Atlas da História

Tam Pa Ling

c. 70 mil anos atrás (Freidline et al. 2023); c. 46 mil (Demeter et al. 2012) · Sudeste Asiático continental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Na caverna de Tam Pa Ling, no norte do Laos, há restos de Homo sapiens que Demeter et al. (2012) apresentaram como a evidência esquelética mais antiga de humanos modernos no Sudeste Asiático continental, com pelo menos 46 mil anos. Em 2023, um osso frontal e uma tíbia do sítio receberam idades de cerca de 70 mil e 77 mil anos.

Uma caverna no alto do monte Pa Hang

Tam Pa Ling, a Caverna dos Macacos, fica na província de Hua Pan, cerca de 260 km a norte-nordeste de Vientiane, no alto do monte Pa Hang, a 1.170 m de altitude (Demeter et al. 2012; 2015). A única entrada, voltada para o sul, desce numa rampa de 65 m até uma galeria de cerca de 40 por 30 m. Ali não se acharam artefatos nem sinais de que pessoas vivessem na caverna. Os ossos humanos estavam em camadas de argila trazidas de fora pela enxurrada e, sem marcas de rolamento, devem ter vindo de perto da entrada. As sondagens começaram em 2008, e o primeiro crânio parcial (TPL 1) apareceu em 2009; para Demeter et al. (2015), eram os primeiros restos humanos do Pleistoceno achados no Laos desde 1934. A pesquisa é feita há duas décadas com o Ministério da Informação, Cultura e Turismo do Laos, que guarda os fósseis em Vientiane, e com os moradores da aldeia de Long Gua Pa, no distrito de Xon, com quem os resultados são partilhados segundo regras combinadas antes de cada temporada (Freidline et al. 2023). (Demeter et al. 2012; Demeter et al. 2015; Freidline et al. 2023)

Como datar o que a enxurrada trouxe

Como os ossos chegaram arrastados, a idade das camadas que os cobrem dá só um mínimo. Demeter et al. (2012) combinaram radiocarbono de carvões, que também vieram de fora e estão no limite do método, luminescência dos sedimentos, que mede há quanto tempo os grãos de quartzo e feldspato deixaram de receber luz ou calor, e a série do urânio num pedaço do frontal de TPL 1. A cronologia foi questionada por um possível hiato de c. 44 mil anos no topo da sequência; novas amostras reduziram esse vazio a intervalos de c. 9 mil a 14 mil anos, alguns talvez ligados a desabamentos que fecharam a entrada por um tempo (Demeter et al. 2015). Abaixo de c. 4 m, o sinal do quartzo satura e subestima as idades. Freidline et al. (2023) passaram então ao feldspato, a grãos finos de vários minerais e à datação direta de dentes de mamíferos pela série do urânio e por ressonância de spin eletrônico. Com 33 datas num modelo bayesiano, a sequência cobre c. 86 mil anos, e os restos humanos se distribuem por c. 56 mil anos. (Demeter et al. 2012; Demeter et al. 2015; Freidline et al. 2023)

Sete ossos e muitas formas

Desde 2009 saíram do sítio um crânio parcial (TPL 1), duas mandíbulas (TPL 2 e 3), uma costela, uma falange, um frontal (TPL 6) e um fragmento de tíbia (TPL 7). TPL 1, de um adulto jovem, não tem o toro supraorbital, a barra óssea contínua sobre os olhos, e mostra no frontal, no occipital e nos dentes traços de humanos modernos (Demeter et al. 2012). TPL 2, achada a cerca de um metro dele, é de outra pessoa: tem queixo, marca da nossa espécie, mas o corpo da mandíbula é robusto como o de humanos arcaicos. Para Demeter et al. (2015), isso indica grande variação nas primeiras populações modernas da região e põe em dúvida a oposição rígida entre anatomia arcaica e moderna. Freidline et al. (2023) confirmam todos como Homo sapiens. O frontal TPL 6, mais antigo, é notavelmente grácil, menor que o robusto TPL 1. TPL 2 se parece com mandíbulas de mulheres jovens de Tam Hang, abrigo no sopé do mesmo monte, e as estaturas estimadas, de 140 a 153 cm, são compatíveis com as de humanos do Holoceno do Leste e do Sudeste Asiático. (Demeter et al. 2012; Demeter et al. 2015; Freidline et al. 2023)

Uma chegada cedo que talvez não tenha deixado herdeiros

A genética de populações atuais e antigas aponta uma única dispersão rápida para fora da África entre c. 65 mil e 45 mil anos atrás, da qual descendem todos os não africanos. Os fósseis mais recentes de Tam Pa Ling cabem nesse quadro; TPL 6 e TPL 7, não. Freidline et al. (2023) os juntam a fósseis debatidos do sul e do centro da China que sugerem uma chegada anterior, talvez sem continuidade. Há duas leituras: os ossos mais novos descenderiam dessa linhagem antiga, que não deixou marca nos genomas de hoje, ou já seriam da grande dispersão posterior. As tentativas de extrair DNA de molares de TPL 1 e TPL 3 falharam, e o genoma de Pha Faen, também no Laos, de c. 7.800 anos, não mostra sinal da chegada anterior. A forma grácil de TPL 6 sugere, para os autores, descendência de imigrantes, e não mistura com Homo erectus ou denisovanos. Já em 2012, Demeter et al. notavam que os modelos de dispersão se concentravam em ilhas e litorais, e que o sítio, no interior montanhoso, indicava também rotas terra adentro. (Freidline et al. 2023; Demeter et al. 2012)

Floresta fechada e dieta onívora

Os dados ambientais apontam floresta. Isótopos de conchas de caramujos do sítio indicam que, nos estágios isotópicos marinhos 4 e 3, o clima era úmido e florestado como o do norte do Laos de hoje, e o carbono dos dentes de mamíferos do intervalo de c. 70 mil a 33 mil anos atrás descreve floresta de dossel fechado (Freidline et al. 2023). O carbono de dois dentes de TPL 1 mostra dependência estrita de recursos da floresta. Como o colágeno quase não se conserva nos trópicos, Bourgon et al. (2021) recorreram aos isótopos de zinco do esmalte, comparando TPL 1 com 76 dentes de mamíferos do sítio e da caverna vizinha de Nam Lot. O valor relativamente baixo do humano indica dieta onívora, de plantas e de animais. Para os autores, é evidência direta de uso amplo dos recursos da floresta tropical por um dos primeiros humanos modernos conhecidos no Sudeste Asiático. (Freidline et al. 2023; Bourgon et al. 2021)

Fontes

  1. Demeter, F.; Shackelford, L. L.; Bacon, A.-M.; Duringer, P. et al. (2012). "Anatomically modern human in Southeast Asia (Laos) by 46 ka". Proceedings of the National Academy of Sciences 109: 14375–14380. DOI 10.1073/pnas.1208104109. Acessar
  2. Freidline, S. E.; Westaway, K. E.; Joannes-Boyau, R.; Duringer, P. et al. (2023). "Early presence of Homo sapiens in Southeast Asia by 86–68 kyr at Tam Pà Ling, Northern Laos". Nature Communications 14. DOI 10.1038/s41467-023-38715-y. Acessar
  3. Demeter, F.; Shackelford, L.; Westaway, K.; Duringer, P. et al. (2015). "Early Modern Humans and Morphological Variation in Southeast Asia: Fossil Evidence from Tam Pa Ling, Laos". PLOS ONE 10(4): e0121193. DOI 10.1371/journal.pone.0121193. Acessar
  4. Bourgon, N.; Jaouen, K.; Bacon, A.-M.; Dufour, E. et al. (2021). "Trophic ecology of a Late Pleistocene early modern human from tropical Southeast Asia inferred from zinc isotopes". Journal of Human Evolution 161: 103075. DOI 10.1016/j.jhevol.2021.103075. Acessar

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