Processo de Galileu Galilei
1613–1633 (condenação em 1633) · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Procedimentos da Inquisição romana contra Galileu Galilei, abertos em 1613 e com audiências em 1615–1616, que terminaram em 1633 com sua condenação como "veementemente suspeito de heresia", nos termos da sentença. Ele foi condenado por sustentar que a Terra se move e que a Bíblia não é autoridade em questões científicas; o caso seguiu em debate até 1992.
Do Sidereus nuncius ao Diálogo de 1632
Mariconda e Vasconcelos (2020) dividem a carreira de Galileu em quatro períodos e chamam de polêmico o que vai de 1610 a 1633. Ele começa com o Sidereus nuncius, de 1610, que anunciou as observações feitas com o telescópio, e com o livro sobre as manchas solares, de 1613. Entre 1613 e 1616 desenvolveu-se uma polêmica teológico-cosmológica que culminou na condenação do sistema de Copérnico pela Inquisição romana. De 1616 a 1623, Galileu disputou com o jesuíta Orazio Grassi sobre os padrões científicos, no Discurso dos cometas (1618) e em O ensaiador (1623). De 1624 a 1630 escreveu o Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo, cuja autorização de impressão levou de 1630 a 1632; publicado em 1632, o livro levou à condenação de 1633 e à abjuração imposta pela Inquisição. (Associação Filosófica Scientiæ Studia)
O preceito de 1616 nos interrogatórios de 1633
Bastianetto (2005), da UFMG, analisa os depoimentos de Galileu de 12 e 30 de abril e a declaração de 10 de maio de 1633, a partir da edição dos documentos do processo publicada em 1984 por Pagano e Luciani. No primeiro, o inquiridor insistiu no que fora dito a Galileu em sua ida a Roma em 1616. Galileu respondeu que fora para saber o que convinha sustentar sobre a opinião de Copérnico e que a Congregação do Índice a declarara, tomada de modo absoluto, contrária às Escrituras, admissível só como suposição. Lembrava-se do preceito de não sustentá-la nem defendê-la, talvez também de não ensiná-la, mas não da expressão quovis modo (de modo algum). Admitiu não ter falado do preceito ao Mestre do Sacro Palácio ao pedir licença para imprimir o Diálogo e alegou que o livro mostrava o contrário da opinião copernicana. (Bastianetto 2005)
Lembrar, esquecer e repetir como defesa
Para Bastianetto (2005), Galileu fez da memória uma estratégia argumentativa. No depoimento de 12 de abril, usou cinco vezes o verbo raccordare (lembrar) para dizer o que recordava e o que não; em 10 de maio, justificou um possível lapso alegando que não precisara pensar no assunto por 14 ou talvez 16 anos. A autora vê também a repetição como recurso: nos depoimentos de abril, ele enunciou sete vezes, de formas diferentes, a tese que não podia sustentar, o movimento da Terra e a imobilidade do Sol. Ela lembra que Galileu trocou o latim por um italiano simples e usou o diálogo, forma cara à literatura humanista, para tornar a ciência compreensível fora do círculo dos especialistas, e descreve a acusação que pesava sobre ele como suspeita de heresia. (Bastianetto 2005)
Depois da sentença: os Discorsi e 1992
Segundo Bastianetto (2005), essa estratégia livrou Galileu da pena de morte, mas não da prisão: viveu até o fim primeiro detido e depois preso na própria casa, vigiado pela Inquisição e sem contato com o meio científico. Mariconda e Vasconcelos (2020) chamam os anos de 1633 a 1642 de período da retomada da mecânica: confinado, Galileu voltou às pesquisas do tempo de Pádua e escreveu os Discorsi, publicados em 1638, com uma ciência da resistência dos materiais e o tratamento clássico da queda dos corpos e do movimento dos projéteis. A segunda edição do livro, de 2020, ganhou um capítulo sobre o processo, escrito a partir dos documentos inquisitoriais e da correspondência de 1632 e 1633. Bastianetto registra que, em 1992, ao reconhecer o erro da Igreja, o papa João Paulo II declarou que as lições do caso continuavam válidas. (Bastianetto 2005; Associação Filosófica Scientiæ Studia)
Fontes
- Finocchiaro, M. A. (org.) (1989). The Galileo Affair: A Documentary History. University of California Press. ISBN 9780520066625.
- Finocchiaro, M. A. (2005). Retrying Galileo, 1633–1992. University of California Press. DOI 10.1525/california/9780520242616.001.0001; ISBN 9780520242616. Acessar
- Pagano, S. M. (org.) (2009). I documenti vaticani del processo di Galileo Galilei (1611–1741). Archivio Segreto Vaticano. ISBN 9788885042629.
- Bastianetto, P. C. (2005). "Memoria e ripetizione come strategie argomentative nelle testimonianze di Galileo Galilei al Santo Offizio". Caligrama: Revista de Estudos Românicos 10: 91–101. https://periodicos.ufmg.br/index.php/caligrama/article/view/29932. Acessar
- Associação Filosófica Scientiæ Studia, "Amostra de Galileu e a nova física (Mariconda, P. R.; Vasconcelos, J., 2ª ed., 2020)". https://www.scientiaestudia.org.br/publicacoes/colecao/resenhas/amostra_galileu_e_a_nova_fisica_2020.pdf (consultado em 07/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Batalha de Lepanto 7 out. 1571 (Wikidata, calendário juliano)
- Concílio de Trento 13 dez. 1545 a 21 fev. 1563 (Wikidata, calendário juliano)
- Almanach Perpetuum, de Abraão Zacuto (Leiria, 1496): tábuas astronômicas impressas das posições do Sol, da Lua e dos planetas 1496, ano da edição impressa em Leiria, segundo Calvo (2004) e Ravenstein (1908). As tábuas são anteriores: Comes (2003) lembra que 1478 seria a data de composição do Almanach, ou pelo menos das tábuas. O registro começa na impressão
- Summa de arithmetica, de Luca Pacioli (Veneza, 1494): tratado de matemática com a primeira exposição impressa da partida dobrada 10 de novembro de 1494, data dada por Correia (2006) para a impressão em Veneza (formato dia/mês do texto; ano astronômico 1494). Di Teodoro (2014) diz apenas que Pacioli voltou a Veneza em 1494 para cuidar da edição; o registro começa nessa data
- Edito de expulsão dos judeus de Castela e Aragão (Granada, 1492) Edito assinado em Granada em 31 de março de 1492; prazo de saída até o fim de julho do mesmo ano. O retorno de batizados foi autorizado em 10 de novembro de 1492, segundo Benito Ruano.
- Terremoto de Lisboa de 1755 1º nov. 1755, por volta de 9h40