e ainda não foi documentada na Península Ibérica. Daí concluem que a expansão inicial seguiu rotas costeiras, por agricultores vindos em última análise do noroeste da Itália, e que o interior ibérico recebeu o Neolítico mais tarde do que o modelo prevê, o que pede tratamento melhor da expansão terrestre. (Isern et al. 2017)
O contexto europeu e o que falta
O artigo situa o estudo entre as duas grandes vias de expansão que o DNA antigo sugere, uma pelo Danúbio, ligada à LBK, e outra pela costa mediterrânea, e diz que o modelo da colonização marítima pioneira usa datas de radiocarbono de vida curta para evitar o efeito de madeira velha. Para o futuro, os autores pedem mais datas por AMS onde faltam, modelos mais complexos de interação e mais geografia, como rios e montanhas, e o estudo do DNA antigo. Eles dizem que o ritmo de 5 km por ano ou mais, obtido das datas, é rápido demais para explicações exclusivamente terrestres. (Isern et al. 2017)
Fontes
- Isern, Neus; Zilhão, João; Fort, Joaquim; Ammerman, Albert J. (2017). "Modeling the role of voyaging in the coastal spread of the Early Neolithic in the West Mediterranean". Proceedings of the National Academy of Sciences 114(5): 897–902, 17 jan. 2017. DOI 10.1073/pnas.1613413114. Texto bruto lido em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5293084/ (PubMed Central, HTML baixado com curl e extraído com texto.py), em 30/10/2026. Acessar
Na mesma região
- La Braña 1, homem caçador-coletor mesolítico da serra Cantábrica (León, Espanha), de c. 5900 a.C. 7940–7690 cal AP (c. 5990–5740 a.C. em ano astronômico, 1950 − cal AP), data do esqueleto citada por Olalde et al. (2014); o ano −5865 é o meio do intervalo, usado só como marca no tempo
- Canoas escavadas em tronco de La Marmotta (lago de Bracciano, Itália), as embarcações neolíticas mais antigas conhecidas, de c. 5600–5100 a.C. c. 5620–5085 cal a.C. (ano astronômico c. −5619 a −5084), conforme as seis datas de radiocarbono de Gibaja et al. (2024), calibradas pelos autores: cada canoa tem um intervalo de 2 sigma próprio, de 5620–5480 cal a.C. (canoas 3 e 4) a 5305–5045 cal a.C. (canoa 1); o modelo bayesiano deles põe o conjunto entre 5620–5490 e 5310–5085 cal a.C. O início e o fim do registro são pontos centrais desses limites
- Rev5, mulher do Neolítico inicial de Revenia (norte da Grécia), de c. 6350 a.C., com genoma sequenciado 6438–6264 cal a.C. (intervalo de 95,4%), c. 6437–6263 em ano astronômico (−(ano a.C.) + 1), data da amostra calibrada por Hofmanová et al. (2016); o ano −6350 é o meio do intervalo, usado só como marca no tempo
- Neolítico Antigo da Tessália: Argissa, Sesklo e Achilleion (a partir de c. 6450 a.C.) início do Neolítico Antigo na Tessália só depois de 6500 cal a.C. (limite inferior, 'terminus post quem'), com a data mais antiga de Sesklo em 6450 cal a.C. e a transição para o Neolítico Médio por volta de 6000 cal a.C. em Achilleion, segundo Reingruber e outros (2017); anos astronômicos por −(ano a.C.) + 1
- Caverna Franchthi: do Mesolítico final ao Neolítico Inicial (c. 6600–6450 a.C.) datas combinadas de 6650–6590 cal a.C. (transição) e 6600–6500 cal a.C. (base do estrato de argila cinza), até 6460–6400 cal a.C. (carvão, Neolítico Inicial), segundo a tabela de Reingruber (2015) sobre dados de Perlès e outros (2013); anos astronômicos por −(ano a.C.) + 1
- Como o Neolítico chegou à Grécia e ao Egeu (c. 6600–6400 a.C.): difusão, adaptação local, rotas marítimas e origens múltiplas c. 6600–6400 cal a.C., faixa das primeiras datas de vida curta do Neolítico no sul da Grécia, na Tessália e na costa egeia da Anatólia nas fontes lidas; anos astronômicos por −(ano a.C.) + 1