Atlas da História

Cristianização da Rus' de Kiev

988 · Europa Oriental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Adoção do cristianismo pelo príncipe Vladimir I e pela elite da Rus' de Kiev, datada de 988. O episódio é um marco da formação política e religiosa da Rus'.

Pendente de têmpora com sereias e árvore da vida
Joia de ouro com esmalte cloisonné, usada presa à cabeça ou ao toucado. A técnica vem da tradição bizantina, mas as figuras de sereias e pássaros mostram a arte local da Rus' de Kiev logo após a cristianização. Pendente de têmpora com sereias e árvore da vida, artesãos da Rus' de Kiev (autoria não registrada), séc. XI–XII. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo
Pendente de têmpora com pássaros afrontados e cabeças humanas
Um de um par de pendentes de ouro e esmalte da Rus' de Kiev. Joias femininas desse tipo ajudam a imaginar a vida material das cidades eslavas orientais na época em que o cristianismo bizantino se firmava. Pendente de têmpora com pássaros afrontados e cabeças humanas, artesãos da Rus' de Kiev (autoria não registrada), séc. XI–XII. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo

Um relato construído no séc. XII

Para o historiador ucraniano Zatyliuk (2014), o batismo de 988 só começou a ser narrado meio século depois. O texto conhecido mais antigo, o “Sermão sobre a Lei e a Graça” (década de 1040), atribuído ao metropolita Ilarion, e a obra de Nestor são sobretudo retóricos: comparam Volodymyr aos apóstolos e louvam a conversão, sem contar como ela ocorreu. A narrativa detalhada aparece na Crônica dos Tempos Passados, no início do séc. XII, e por muito tempo foi lida como descrição fiel. O autor mostra que se trata de uma construção: a cegueira do príncipe e sua cura ao ser batizado em Korsun seguem os modelos da conversão do apóstolo Paulo e da de Constantino. Essa versão virou o núcleo da vida do santo príncipe e foi copiada nas crônicas posteriores, sempre como relato confiável. (Затилюк 2014)

Moscou e Kiev reescrevem o batismo

Zatyliuk (2014) segue os acréscimos ao relato. As vidas do príncipe, ligadas à sua canonização, levaram o batismo dos habitantes de Kiev para o pequeno rio Pochaina e situaram o do príncipe na igreja de São Tiago em Korsun. O Estatuto Eclesiástico atribuído a Volodymyr incluiu os nomes dos primeiros hierarcas. A Crônica Nikon, compilada em Moscou nas décadas de 1520–1530, perto do metropolita Daniil, criou um metropolita Mikhail, sempre de acordo com o príncipe, e uma cronologia do batismo de Novgorod (6497), Rostov (6498) e Suzdal (6500). Para o autor, isso projeta no tempo de Volodymyr a harmonia entre poder secular e espiritual e dá raízes antigas à Igreja do nordeste, então parte da Moscóvia. Em Kiev, no séc. XVII, intelectuais do tempo do metropolita Petro Mohyla (1632–1647) fizeram outra versão a partir dos mesmos textos, com a topografia do batismo na própria cidade. (Затилюк 2014)

Vladimir no discurso do Kremlin

Cohen (2023) mostra como a Rus’ entrou no discurso oficial russo antes da invasão de 2022. Em julho de 2021, Putin publicou um artigo sobre a “unidade histórica de russos e ucranianos”, apresentados como herdeiros da antiga Rus’. Em 2016, inaugurou perto do Kremlin uma estátua de 16 m de São Vladimir; outras surgiram em Astrakhan (2013) e Stavropol (setembro de 2017), cidades que, nota o autor, nunca estiveram na esfera da Rus’. O Kremlin também promove Alexandre Nevsky como defensor da terra russa: em 2021, Putin inaugurou um monumento junto ao lago Chudskoe, local da Batalha do Gelo, na fronteira com a Estônia, e, segundo o site Meduza, em agosto de 2022 recomendações oficiais à propaganda mandavam comparar a “operação especial” ao batismo da Rus’ e Putin a Nevsky. (Cohen 2023)

Volodymyr no discurso ucraniano

Do lado ucraniano, Cohen (2023) destaca a ênfase na exclusividade. Em 2021, no dia do batismo da “Rus’ de Kiev–Ucrânia”, Zelensky explicou que o travessão do nome no decreto presidencial não era só pontuação: indicava que a Ucrânia é a sucessora de um dos Estados mais poderosos da Europa medieval, não uma entre várias. Em 28 de julho de 2022, no primeiro Dia do Estado Ucraniano, ele voltou ao tema, usando a herança da Rus’ ao mesmo tempo como escudo do direito ucraniano a ter Estado e como arma contra os mitos fundadores russos. Cohen recorre a Serhii Plokhy para lembrar o que as duas narrativas deixam de lado: a Rus’ de Kiev precedeu Rússia, Ucrânia e Belarus, mas reunia culturas regionais distintas, e nenhuma delas leva em linha direta às nações modernas. (Cohen 2023)

Fontes

  1. Franklin, S.; Shepard, J. (2014). The Emergence of Rus 750–1200. Routledge. DOI 10.4324/9781315836898. Acessar
  2. Затилюк, Я. В. (2014). "Хрещення Русі князем Володимиром: конструювання історичної оповіді та її доповнення православними книжниками XII–XVI ст.". Український історичний журнал 2014(1): 40–57.
  3. Cohen, J. (2023). "Vladimir versus Volodymyr: Conflicting Russian and Ukrainian Application of Rus' Heritage". Cultures of History Forum, 25/01/2023.

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