Acampamento mesolítico de Pulli, no rio Pärnu (Estônia), e sua figura de alcatrão de bétula
c. 8950–8300 a.C. (anos calendários calibrados, a.C. cal.), faixa das medianas das 16 datações de radiocarbono do sítio, segundo Khrustaleva e outros (2025); em ano astronômico, −8949 a −8299 · Europa Oriental
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Pulli, na margem de um antigo rio Pärnu, no sudoeste da Estônia, foi um acampamento de caçadores-pescadores-coletores usado repetidas vezes, provavelmente por estações, entre cerca de 8950 e 8300 a.C. (anos calibrados). Entre as milhares de peças de sílex, osso e chifre achadas ali está uma figurinha de 4,8 cm de alcatrão de bétula, trabalhada por raspagem e que talvez represente uma foca. Segundo Khrustaleva e outros (2025), é provavelmente a figurinha portátil mais antiga do Báltico oriental e não tem paralelo conhecido na arte mesolítica da zona florestal europeia.
O sítio e a camada cultural
Segundo Khrustaleva e outros, Pulli foi descoberto em 1967, quando geólogos acharam, sob vários metros de areia, uma camada de húmus com ossos de animais numa cascalheira. As escavações foram feitas de 1968 a 1973 e em 1975–1976, sob Lembit Jaanits, e cobriram 1.159 m². O assentamento ficava na antiga margem do rio Pärnu, a poucos quilômetros da costa do mar de Yoldia e depois do lago Ancylus, os estágios do Báltico daquele tempo. A camada cultural tinha só 5 a 15 cm, com várias lareiras e restos de estacas de ponta afiada, e milhares de artefatos e restos de fauna espalhados com folga. O sítio, dizem os autores, provavelmente foi um acampamento sazonal usado mais de uma vez e foi inundado na culminação do lago Ancylus, por volta de 8200 a.C. cal., que o soterrou sob areia. (Khrustaleva)
O que se achou e o uso do alcatrão
A maior parte das peças é de sílex miúdo: raspadores, facas, brocas e pontas de flecha, além de lâminas e lascas. Há também artefatos de osso e chifre, como enxós, pontas de flecha, de lança e de arpão e pingentes de dentes de animais, quase sempre fragmentados. Entre os ossos de fauna, os autores citam em ordem decrescente castor, alce, javali, urso-pardo e lobo. Foram achados quatro blocos de alcatrão de bétula, três com marcas de dentes, e a figurinha. Há alcatrão também no sulco de uma ponta de flecha de osso que prende uma inserção de sílex, e as inserções de sílex para armas compostas somam perto de 30% do sílex de segunda transformação. Daí os autores deduzirem uso intenso do alcatrão, a cola para ferramentas compostas. (Khrustaleva)
A figurinha: tamanho, marcas e exames
A peça é negra, tem 4,8 cm de comprimento, 1,6 cm de largura no centro, 1,2 cm de espessura e 5,3 g, com um pescoço estreito, uma ponta engrossada como cabeça de nariz alongado e um corpo oval. Foi achada em 1972 no noroeste do sítio. Em 2007 uma análise por espectroscopia (ATR-FTIR) mostrou que não era osso, mas alcatrão de bétula, com traços de gordura e de resina de pinheiro ou abeto. Sob o microscópio (14,6 a 81,9 aumentos), listras longitudinais de 1–2 mm cobrem o pescoço e parte da cabeça. Os autores reproduziram essas marcas raspando alcatrão curado com uma lasca de sílex, que deixou listras parecidas; a concha de Mya arenaria, que se esfarela, deixou só traços lineares. A tomografia mostrou material denso e rachaduras compridas por dentro. Concluem que as marcas só podem resultar de ação intencional. (Khrustaleva)
A datação direta e o problema do conservante
A datação direta do próprio alcatrão deu 7600–7200 a.C. cal. (8370±50 BP, Poz-170407) e, numa segunda amostra, tirada mais fundo no mesmo furo, 7586–7376 a.C. cal. (8440±40 BP, Poz-182456). Os autores consideram a data tardia demais para o sítio, que por volta do fim do 9º milênio estava sob areia, e a atribuem ao conservante: nos anos 1970, supondo que fosse de osso, a peça foi impregnada com goma-laca ou com mistura de resina de abeto-prateado e cera de abelha, o que introduziria carbono moderno e explicaria também a gordura e a resina achadas na análise química. É a explicação que eles julgam mais plausível; o artigo não mostra um teste que a confirme, de modo que a data própria da peça segue sem prova independente. (Khrustaleva)
Onde a peça se encaixa entre as artes mesolíticas
Segundo os autores, os objetos de arte mais antigos do Báltico oriental são todos mesolíticos e, nos sítios do 9º milênio a.C., só se conhecem peças de osso e chifre com gravações geométricas. Em Pulli o único exemplo seguro é um fragmento de ponta de flecha com entalhes; outros fragmentos de osso entalhado do 9º milênio vêm de Sūļagals e Zvejnieki II, na Letônia, e de Muilamäki, na Finlândia. As figurinas portáteis mais antigas da zona florestal europeia datam do 8º milênio a.C., enquanto no Báltico oriental só aparecem na segunda metade do 7º. A figurinha de Pulli, portanto, seria uma das mais antigas dessa zona e sem paralelo conhecido na própria região. Eles dizem, porém, que poucos sítios do início do Mesolítico foram escavados e que qualquer generalização sobre a arte da época é prematura. (Khrustaleva)
Fontes
- Khrustaleva, Irina; Uueni, Andres; Metspalu, Mait; Kriiska, Aivar. "A birch bark tar figurine from the Pulli settlement site in Estonia". 2025. DOI 10.12697/BJAH.2025.28.02 (o prefixo BJAH aponta o periódico Baltic Journal of Art History, vol. 28, mas o nome do periódico não aparece no texto lido). Texto lido em PDF aberto, baixado pelo DOI (acesso em 30/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Rede de pesca de Antrea (istmo da Carélia, Rússia): cordão de entrecasca de salgueiro com boias de casca de pinheiro, c. 8560–8240 a.C. cal. Cordão da rede datado por AMS em 9140 ± 135 BP (Hela-404), calibrado em 8560–8240 a.C. (10.510–10.190 cal. AP), segundo Miettinen et al. (2008, Tabela 4.1); isto é, ano astronômico −8559 a −8239. Os autores situam o afundamento dos objetos em 8400–8300 a.C. cal. O registro vai do início ao fim da faixa do cordão
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- Amidos de trigos e cevada no cálculo dentário de caçadores-coletores de Vlasac (Portas de Ferro, Sérvia), c. 6600–6450 a.C. c. 6600–6450 a.C. calibrados (Mesolítico Tardio de Vlasac, segundo Cristiani et al. 2016); o fêmur H81 (OxA-20762) deu 6640–6440 a.C. (95,4%, corrigido do efeito de reservatório), ou seja, c. 6639–6439 em ano astronômico (−(ano a.C.) + 1). O ano −6540 é o meio dessa faixa, usado só como marca no tempo
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