Arquivos dos mercadores assírios de Kanesh (Kültepe)
séc. XIX a.C. (Michel 2020) · Anatólia e Cáucaso, Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Arquivos privados de mercadores de Assur guardados em Kültepe, a antiga Kaneš, na Anatólia Central, no séc. XIX a.C. Cartas e contratos mostram mulheres assírias e anatólias como produtoras de tecidos, investidoras e credoras, e registram casamentos, divórcios, testamentos e empréstimos (Michel 2020).
Kaneš, um reino anatólio mais antigo que o comércio
Kültepe fica c. 20 km a nordeste de Kayseri, numa planície fértil ao norte do monte Erciyes, num cruzamento de rotas e perto de fontes de metal. O sítio tem duas partes, a colina de Kaneš, com c. 550 m de diâmetro, e a cidade baixa, e mede ao todo c. 2,5 km; seus escavadores o contam entre as maiores cidades da Idade do Bronze do Oriente Próximo. Segundo Kulakoğlu et al. (2023), da Universidade de Ancara, as escavações, iniciadas em 1948 por T. Özgüç, já renderam mais de 23 mil documentos cuneiformes da época das colônias comerciais, que revelam também um reino de Kaneš independente, potência da Anatólia Central. Esse reino é anterior aos mercadores: na colina, prédios monumentais do 3º milênio a.C., um deles com 70 por 55 m, datado por radiocarbono dos séc. XXV–XXIV a.C., indicam um poder centralizado. Só no início do 2º milênio a.C. a cidade baixa, chamada de kārum, foi ocupada pela primeira vez. (Kulakoğlu et al. 2023)
Semana, mês e epônimo: como se datava uma dívida
Para Şahin (2005), historiador da Universidade Erciyes, em Kayseri, os documentos de Kültepe são sobretudo cartas, atas judiciais e títulos de dívida. O título seguia uma ordem fixa: valor, devedor, credor, data, prazo e juros a acrescentar se não houvesse pagamento; vinham então o nome do limum, escolhido a cada ano e usado para identificar o ano, e por fim as testemunhas. Entre si, os assírios usavam o próprio calendário, com semanas (hamuštum) designadas pelos nomes de quem estava de turno, meses e anos. Nos empréstimos a anatólios, as datas seguiam festas, a colheita ou a vindima, quando os mercadores cobravam o que tinham vendido a prazo. Os juros nem sempre eram em prata: há contratos que pedem carroças de lenha, trigo, cevada ou ovelhas. Vários devedores locais aparecem em casal, como Bulina e sua mulher Walawala, que tomaram prata emprestada segundo a regra do kārum de Kaneš. (Şahin 2005)
Juros de 30% no kārum, muito mais para os anatólios
Şahin descreve o escritório do kārum como câmara de comércio, tribunal e prefeitura: guardava mercadorias, aferia pesos, julgava disputas e fixava os juros em 30% ao ano entre os mercadores a ele ligados. A taxa real variava; o autor acha empréstimos entre assírios a 20%, 15% e até 2,5%, e credores que emprestavam sempre barato e a curto prazo, que ele interpreta como banqueiros. Nos empréstimos a anatólios não havia teto: as taxas iam de 30% a 140% ao ano, e um credor que cobrava 20% de assírios cobrou 40% de um morador local. Os juros eram somados ao principal já no contrato e, vencido o prazo, voltavam a correr todo mês. Por acordo com os governantes locais, os mercadores moravam num bairro ao pé da cidadela, abasteciam o palácio e pagavam impostos. O autor conclui que, sem instituição que defendesse os moradores, estes foram explorados; é a leitura dele, não um consenso. (Şahin 2005)
Mil quilômetros de estrada entre guerras e tratados
Albayrak e Zoroğlu (2023), da Universidade de Ancara, leem as cartas pelo ângulo da segurança. As caravanas de jumentos percorriam mais de mil quilômetros, c. 25 a 30 km por dia; cada jumento preto levava c. 65 a 75 kg, e cargas volumosas iam em carroças de quatro rodas. Pelo caminho havia hospedarias, guias pagos por trecho e guardas postos pelos reinos anatólios em fronteiras e passagens. Esses reinos, entre eles Kaneš, Hattuš, Mama, Purušhattum e Zalpa, respondiam pela segurança dos mercadores em tratados juramentados com Assur; o acordo com Hahhum manda indenizar barco e carga afundados por saqueadores. As cartas falam em c. sete grandes guerras entre cidades anatólias, datadas por especialistas entre 1895 e 1835 a.C., em estradas fechadas por reis em conflito, em revoltas que paravam o comércio por meses e em ataques de animais. Um termo frequente, sikkātum, segue em debate entre festa, feira e expedição militar; os autores preferem a leitura militar. (Albayrak e Zoroğlu 2023)
Fontes
- Michel, C. (2020). Women of Assur and Kanesh: Texts from the Archives of Assyrian Merchants. SBL Press (WAW 42). DOI 10.2307/j.ctv17ppd1s; ISBN 9780884144564. Acessar
- Kulakoğlu, F.; Genç, E.; Öztürk, G.; Rıdvanoğulları, Y. (2023). "Yeni Dönem Kazı Sonuçları Işığında MÖ 3. Binyıl Sonu-2. Binyıl Başında Kültepe-Kaniş". Höyük 12: 39–55. DOI 10.37879/hoyuk.2023.2.039. Acessar
- Şahin, H. A. (2005). "Asurlu Tüccarların M.Ö. 2. Bin Yılın İlk Çeyreğinde Anadolu'da Faiz Uygulaması". Belleten 69(255): 425–466. DOI 10.37879/belleten.2005.425. Acessar
- Albayrak, İ.; Zoroğlu, M. (2023). "Eski Asurca Belgeler Işığında Eski Anadolu'da Yol ve Ticaret Güvenliği". Ankara Üniversitesi Dil ve Tarih-Coğrafya Fakültesi Dergisi 63(2): 1358–1383. DOI 10.33171/dtcfjournal.2023.63.2.19. Acessar
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