Gobero (Níger): o cemitério de caçadores-pescadores-coletores à beira de um lago do Saara (c. 7700–6300 a.C.)
fase 2 (ocupação do início do Holoceno): c. 7700–6200 a.C. (cal a.C.); sepultamento datado mais antigo 7730–7580 cal a.C., mais recente da fase 6380–6210 cal a.C., segundo Sereno e outros (2008) · África Ocidental
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Gobero é um conjunto de sítios sobre paleodunas, à beira de um antigo lago no extremo oeste do deserto do Ténéré, no Níger, com cerca de 200 sepultamentos distribuídos por cinco milênios. Segundo Sereno e colegas (2008), na primeira ocupação, entre c. 7700 e 6200 a.C., caçadores-pescadores-coletores enterraram seus mortos num cemitério de c. 7500 a.C., que os autores descrevem como o mais antigo já registrado no Saara. Depois de cerca de mil anos de aridez, em que o local parece ter sido abandonado, o lago voltou e o sítio foi ocupado de novo por um povo de outra aparência esquelética e de outros costumes funerários.
O lago, as dunas e o enterro sob a água
Segundo Sereno e colegas, Gobero fica na borda noroeste da bacia do Chade, cerca de 150 km a sudeste do maciço do Aïr, sobre uma planície de arenito do Cretáceo. Os sítios principais ocupam paleodunas, que se acumularam por pelo menos sete milênios, do fim do Pleistoceno ao início do Holoceno (c. 14000–7000 a.C., por luminescência opticamente estimulada). Em parte, as dunas formavam ilhas ou uma península num lago raso de água doce, com no máximo 3 m de profundidade e 3 km de diâmetro, numa pequena bacia fechada. Quando a água passava de 5 m, os sítios ficavam submersos, e os ossos humanos dos sepultamentos inundados escureceram e endureceram. (Sereno et al. 2008)
O cemitério de c. 7500 a.C.
Numa área de não mais de 50 m² do sítio G3, os autores acharam 17 sepultamentos intactos, espaçados em até 4 m, com esqueletos escurecidos pela água. Datas diretas de cinco deles indicam c. 7500 a.C., num intervalo de apenas 250 anos. Segundo os autores, esse cemitério é maior que um pequeno grupo de sepultamentos num sítio do alto Nilo (El Damer) e antecede em três milênios o mais antigo do deserto ocidental do Egito (Gebel Ramlah). Os esqueletos são altos, perto de 2 m para homens e mulheres, e predominam corpos supinos e muito flexionados; os autores sugerem que os corpos foram amarrados com pele, ligamento ou cestaria, dos quais nada restou. (Sereno et al. 2008)
Peixe, caça e a cultura material Kiffian
Na fase 2 apareceram micrólitos, pontas de arpão e anzóis de osso e cerâmica com decoração impressa de linha ondulada pontilhada e zigue-zague, no enchimento das sepulturas, num lixo associado e nos depósitos do antigo lago. Datas diretas de pontas de arpão e do material vegetal usado como antiplástico na cerâmica confirmam a ligação desses objetos com essa fase. Na fauna do lixo dominam a perca-do-Nilo (Lates niloticus) e grandes bagres; há ainda ossos e dentes de hipopótamo, de bovídeos, de pequenos carnívoros, de tartarugas de casco mole e de crocodilos. (Sereno et al. 2008)
Lago em alta, lago seco e o abandono
No fim da fase 2 (c. 6500–6300 a.C.) o nível do lago subiu, ao menos por episódios, cobriu as paleodunas e obrigou os ocupantes a se mudar. Vértebras de perca-do-Nilo de até 5 cm de diâmetro, achadas in situ e datadas desse momento (média de 6525 a.C.), sugerem peixes de até 2 m e água permanente com mais de 5 m de profundidade. Entre 6200 e 5200 a.C. o lago parece ter secado e a área ter sido abandonada: nenhum vertebrado terrestre ou aquático e nenhum sedimento do lago foi datado desse intervalo. O retorno de condições úmidas, por volta de 4600 a.C., trouxe um povo de aparência mais gracil e com objetos funerários mais elaborados, de osso e marfim. (Sereno et al. 2008)
Fontes
- Sereno, Paul C.; Garcea, Elena A. A.; Jousse, Hélène; Stojanowski, Christopher M.; Saliège, Jean-François; Maga, Abdoulaye; Ide, Oumarou A.; Knudson, Kelly J.; Mercuri, Anna Maria; Stafford, Thomas W., Jr.; Kaye, Thomas G.; Giraudi, Carlo; N'siala, Isabella Massamba; Cocca, Enzo; Moots, Hannah M.; Dutheil, Didier B.; Stivers, Jeffrey P. (2008). "Lakeside Cemeteries in the Sahara: 5000 Years of Holocene Population and Environmental Change". PLoS ONE 3(8): e2995, 14 ago. 2008. DOI 10.1371/journal.pone.0002995. Texto bruto lido em https://www.ebi.ac.uk/europepmc/webservices/rest/PMC2515196/fullTextXML (Europe PMC, PMC2515196), em 29/10/2026. Acessar
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