Cultura Dorset
c. 800 a.C. (UNESCO, oeste da Groenlândia) a c. 1300 d.C. (Siebrecht et al. 2024, bacia de Foxe) · Ártico
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Cultura paleo-inuit do Ártico norte-americano e da Groenlândia, anterior aos inuit. No oeste da Groenlândia, a UNESCO data seus sítios de 800 a.C. ao ano 1; na região da bacia de Foxe, ela durou até c. 1300 d.C. Agulhas Dorset, essenciais para roupas quentes e impermeáveis, revelam técnicas de costura estudadas com microdesgaste, experimentos e colaboração etnográfica.
Tuniit e Dorset: dois nomes, duas histórias
Siebrecht et al. (2024) usam "Dorset" para as culturas paleo-inuit tardias do Ártico canadense central e da Groenlândia entre c. 800 a.C. e 1300 d.C., divididas em Dorset Antigo e Médio (800 a.C.–800 d.C.) e Dorset Tardio (800–1300 d.C.). Lembram que o nome vem da arqueologia e está ligado ao contexto colonial dos primeiros contatos europeus, enquanto "Tuniit" vem das histórias orais inuit. Há debate sobre se Tuniit designa todo o período Dorset ou só o Dorset Tardio. Na Groenlândia, Grønnow (2017) não vê continuidade local entre Saqqaq e Dorset: o Dorset groenlandês seria uma nova migração, e as datas mais recuadas dele em Qajaa caem entre 380 e 190 a.C. (Siebrecht et al. 2024; Grønnow 2017)
Agulhas de osso sob o microscópio
Siebrecht et al. (2024) estudaram 146 agulhas de quatro sítios da bacia de Foxe: Needle Point, na ilha Rowley (Salliq), do Dorset Tardio; Kapuivik, na ilha Jens Munk (Kapuiviit), do Dorset Antigo e Médio; Qulliapik, na ilha Mansel (Pujjanaq); e Avvajja. Para comparar, fizeram réplicas em osso de foca, caribu, ganso e êider, chifre e marfim de morsa, e costuraram peles de foca, caribu e raposa. O formato da seção das agulhas não se ligou ao tipo de pele, marinha ou terrestre; o tamanho pode ter relação com a espessura ou a dureza da pele. Os polimentos indicam tempo de uso, e os furadores não mostraram desgaste de perfuração. Estrias circulares em cerca de metade das agulhas sugerem que a agulha era girada ao perfurar. (Siebrecht et al. 2024)
Costureiras de Igloolik e os limites da analogia
Num atelier em Igloolik, três costureiras inuit, Rebecca Mikki, Susan Avingaq e Mary Kunuk, testaram as réplicas (Siebrecht et al. 2024). Agulhas pequenas convêm a pontos impermeáveis; as agulhas Dorset, mais longas, curvas e delicadas que as thule e inuit, quebravam na ponta quando usadas com a técnica inuit, e só atravessavam a pele com o movimento de girar e empurrar mais comum entre os Qallunaat, os não inuit. Para os autores, isso mostra que a analogia com a costura inuit pode não valer para os Dorset, geneticamente distintos dos inuit segundo Raghavan et al. (2014). Peças históricas inuit do Wereldmuseum, em Leiden, também foram examinadas. (Siebrecht et al. 2024; Raghavan et al. 2014)
Iqaluktuuq: caribu, salvelino e uma dieta variada
Howse e Friesen (2017) compararam os restos de fauna do sítio Bell, em Iqaluktuuq ("lugar de muitos salvelinos"), no sudeste da ilha Vitória, a 60 km de Cambridge Bay, onde há ao menos 10 casas semissubterrâneas Dorset e 6 Thule; a pesquisa foi feita entre 2000 e 2010 com a Kitikmeot Heritage Society. A casa 6, do Dorset Tardio, mede 5,75 por 4,5 m e foi datada em 1035 ± 125 anos AP. Os dois grupos dependiam do caribu e do salvelino-ártico, o que implica estocar alimento. A economia Dorset Tardia era mais ampla, com raposa, boi-almiscarado, foca e mais aves. O Dorset Tardio viveu sobretudo numa fase climática mais quente; os Thule, em parte, na Pequena Idade do Gelo. (Howse e Friesen 2017)
Um fim discutido: encontro ou reaproveitamento?
Segundo Raghavan et al. (2014), os paleo-inuit foram uma onda migratória independente dos ancestrais dos indígenas americanos e dos inuit, e sua continuidade genética foi interrompida pela chegada dos ancestrais dos inuit atuais. Como os dois povos se relacionaram é tema antigo. Park (1993) observa que a maioria dos arqueólogos supunha que os Thule teriam encontrado os Dorset e aprendido com eles, mas não vê prova conclusiva de contato face a face; para ele, os Thule recolheram cabeças de arpão e esculturas em sítios Dorset abandonados. Howse e Friesen (2017) concluem que, em Iqaluktuuq, as semelhanças entre as duas economias superam as diferenças, e que em algumas regiões os dois grupos estavam em pé de igualdade. (Raghavan et al. 2014; Park 1993; Howse e Friesen 2017)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Aasivissuit – Nipisat. Inuit Hunting Ground between Ice and Sea", lista nº 1557. https://whc.unesco.org/en/list/1557/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- Siebrecht, M.; Van Gijn, A.; Lofthouse, S.; Cencig, E. et al. (2024). "Unstitching the Past: An Experimental and Microwear Investigation of Dorset (Paleo-Inuit) Needles from the Foxe Basin Region". ARCTIC 76. DOI 10.14430/arctic79001. Acessar
- Wikidata Q603749 (P580 −499 e P582 1500, precisão de ano); consultado via API em out. 2026.
- Grønnow, B. (2017). "The Frozen Saqqaq Sites of Disko Bay, West Greenland: Qeqertasussuk and Qajaa (2400–900 BC)". Meddelelser om Grønland. Man & Society 45. DOI 10.7146/mog-ms.v45.147069. Acessar
- Howse, L.; Friesen, T. M. (2017). "Technology, Taphonomy, and Seasonality: Understanding Differences between Dorset and Thule Subsistence Strategies at Iqaluktuuq, Victoria Island". Arctic 69(5): 1–15. DOI 10.14430/arctic4640. Acessar
- Park, R. W. (1993). "The Dorset-Thule Succession in Arctic North America: Assessing Claims for Culture Contact". American Antiquity 58(2): 203–234. DOI 10.2307/281966. Acessar
- Raghavan, M.; DeGiorgio, M.; Albrechtsen, A.; Moltke, I. et al. (2014). "The genetic prehistory of the New World Arctic". Science 345(6200): 1255832. DOI 10.1126/science.1255832. Acessar
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