Paisagem cultural de Murujuga (Ngarda-Ngarli)
mais de 50 mil anos atrás até hoje (UNESCO 1709) · Austrália / Sahul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Paisagem terrestre e marinha no noroeste da Austrália (península de Burrup e arquipélago de Dampier), sob a guarda dos Ngarda-Ngarli. Reúne de 1 a 2 milhões de petróglifos, alguns com marsupiais hoje extintos na região ou no país, e mais de 50 mil anos de cuidado contínuo pela Lei tradicional, segundo a UNESCO, que a inscreveu em 2025.
Uma serra que o mar transformou em arquipélago
Quando começaram as gravações, Murujuga era uma serra no interior, a mais de 100 km da costa (McDonald e Berry 2017). A UNESCO descreve a subida rápida do mar depois da última glaciação, que deslocou a linha de costa em cerca de 160 km e fez das serras áridas um arquipélago; os petróglifos registram essa transição ecológica, e os Ngarda-Ngarli se adaptaram mudando rituais e a própria paisagem, com montes de conchas, pedreiras, pedras fincadas e armadilhas de peixe. Parte dos sítios de ocupação está hoje submersa. McDonald e Berry situam a arte numa sequência de ocupação de 47 mil anos no Pilbara. Os primeiros testes numa ilha externa sugerem que coletores costeiros muito móveis aproveitaram as serras da planície de Abydos à medida que o mar subia. O artigo descreve pela primeira vez estruturas domésticas de pedra de 8063–7355 anos calibrados antes do presente, as primeiras desse tipo na Austrália, e mostra na ilha Rosemary o abandono de uma ilha árida depois do isolamento, com poucos sinais de reocupação. (McDonald e Berry 2017; UNESCO, lista nº 1709)
Petróglifos que guardam a Lei
Para a UNESCO, o valor de Murujuga está no sistema tradicional que a governa, que une atributos materiais e imateriais. As narrativas da criação, os jinna (trilhas de canto), os lugares espirituais e os thalu, sítios de multiplicação, orientam o modo como os Ngarda-Ngarli entendem e manejam a natureza. Os petróglifos vão do naturalismo à abstração: figuras humanas em cenas complexas ou isoladas, de perfil, em pé, correndo ou agachadas, algumas com membros sinuosos que sugerem movimento; pegadas de animais que marcam caminhos espirituais; desenhos geométricos. Rostos arcaicos com preenchimento decorativo, que exigiam técnica muito apurada, são tidos como dos petróglifos mais antigos do lugar e estariam entre as imagens humanas mais antigas conhecidas, segundo a avaliação. As novas gerações aprendem a tradição ao observar a Lei, nos cantos e danças e em ações feitas em lugares de poder espiritual. Os Ngarda-Ngarli têm a obrigação de cuidar da paisagem e sabem que deixá-la de lado pode trazer efeitos danosos. (UNESCO, lista nº 1709)
Ler a idade na cor da rocha
Ramanaidou e Fonteneau (2019) monitoram todo ano dez sítios, dois de controle nas ilhas Dolphin e Gidley e oito mais perto das áreas industriais. As rochas principais, granófiro e gabro, têm uma zona lixiviada de cerca de um centímetro coberta por uma película alaranjada e avermelhada de óxidos de ferro e manganês; gravar era retirar os poucos milímetros de cima e expor a camada mais clara por baixo. Os artistas preferiam o granófiro, de grão fino, e preparavam fundos mais amarelados, ricos em goethita, como tela. A diferença de cor e a razão entre hematita e goethita no fundo e na gravação, medidas com espectrômetro portátil, servem para estimar idades relativas; o fósforo acumulado vem em parte de excrementos de aves. Muitas figuras mostram os alimentos da região, que mudaram com o fim da era glacial e a subida do mar. Com base na posição e na cor, os autores levantam a hipótese de que os petróglifos mais antigos passem de 17 mil anos, bem abaixo dos mais de 50 mil anos que a UNESCO atribui ao conjunto. (Ramanaidou e Fonteneau 2019; UNESCO, lista nº 1709)
Gás, ferro e a destruição chamada de vandalismo
A península abriga portos de minério de ferro e sal, usinas de gás natural liquefeito, amônia e nitrato de amônio, ferrovias, dutos e pedreiras (Ramanaidou e Fonteneau 2019), instalados desde os anos 1960 (González Zarandona 2012). Em artigo em espanhol de 2012, quando o sítio ainda não estava na lista do Patrimônio Mundial, González Zarandona descrevia a disputa entre os donos tradicionais aborígines e os arqueólogos, de um lado, e o governo australiano e um meio cultural que negava valor estético à arte, de outro. Em 2021, o autor, do CIDE (México), lembra que, nos anos 1960, áreas de arte rupestre em vários pontos do país foram destinadas à indústria extrativa e que a lei de patrimônio aborígine da Austrália Ocidental, de 1972, isenta quem prove que não sabia estar destruindo um sítio. Para ele, falar em vandalismo esconde agentes e intenções ligados a valores coloniais; propõe ler a destruição como "iconoclastia da paisagem". Segundo a UNESCO, a gestão hoje é conjunta entre a Murujuga Aboriginal Corporation e o governo estadual; o consentimento da corporação é pedido antes de novos empreendimentos, e um programa de monitoramento acompanha os efeitos das emissões industriais. (Ramanaidou e Fonteneau 2019; González Zarandona 2012; González Zarandona 2021; UNESCO, lista nº 1709)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Murujuga Cultural Landscape", lista nº 1709. https://whc.unesco.org/en/list/1709/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- McDonald, J.; Berry, M. (2017). "Murujuga, Northwestern Australia: When Arid Hunter-Gatherers Became Coastal Foragers". The Journal of Island and Coastal Archaeology 12: 24–43. DOI 10.1080/15564894.2015.1125971. Acessar
- Ramanaidou, E. R.; Fonteneau, L. C. (2019). "Rocky relationships: the petroglyphs of the Murujuga (Burrup Peninsula and Dampier Archipelago) in Western Australia". Australian Journal of Earth Sciences 66: 671–698. DOI 10.1080/08120099.2019.1577299. Acessar
- González Zarandona, J. A. (2021). "Between destruction and protection: the case of the Australian rock art sites". ZARCH 16: 148–153. DOI 10.26754/ojs_zarch/zarch.2021165087. Acessar
- González Zarandona, J. A. (2012). "La destrucción de patrimonio: arte rupestre en la península Burrup". HUMAN REVIEW. International Humanities Review / Revista Internacional de Humanidades 1(2). DOI 10.37467/gka-revhuman.v1.677. Acessar
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