Atlas da História

Restos humanos do Lago Mungo

sepultamentos c. 40 mil anos atrás (± 2 mil); presença humana desde 50–46 mil anos · Austrália / Sahul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Restos humanos sepultados às margens do Lago Mungo, no sudeste da Austrália, datados de cerca de 40 mil anos, numa área ocupada desde 50 a 46 mil anos atrás. Estão entre os sepultamentos mais antigos de Sahul.

Lagos secos, dunas e camadas de tempo

Para a UNESCO, os sedimentos, o relevo e os solos dos lagos Willandra, na zona semiárida do sudoeste de Nova Gales do Sul, guardam um registro das oscilações entre fases glaciais e interglaciais dos últimos 100 mil anos. Stern (2015) explica o mecanismo: quando chovia mais nos Alpes australianos, a água descia pelo rio Lachlan e por seu antigo leito, o arroio Willandra, e enchia os lagos de norte a sul; com menos chuva, eles oscilavam ou secavam. Na margem leste de cada lago o vento ergueu dunas em meia-lua, as lunetas, com camadas alternadas de areia e argila que acompanham o nível da água, relação demonstrada pelo geomorfólogo Jim Bowler. A UNESCO dá cerca de 18.500 anos atrás para o fim dos lagos como ecossistema; Stern situa a secagem final do lago Mungo em cerca de 14.500 anos atrás. A erosão, acelerada desde a instalação da pecuária no fim do século XIX, expõe fogueiras, ferramentas de pedra e ossos, que em geral se desfazem em dois ou três anos depois de expostos. (UNESCO, lista nº 167; Stern 2015)

1968: a Mulher de Mungo e a cremação

No fim de 1968, Jim Bowler avistou restos fragmentados expostos pela erosão; o arqueólogo Harry Allen esteve na equipe que os identificou como humanos. Eram de uma mulher jovem, mais tarde chamada Mungo Lady (Mulher de Mungo), que teria vivido há 42 mil anos; por ter sido cremada, foi tida como a cremação humana mais antiga conhecida, e Allen lembra que a história humana da Austrália passou, quase de um dia para o outro, de milhares para dezenas de milhares de anos (Allbrook e McGrath 2015). O lago Mungo virou parque nacional em 1979 e a região entrou na lista do Patrimônio Mundial em 1981. A UNESCO dá cerca de 40 mil anos para a cremação, afirma que havia humanos na Austrália pelo menos 42 mil anos atrás e registra pigmentos levados às margens dos lagos antes dessa data, mós para moer sementes de gramíneas com mais de 18 mil anos e pegadas humanas de 19 a 23 mil anos. O resumo da Corte Federal de 2025 data a Mulher e o Homem de Mungo entre 40 e 42 mil anos. (Allbrook e McGrath 2015; UNESCO, lista nº 167; Federal Court of Australia)

Fogueiras e peixes nas margens de um lago instável

Um levantamento a pé iniciado em 2009 na parte central da luneta de Mungo registrou 1.442 vestígios em 2 km²; metade são fogueiras, cerca de metade delas com restos de comida, ferramentas ou ambos (Stern 2015). Muitos parecem resultar de um único episódio: lascar algumas peças de um mesmo bloco de silcreto, cozinhar um ovo de emu, assar um bettong. As camadas datadas por luminescência mostram lago cheio de cerca de 50 a 40 mil anos atrás, lago oscilante de 40 a 30 mil e uma fase de 25 a 14,5 mil anos que atravessa o Último Máximo Glacial. Os vestígios se concentram nas fases em que o nível da água subia e descia, e isso, segundo Stern, derruba duas ideias antigas: a de que as pessoas vinham sobretudo quando os lagos estavam cheios de água doce e a de que a área foi abandonada no auge do frio. Num único ponto há fogueiras só com ossos de peixe, todas do auge glacial. Depois da secagem, os vestígios rareiam: menos gente vinha, por menos tempo ou com menor frequência. (Stern 2015)

Alice Kelly e a pesquisa sob consentimento

Allbrook e McGrath (2015) contam que, nos primeiros anos de pesquisa depois de 1968, os interesses indígenas mal foram reconhecidos. Para os donos tradicionais, os sepultamentos só confirmaram o que sabiam: os ancestrais "sempre" estiveram ali, e a Mulher de Mungo é lembrada como "uma das velhas tias". Alice Kelly, mulher mutthi mutthi que havia muito defendia seu povo em Balranald, procurou os pesquisadores, fez amizade com vários deles e mobilizou anciãos pela devolução dos restos retirados das sepulturas. A arqueóloga Isabel McBryde apoiou o direito de consentir antes de cada pesquisa, em vez do protesto ou do processo judicial, como ocorrera com os restos de Kow Swamp, em Vitória. Em 1992, Alan Thorne devolveu os restos da Mulher de Mungo aos donos tradicionais numa cerimônia perto da sepultura. Hoje os Mutthi Mutthi, Paakantji (Barkindji) e Ngyiampaa participam da cogestão, e qualquer pesquisa precisa do aval de um conselho com maioria de donos tradicionais. O acesso a restos humanos segue disputado entre cientistas e custódios indígenas. (Allbrook e McGrath 2015; UNESCO, lista nº 167)

O novo enterro dos 108 ancestrais

Segundo a Corte Federal da Austrália, em 28 de março de 2025, a volta dos restos ancestrais à região dos lagos Willandra foi o fim de esforços de várias gerações de donos tradicionais, feitos a grande custo pessoal. Para os três grupos de donos tradicionais, esses restos são sagrados. O Grupo Consultivo Aborígine, criado em 2015 com membros eleitos dos três grupos, aprovou por unanimidade enterrar de novo os 108 ancestrais, entre eles a Mulher e o Homem de Mungo, perto do ponto de origem de cada um, com cerimônia pequena e privada e sem marcas que indiquem as sepulturas. Os enterros começaram em 3 de março de 2025. Os donos tradicionais divergem sobre o modo de fazê-lo: Jason Kelly, mutthi mutthi e filho de um dos anciãos requerentes, pediu a revisão judicial da recusa da ministra do Meio Ambiente em proteger os restos por declaração; três anciãos queriam que uma consulta aos três grupos definisse o método. A corte rejeitou o pedido por não ver erro de direito. (Federal Court of Australia)

Fontes

  1. Bowler, J. M.; Johnston, H.; Olley, J. M.; Prescott, J. R. et al. (2003). "New ages for human occupation and climatic change at Lake Mungo, Australia". Nature 421: 837–840. DOI 10.1038/nature01383. Acessar
  2. UNESCO World Heritage Centre, "Willandra Lakes Region", lista nº 167. https://whc.unesco.org/en/list/167/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026) Acessar
  3. Allbrook, M.; McGrath, A. (2015). "Collaborative Histories of the Willandra Lakes: Deepening histories and the deep past". In: McGrath, A.; Jebb, M. A. (org.). Long History, Deep Time: Deepening Histories of Place. ANU Press, p. 241–252. ISBN 9781925022537. DOI 10.22459/LHDT.05.2015.14. Acessar
  4. Stern, N. (2015). "The Archaeology of the Willandra: Its empirical structure and narrative potential". In: McGrath, A.; Jebb, M. A. (org.). Long History, Deep Time: Deepening Histories of Place. ANU Press, p. 221–240. ISBN 9781925022537. DOI 10.22459/LHDT.05.2015.13. Acessar
  5. Federal Court of Australia, "Kelly v Minister for the Environment and Water [2025] FCA 264: Summary". https://www.judgments.fedcourt.gov.au/judgments/Judgments/fca/single/2025/2025fca0264/summaries/2025fca0264-summary (consultado em 07/10/2026). Acessar

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