Governo-geral do Brasil e fundação de Salvador (1549)
1549 (chegada em 29 mar. ou instalação em 1º mai., conforme a leitura) · Terras baixas da América do Sul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Em 1549 a Coroa portuguesa criou o Governo-geral e enviou Tomé de Sousa com uma frota à Baía de Todos os Santos, onde se ergueu a fortaleza e povoação de Salvador, sede do novo governo. A data exata da fundação da cidade é discutida pela historiografia.
A Bahia antes de 1549: capitania de Coutinho e guerra
Segundo Garcia da Cruz (2022), a Bahia foi doada em 1534 a Francisco Pereira Coutinho como capitania hereditária, num momento em que a ameaça externa, em especial francesa, tornava necessário fixar portugueses de modo sistemático no Brasil. Os documentos fundadores, diz a autora, delimitavam território e privilégios com pouco conhecimento do sertão e das pessoas que o habitavam. Engenhos e povoadores da época de Coutinho foram atacados pelos Tupinambá, que, em guerra, incluindo de emboscada, paralisaram a colonização e destruíram seus frutos; o capitão morreu na Ilha de Itaparica, em 1547, depois de uma tentativa de resgate. A autora menciona ainda uma revolta ameríndia em 1545, testemunhada por Gabriel Soares de Sousa e pelo regimento de 1548, e conclui que o rei acabou com a capitania, malsucedida nos últimos anos. Restou fundamentalmente a comunidade em torno de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, português casado com uma indígena. A criação do Governo-geral nasce, portanto, de uma colonização que os próprios moradores da costa haviam colocado em xeque. (Garcia da Cruz 2022)
Regimento de 1548 e a cidade-sede
Em 1548, descreve Garcia da Cruz (2022), a Bahia foi transformada em capitania régia e entregue a Tomé de Sousa, com o destino de fazer de São Salvador a cidade-sede do governo-geral. A política dele seguia o regimento régio, que tratava do aspecto militar, do econômico e da relação com os naturais, e vinha acompanhada de novas instâncias de controle: o ouvidor-geral, para a justiça, e o provedor-mor, para a fazenda. Falcão (1950) transcreve as cartas de nomeação dessas pessoas: Antônio Cardoso de Barros foi provedor-mor da Fazenda da Bahia e de todas as terras do Brasil por três anos, com duzentos mil réis de ordenado; Rodrigo de Arguello, porteiro da câmara da rainha, foi nomeado provedor da Fazenda da Fortaleza do Salvador, por cinco anos, com trinta mil réis. O plano previa também redistribuir sesmarias, para atrair de volta os antigos povoadores refugiados na Vila Velha e em outras capitanias e, nota a autora, índios amigos, em articulação com missões jesuítas. (Garcia da Cruz 2022; Falcão 1950)
29 de março ou 1º de maio: a disputa pela data
Falcão (1950) escreve em réplica a Frederico Edelweiss e é parte da disputa, o que importa ao ler. Ele observa que as cartas de nomeação trazem a data em que cada servidor começou a receber ordenado: 1º de fevereiro (escrivão da armada, dia que ele associa à partida do Tejo), 1º de abril (os servidores graduados do governo-geral) e 1º de maio (o provedor Arguello e o físico Jorge de Valadares, designados para a fortaleza). Tomé de Sousa teria concluído a paliçada ao fim de abril e se mudado para dentro dela, de modo que, para Falcão, a vida oficial de Salvador começou em 1º de maio de 1549. O adversário preferia 29 de março, dia da chegada à Bahia, que Falcão diz ter sido no porto de Vila Velha, a mais de três quilômetros do sítio da futura cidade. Ele relata que a ideia de 29 de março circulou em 1945 na imprensa de Salvador, na boca de um sociólogo norte-americano, e que um anteprojeto do prefeito propunha o 1º de maio. (Falcão 1950)
Povos indígenas e a política da fronteira
Garcia da Cruz (2022) descreve o que o regimento e a política de pacificação significaram para os povos da região. Houve, diz ela, uma época de execução de rebeldes, escudada na figura da guerra justa e no regimento de 1548, e de convívio aberto com índios amigos em meio urbano; depois, cada capitão passou a autorizar o contato semanal com os naturais do sertão, atraídos ao comércio local. Os jesuítas buscavam alargar a fronteira, e Nóbrega queria fundar aldeias para submeter os indígenas à lei e aos costumes portugueses antes de convertê-los. Apesar de leis e debates contra a escravização, a autora aponta, com base em regimentos, cartas e depoimentos da Visitação inquisitorial de 1591 e 1592, a continuidade de apresamentos ilegais de ameríndios, e Nóbrega criticava os colonos por ignorarem a fé e os costumes da mão de obra indígena. A autora descreve ainda a Santidade de Jaguaripe, de 1585, junto aos Tupinambá, como um movimento religioso com elementos de doutrina aprendidos em aldeia jesuítica. (Garcia da Cruz 2022)
Fontes
- Falcão, E. de C. (1950). "A instituição do Govêrno Geral do Brasil e a fundação da Cidade do Salvador". Revista de História 1(4): 563–567. DOI 10.11606/issn.2316-9141.v1i4p563-567. Acessar
- Lima, J. C. e (2017). "A translucidez da antropofagia tupinambá". Espaço Ameríndio 11(1): 195–218. DOI 10.22456/1982-6524.66128. Acessar
- Garcia da Cruz, M. L. (2022). "Baía, séculos XVI-XVIII: Posse, Distribuição e exploração da terra, fronteira, formas de inclusão do ameríndio". Politeia: História e Sociedade 20(2): 132–140. DOI 10.22481/politeia.v20i2.10183. Acessar
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