Atlas da História

Praga e o comércio de pessoas escravizadas (c. 962): o mercado descrito por Ibrahim ibn Yaqub

c. 962–965 (data da viagem de Ibrahim ibn Yaqub, debatida: 962 em Roma e provavelmente 965 em Magdeburg, segundo Mishin; 973, segundo Jacob; Roach: uma ou duas visitas entre 962 e 965) · Europa Oriental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Por volta de 962-965, o viajante Ibrahim ibn Yaqub, provavelmente judeu e vindo de al-Andalus, descreveu Praga como cidade de pedra e cal, a mais rica em mercadorias, onde chegavam rus, eslavos, muçulmanos, judeus e turcos (magiares). Entre os produtos que saíam de lá, o texto traz 'farinha' (daqiq) em uma leitura e 'escravizados' (raqiq) em outra; Roach adota a segunda e vê em Praga um mercado de pessoas ligado à Espanha muçulmana. Essa leitura do manuscrito é discutida.

O que Ibrahim escreve sobre Praga

Na tradução de Mishin, Ibrahim descreve a cidade de Praga como construída de pedra e cal, a mais rica em mercadorias. Rus e eslavos chegam de Cracóvia com bens; muçulmanos, judeus e turcos vêm do país dos turcos, que Mishin identifica com os magiares, trazendo mercadorias e moeda. Exportam-se de lá estanho e peles, além de um produto cuja leitura é discutida. O texto fala de um 'qinshar' como unidade de preço: com um se compra trigo para uma pessoa por um mês, ou forragem para um animal por quarenta noites, ou dez galinhas. Praga fabrica selas, rédeas e escudos redondos de couro. (Dmitrij Mishin)

Farinha ou escravizados

A palavra árabe do produto exportado aparece nos textos de Al-Bakri e de Al-Himyari, que usaram Ibrahim, como daqiq, 'farinha'. Mishin, em nota, observa que, como Praga foi um grande centro medieval do tráfico de pessoas, não se pode excluir a leitura raqiq, 'escravizados', defendida por Kowalski. Roach traduz o passo com 'escravizados' e, em nota, lembra que Mishin sugere 'farinha' ou 'escravizados'. O mesmo ocorre na lista do que os tecidos de Bawaymah compram: a tradução de Mishin traz 'trigo, farinha, cavalos', e Roach, 'trigo, escravizados, cavalos'. O leitor deve tratar o tráfico em Praga como inferência, e não como afirmação certa do manuscrito. (Dmitrij Mishin; A. Roach)

Quem era Ibrahim e quando viajou

Mishin lembra que quase nada se sabe de Ibrahim além do nome. Um fragmento de Al-Udhri o chama de Ibrahim ibn Yaqub al-Israili at-Turtushi, e a opinião mais comum é a de um mercador de Espanha. Houve duas teorias: a de Jacob, de que integrava uma embaixada, e a de que viajava por comércio, talvez até de pessoas, levada ao extremo por Jakimowicz, para quem só contatava correligionários judeus. Mishin vê motivos para pensar que a viagem tinha caráter informativo. Segundo Al-Udhri, encontrou Otão I em Roma em 350 do calendário islâmico (961-962), e Mishin acredita numa segunda visita à corte, provavelmente em Magdeburgo em 965. (Dmitrij Mishin)

O quadro do tráfico em volta de Praga

Roach propõe que a demanda por cativos dos samânidas começava a fraquejar quando se formou o Estado dos piastas, e que Mieszko precisava de uma saída alternativa, enquanto os premislidas cobravam acesso ao mercado de Praga. O autor liga o fim da década de 960 a moedas boêmias achadas perto de Breslávia, Poznań e Gniezno, e a vestígios de uma casa da moeda em Praga. Lembra ainda que Otão I deu à igreja de Magdeburgo o controle do mercado e das moedas da cidade, e que o advogado da igreja tinha jurisdição sobre mercadores cristãos e judeus, estes ligados particularmente ao tráfico, embora houvesse também comerciantes cristãos e pagãos. (A. Roach)

Fontes

  1. Dmitrij Mishin, 'Ibrahim ibn-Yaʿqub at-Turtushi's account of the Slavs from the middle of the tenth century' (tradução inglesa do relato e comentário). https://ams.ceu.edu/1994_5/Mishin.pdf (texto bruto lido em 30/10/2026; periódico e paginação não constam do texto extraído; o caminho da URL indica o volume 1994_5) Acessar
  2. A. Roach, 'The people trafficking princes: slaves, silver and state formation in Poland', Slavonica, 25(2), 2020, pp. 132-156 (manuscrito aceito do autor, depositado em 28/10/2020). DOI: 10.1080/13617427.2020.1841389. https://eprints.gla.ac.uk/224264/2/224264.pdf (texto bruto lido em 30/10/2026) Acessar

Na mesma região