Cerco e tomada de Jerusalém (1099): a Primeira Cruzada e a memória do massacre
7 de junho a 15 de julho de 1099 (Wikidata); a cidade caiu na sexta-feira, 15 de julho, segundo os latinos e Ibn al-Athir (22 de Sha'ban de 492); a nota do tradutor de Ibn al-Qalanisi converte a mesma data para 14 de julho · Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Entre junho e 15 de julho de 1099, o exército da Primeira Cruzada sitiou Jerusalém, então em mãos do vizir fatímida al-Afdal, e a tomou de assalto, com mortes em massa e saque. As fontes latinas e árabes lidas concordam que houve matança, mas divergem nas cifras: cerca de 10.000 mortos no Templo segundo Fulquério de Chartres, mais de 70.000 na mesquita de al-Aqsa segundo Ibn al-Athir, que escreveu mais de um século depois. Konrad Hirschler sustenta que as fontes árabes mais antigas não mostram um massacre maior que os de outras cidades da época, e que a imagem de carnificina sem igual se firma só décadas depois.
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Segundo Ibn al-Athir, na tradução de Gabrieli reproduzida por Carlin, Jerusalém era de Tutush, que a dera em feudo ao emir turcomano Suqman ibn Artuq; em agosto de 1096 (Sha'ban de 489) o vizir fatímida al-Afdal, com mais de quarenta engenhos de cerco, a tomou dos filhos de Artuq. Os francos, depois de falhar diante de Acre, sitiaram a cidade por mais de seis semanas e construíram duas torres; os defensores queimaram a de Sião, matando quem estava dentro. Ibn al-Qalanisi diz que os francos chegaram no fim de Rajab (meados de junho), que a população fugiu em pânico e que souberam que al-Afdal vinha do Egito com grande exército, o que os fez atacar com mais força. O relato do Gesta fala em falta de água, processões ordenadas por bispos e padres e ataque em todos os lados. (Ibn al-Athir (séc. XIII); Gesta Francorum)
A entrada: o que cada relato latino conta
No Gesta, na sexta-feira, perto da hora em que Cristo teria morrido na cruz, os cavaleiros de Godofredo de Bulhão e do irmão Eustáquio lutaram numa torre, um cavaleiro chamado Letoldo subiu ao muro, os defensores fugiram, e os cruzados os perseguiram até o Templo de Salomão. Raimundo de Aguilers dá mais destaque às torres de madeira e à ponte levadiça solta contra o muro, por onde entraram primeiro Tancredo e o duque da Lorena; segundo ele, uns inimigos foram decapitados, outros flechados e outros lançados às chamas. Fulquério diz que, quando o estandarte foi plantado no muro, os defensores fugiram em desordem, e que alguns buscaram a torre de Davi e outros os templos do Senhor e de Salomão, onde houve grande luta no átrio e no pórtico. Os três coincidem em que o Templo foi o ponto de maior matança. (Gesta Francorum; Raimundo de Aguilers; Fulquério (Fulk) de Chartres)
Sobreviventes, cativos, saque e mortos
O Gesta conta que, após a vitória, os mortos foram arrastados para fora da cidade por muçulmanos vivos e empilhados "como casas", e que se fizeram piras, "sem que ninguém soubesse seu número, exceto Deus"; o emir da torre de Davi e seus homens foram levados a salvo a Ascalão sob proteção do conde Raimundo. Ibn al-Athir confirma o desfecho para um grupo que se refugiou no oratório de Davi: teve a vida garantida em troca da rendição, os francos cumpriram a palavra, e eles partiram à noite para Ascalão. Fulquério acrescenta que os soldados queimaram corpos para achar bezantes engolidos pelos mortos. No Gesta, o exército se espalhou pela cidade e tomou ouro, prata, cavalos e casas, enquanto na versão de Fulquério quem entrava primeiro numa casa ficava com ela. (Gesta Francorum; Ibn al-Athir (séc. XIII); Fulquério (Fulk) de Chartres)
As cifras e o que está em disputa
As fontes lidas dão cifras de ordens de grandeza muito diferentes: Fulquério fala em "quase dez mil" mortos no templo de Salomão, onde "nem mulheres nem crianças foram poupadas"; Ibn al-Athir, em "mais de 70.000" em al-Aqsa; Ibn al-Qalanisi, em "uma grande multidão"; e o Gesta diz que ninguém sabe o número. Gabrieli observa em nota que o Domo da Rocha e a mesquita de al-Aqsa, vizinhos mas distintos, são muitas vezes confundidos nas fontes árabes e europeias. Hirschler lembra que a leitura de uma matança sem paralelo repousa na tradição que Ibn al-Athir fixou no séc. XIII, enquanto Kedar defende que Jerusalém teve matança mais extensa que outras cidades. (Fulquério (Fulk) de Chartres; Ibn al-Athir (séc. XIII); Hirschler 2014)
Fontes
- Gesta Francorum, versão selecionada por August C. Krey, em The First Crusade: The Accounts of Eyewitnesses and Participants (Princeton: Princeton University Press, 1921), reproduzida no Internet Medieval Sourcebook, Fordham University, "The Crusades: Jerusalem, 1099". https://sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/cde-jlem.asp (acesso em 30/10/2026). Acessar
- Raimundo de Aguilers, História dos francos que tomaram Jerusalém, versão selecionada por August C. Krey, em The First Crusade: The Accounts of Eyewitnesses and Participants (Princeton: Princeton University Press, 1921), reproduzida no Internet Medieval Sourcebook, Fordham University. https://sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/cde-jlem.asp (acesso em 30/10/2026). Acessar
- Fulquério (Fulk) de Chartres, Gesta Francorum Jerusalem Expugnantium, em Frederick Duncan e August C. Krey (orgs.), Parallel Source Problems in Medieval History (Nova York: Harper & Brothers, 1912), pp. 109-115, reproduzido no Internet Medieval Sourcebook, Fordham University. https://sourcebooks.fordham.edu/halsall/source/cde-jlem.asp (acesso em 30/10/2026). Acessar
- Ibn al-Athir (séc. XIII), al-Kamil fi l-ta'rikh, e Ibn al-Qalanisi (cronista de Damasco), Dhayl ta'rikh Dimashq, trechos sobre a tomada de Jerusalém; tradução inglesa de E. J. Costello a partir de Francesco Gabrieli, Arab Historians of the Crusades (Londres: Routledge and Kegan Paul, 1984), reproduzida por Martha Carlin, "Muslim Accounts of the Conquest of Jerusalem", Universidade de Wisconsin-Milwaukee. https://sites.uwm.edu/carlin/?p=1017 (acesso em 30/10/2026). Acessar
- Hirschler, Konrad (2014). "The Jerusalem Conquest of 492/1099 in the Medieval Arabic Historiography of the Crusades: From Regional Plurality to Islamic Narrative". Crusades 13, 2014; texto lido: a introdução, reproduzida em Medievalists.net, 14/05/2013. https://www.medievalists.net/2013/05/the-jerusalem-conquest-of-4921099-in-the-medieval-arabic-historiography-of-the-crusades-from-regional-plurality-to-islamic-narrative/ (acesso em 30/10/2026). Acessar
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