Atlas da História

Cultura Saqqaq

c. 2400–900 a.C. (Grønnow 2017) · Ártico

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Foi uma das primeiras culturas conhecidas a se fixar na Groenlândia, junto com a Independence I, no norte (Rasmussen et al. 2010 a chamam de a primeira; Grønnow 2017 descreve um povoamento muito rápido por volta de 2400 a.C.); durou de c. 2400 a 900 a.C. Sítios congelados da baía de Disko guardaram arcos, arpões, barcos tipo caiaque, estojos de costura e armações de tambor. O genoma de um homem de c. 4 mil anos indica uma migração da Sibéria há uns 5.500 anos, distinta das que originaram os indígenas americanos atuais e os inuit.

Qeqertasussuk e Qajaa: camadas que nunca degelaram

Grønnow (2017) descreve os dois únicos sítios da tradição de pequenos instrumentos do Ártico (ASTt) antiga no leste do Ártico com preservação orgânica completa. Qeqertasussuk, no extremo sul da baía de Disko, foi localizado em agosto de 1983 por Bjarne Grønnow e Appa Magnussen e escavado entre 1984 e 1987 e em 1990. Qajaa, no fiorde de Kangia (Ilulissat), guarda até 3 m de camadas congeladas e foi escavado por Jørgen Meldgaard em 1982. Em Qeqertasussuk, os horizontes de ocupação H5 a H2 vão de c. 2350 a 1750 a.C.; Qajaa foi ocupado até c. 900 a.C. Uma das casas, de 8 por 5,5 m, tinha um corredor central com fogões, e o solo congelado conservou até o pé de uma meia e nós de cordas. Para o autor, os Saqqaq formavam uma sociedade pioneira muito móvel, com cultura material complexa desde o início. (Grønnow 2017)

Um ano de caça no sudeste da baía de Disko

Com base em Meldgaard (2004), Grønnow (2017) reconstrói o ciclo anual em Qeqertasussuk. Na primavera, caçavam-se belugas e focas-aneladas na borda do gelo, a 10–50 km do acampamento; no fim da primavera chegavam os bandos de focas-da-groenlândia, caçadas de barco, talvez de forma coletiva, além de aves marinhas. No verão, grupos subiam ao interior atrás de caribus e salvelinos e colhiam frutos silvestres; no outono voltavam a foca-da-groenlândia, a beluga e as aves; no inverno caçava-se a foca nos respiradouros do gelo. Quase tudo de que o grupo precisava podia ser obtido num raio de 20 a 50 km. Insetos, pólen e restos de fauna dos sítios congelados também foram estudados. (Grønnow 2017)

Killiaq: uma pedra que marcava pertencimento

Mais de 85% das peças líticas da baía de Disko são de killiaq, um folhelho silicificado que aflora em grande quantidade em apenas dois lugares, Qaarsut e Angissat (Grønnow 2017). Núcleos de killiaq circularam de grupo em grupo por toda a Groenlândia Ocidental, e em regiões distantes das jazidas os Saqqaq escolhiam pedras parecidas, mesmo tendo outras de qualidade comparável. Para Grønnow, essa preferência, a estabilidade dos modelos de ferramentas e as habitações com corredor central, que funcionavam como "assinaturas em pedra" na paisagem, expressavam uma identidade comum. A individualidade aparece sobretudo nas cabeças de arpão. O autor também vê sinais de contatos regulares entre territórios que, no mais, eram autossuficientes. (Grønnow 2017)

Ossos, cabelo e genomas

Os restos humanos de Qeqertasussuk são poucos e vêm do lixo da ocupação: uma tíbia e duas fíbulas de uma mulher de 25 a 40 anos, com cerca de 150 cm de altura e linhas de Harris que podem indicar períodos de estresse, e um úmero de um homem de 40 a 60 anos. Os isótopos de carbono apontam uma dieta quase toda marinha. Não se conhecem sepultamentos Saqqaq, e Grønnow (2017) levanta a hipótese de um ritual em que os corpos se decompunham e os ossos eram descartados. Do cabelo preservado saiu o genoma publicado por Rasmussen et al. (2010), com 79% do genoma diploide sequenciado. Para Raghavan et al. (2014), os povos paleo-inuit formaram uma única metapopulação que sobreviveu quase isolada por mais de 4 mil anos e desapareceu há cerca de 700 anos. (Grønnow 2017; Rasmussen et al. 2010; Raghavan et al. 2014)

O fim do Saqqaq e a chegada do Dorset

Grønnow (2017) descreve um encolhimento gradual. No Alto Ártico, o último povo Independence I de Peary Land desapareceu por volta de 3.600 anos AP, e a região ficou quase despovoada; os Saqqaq se concentraram na Groenlândia Ocidental. Ali, a área de Nuuk foi abandonada primeiro, antes de 1000 a.C., depois a baía de Disko, c. 1000–800 a.C., e por último Sisimiut e Nipisat, talvez entre 790 e 400 a.C. Um platô na curva de calibração do radiocarbono dificulta datar esse fim. Seguindo Jensen (2006), o autor conclui que não houve passagem local do Saqqaq ao Dorset: o Dorset groenlandês representaria a chegada de outra gente. A UNESCO inclui fases Saqqaq e Dorset no sítio Aasivissuit–Nipisat, inscrito em 2018. (Grønnow 2017; UNESCO, lista nº 1557)

Fontes

  1. Grønnow, B. (2017). "The Frozen Saqqaq Sites of Disko Bay, West Greenland: Qeqertasussuk and Qajaa (2400–900 BC)". Meddelelser om Grønland. Man & Society 45. DOI 10.7146/mog-ms.v45.147069. Acessar
  2. Rasmussen, M.; Li, Y.; Lindgreen, S.; Pedersen, J. S. et al. (2010). "Ancient human genome sequence of an extinct Palaeo-Eskimo". Nature 463: 757–762. DOI 10.1038/nature08835. Acessar
  3. UNESCO World Heritage Centre, "Aasivissuit – Nipisat. Inuit Hunting Ground between Ice and Sea", lista nº 1557. https://whc.unesco.org/en/list/1557/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
  4. Raghavan, M.; DeGiorgio, M.; Albrechtsen, A.; Moltke, I. et al. (2014). "The genetic prehistory of the New World Arctic". Science 345(6200): 1255832. DOI 10.1126/science.1255832. Acessar

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