Arte rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde
c. 24 mil a 10 mil anos atrás (UNESCO: 22.000–8.000 a.C.) · Europa Mediterrânea
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Centenas de painéis gravados ao ar livre nas margens dos rios Côa e Águeda, afluentes do Douro, em Portugal e na Espanha, com cerca de 5.000 figuras de animais em Foz Côa e 440 em Siega Verde. A UNESCO data as gravuras de 22 mil a 8 mil a.C. e as considera o conjunto mais notável de arte paleolítica ao ar livre da Península Ibérica.
Uma barragem e as gravuras reveladas em 1994
Segundo Baptista e Fernandes (2007), o arqueólogo Nelson Rebanda, que trabalhava para a EDP no estudo da barragem do Côa, provavelmente identificou a primeira superfície gravada, a Rocha 1 da Canada do Inferno, em novembro de 1991. As gravuras só foram reveladas ao público em novembro de 1994, quando a barragem ameaçava submergi-las, no que ficou conhecido como escândalo do Côa. O instituto português do patrimônio (IPPAR) criou uma comissão no fim daquele mês e, em dezembro, pediu parecer de especialistas à UNESCO. A EDP, empresa estatal, procurou mostrar que as gravuras não eram paleolíticas; o debate de 1995 partia da ideia de que, sem essa idade, seu valor seria menor. (Baptista e Fernandes 2007)
Datação direta contra datação por estilo
Os arqueólogos portugueses dataram as gravuras pelo estilo. Em julho de 1995, relatórios de datação direta encomendados pela EDP a R. Bednarik, R. Dorn, F. Phillips e A. Watchman negaram a idade paleolítica, embora Phillips não tenha entregue relatório e Dorn só desse idades mínimas (Xavier 2000). O debate opôs Bednarik e Watchman a João Zilhão e a A. M. Monge Soares, que questionaram os métodos, entre eles a microerosão, que os críticos julgavam inaplicável aos xistos do Côa. Entre setembro e novembro de 1995, Baptista e Gomes estudaram a Canada do Inferno para o IPPAR e apontaram convenções do Solutrense. Xavier mostra como cada lado se apoiava em formas próprias de produzir provas. (Xavier 2000)
Muxagata: as gravuras que os vizinhos não viam
A antropóloga Sandra Xavier (2000) partiu de um estranhamento: moradores de Muxagata, aldeia próxima, diziam ter sentado inúmeras vezes junto às rochas sem nunca terem visto as gravuras, e muitos continuavam sem vê-las depois do anúncio. Para a autora, a visibilidade das figuras não é imediata nem igual para todos; foi construída por métodos, técnicas e discursos da comunidade dos arqueólogos, apoiados na tradição de Leroi-Gourhan. Ela trata a controvérsia sobre a idade como uma história dialógica, em que versões rivais disputaram a autoridade de dizer o que as rochas mostravam. (Xavier 2000)
Siega Verde e a gestão dos dois lados da fronteira
O bem, inscrito pela UNESCO em 1998, reúne o Côa, em Portugal, e Siega Verde, na Espanha. Segundo a ficha da UNESCO, a autenticidade se apoia em comparações de estilo, de temas e da organização das figuras com a arte das cavernas, e as únicas dúvidas dizem respeito à leitura de certos animais, como rinoceronte-lanudo, bisonte, megácero, rena e felinos. Siega Verde é Bem de Interesse Cultural, gerido pela associação local de desenvolvimento ADECOCIR, de Ciudad Rodrigo, com segurança a cargo da Junta de Castilla y León, que mantém programas conjuntos com o instituto português responsável pelo Vale do Côa. (UNESCO, lista nº 866)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Prehistoric Rock Art Sites in the Côa Valley and Siega Verde", lista nº 866. https://whc.unesco.org/en/list/866/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- Baptista, A. M.; Fernandes, A. P. B. (2007). "Rock Art and the Côa Valley Archaeological Park: A Case Study in the Preservation of Portugal's Prehistoric Rupestral Heritage". In: Palaeolithic Cave Art at Creswell Crags in European Context. Oxford University Press. DOI 10.1093/oso/9780199299171.003.0019; ISBN 9780199299171. Acessar
- Xavier, S. (2000). "Arte Rupestre - Imagens Científicas: a constituição dialógica da arte paleolítica do Côa". Antropologia Portuguesa 16–17: 103–131. DOI 10.14195/2182-7982_17_7. Acessar
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