Peste Negra
c. 1347–1351 (Bos et al. 2011) · Europa Ocidental e do Norte, Europa Mediterrânea, Europa Oriental
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Pandemia de peste causada pela bactéria Yersinia pestis que se espalhou pela Europa entre 1347 e 1351. O genoma obtido de vítimas enterradas em Londres em 1348–1350 é de uma cepa ancestral da maioria das atuais, e seus autores atribuem a gravidade da doença ao ambiente, aos vetores e à suscetibilidade humana, não à bactéria.
O genoma de East Smithfield
Bos et al. (2011) trabalharam com o cemitério de East Smithfield, em Londres, aberto no fim de 1348 ou início de 1349 especialmente para os sepultamentos da Peste Negra. Depois de examinar 46 dentes e 53 ossos, reconstruíram um genoma de Yersinia pestis a partir de quatro indivíduos. A bactéria medieval difere da cepa de referência atual CO92 em só 97 posições do cromossomo, sinal de forte conservação genética em cerca de 660 anos, e não tem nenhuma posição derivada exclusiva. Um dos quatro indivíduos trazia uma cepa com três diferenças adicionais, o que indica mais de uma cepa em Londres em 1348–1350 ou mudanças acumuladas numa mesma cepa. Com a data do cemitério, os autores estimaram que todas as cepas atuais que infectam humanos têm um ancestral comum entre 1282 e 1343 d.C., talvez vindo do leste da Ásia. (Bos et al. 2011)
Lápides de 1338 no vale do Chüy
Spyrou et al. (2022), de instituições da Alemanha, do Cazaquistão, da Itália, da Rússia e do Reino Unido, partem dos cemitérios de Kara-Djigach e Burana, no vale do Chüy, perto do lago Issyk-Kul, no atual Quirguistão, escavados entre 1885 e 1892. As lápides mostram um número desproporcional de sepultamentos em 1338 e 1339, e algumas dão como causa uma pestilência não especificada; uma delas registra, no Ano do Tigre, o túmulo do fiel Sanmaq, que morreu de pestilência. Das sete pessoas amostradas, três tinham Y. pestis. A cepa de Kara-Djigach é o ancestral comum mais recente da politomia que deu origem aos ramos 1 a 4 da bactéria, datada entre 1308 e 1339. O vale abrigava comunidades etnicamente diversas, dependentes do comércio e ligadas a várias regiões da Eurásia. (Spyrou et al. 2022)
Marmotas do Tian Shan e a pergunta sobre Justiniano
As linhagens atuais mais próximas da cepa de Kara-Djigach vêm de focos no leste do Cazaquistão, no leste do Quirguistão e em Xinjiang, em geral isoladas de marmotas e seus parasitas, reservatórios primários da bactéria no Tian Shan; Spyrou et al. (2022) veem nisso sinal de uma origem local. O início da Peste Negra costuma ser ligado a surtos na região do mar Negro em 1346, oito anos depois; o caminho até a Eurásia ocidental segue desconhecido, e os autores criticam o foco eurocêntrico que, para eles, dificultou achar a origem. Em 2011, Bos et al. tinham concluído que a peste do séc. XIV introduziu nas populações humanas o ancestral das cepas patogênicas conhecidas e duvidado de que a peste de Justiniano, dos séculos VI a VIII, viesse do mesmo patógeno. Spyrou et al. atribuem essa primeira pandemia a um clado de Y. pestis hoje extinto. (Spyrou et al. 2022; Bos et al. 2011)
Cidades da Itália central que se reinventaram
Luongo (2024) questiona a leitura de que, depois da chegada da peste em 1347–1348, a Itália centro-setentrional tenha se resumido à ascensão de quatro potências, Milão, Veneza, Gênova e Florença, à custa das demais. Ele examina cidades, terras e centros menores da Toscana, da Úmbria, das Marcas e da Emília, áreas tidas como em dificuldade, e mostra seu dinamismo: para adaptar as economias locais a novas condições de mercado, passaram a produzir e vender mercadorias com demanda nova, como panos de lã, algodão tingido, plantas tintórias e papel. As epidemias recorrentes marcaram altos e baixos dessas experiências, mas, para o autor, não autorizam supor um declínio geral desde meados do séc. XIV; o assentamento dos novos equilíbrios deve ser deslocado em cerca de meio século. (Luongo 2024)
A catástrofe demográfica na historiografia espanhola
Serrano Larráyoz (2021), da Universidade de Alcalá, resenha o livro de Castán Lanaspa (2020), que estuda como se formou, na historiografia hispânica, a ideia da Peste Negra de 1348–1350 como autêntica catástrofe demográfica. O livro percorre Navarra, a Coroa de Aragão, com Aragão, Catalunha, Valência e Maiorca, e a Coroa de Castela, região por região, da Galiza à Andaluzia. Segundo a resenha, a partir de meados do séc. XX os historiadores espanhóis adotaram a tese catastrofista de estudos estrangeiros, sobretudo franceses, confirmassem ou não os documentos, e só em meados dos anos 1970 apareceu mais prudência; em Navarra, visões diferentes conviveram. O resultado questiona as posições catastrofistas, embora o resenhista sinta falta de conclusões gerais. (Serrano Larráyoz 2021)
Fontes
- Bos, K. I.; Schuenemann, V. J.; Golding, G. B.; Burbano, H. A. et al. (2011). "A draft genome of Yersinia pestis from victims of the Black Death". Nature 478: 506–510. DOI 10.1038/nature10549. Acessar
- Luongo, A. (2024). "La semplificazione complessa: studi recenti e prospettive sul dinamismo dell'economia urbana dopo la Peste Nera (Italia centrale, 1350-1400 circa)". Società e Storia 183: 119–144. DOI 10.3280/ss2024-183004. Acessar
- Serrano Larráyoz, F. (2021). Resenha de: Castán Lanaspa, G. (2020). La construcción de la idea de la peste negra (1348-1350) como catástrofe demográfica en la historiografía española. Universidad de Salamanca, ISBN 9788413112381. Anais de História de Além-Mar 22: 159–161. https://revistas.rcaap.pt/aham/article/view/33038. Acessar
- Spyrou, M. A.; Musralina, L.; Gnecchi Ruscone, G. A.; Kocher, A. et al. (2022). "The source of the Black Death in fourteenth-century central Eurasia". Nature 606: 718–724. DOI 10.1038/s41586-022-04800-3. Acessar
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