Atlas da História

Tupinambá: povos tupi do litoral no século XVI

séc. XVI (período do contato com europeus) · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Falantes de línguas do tronco tupi, os Tupinambá formavam grupos locais que dominavam parte do litoral quando franceses e portugueses chegaram, com aldeias circulares cercadas por paliçada e grandes casas em torno de um pátio. Cronistas do século XVI descrevem a guerra e a vingança ritual como centrais na vida social.

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Homem tupinambá
Pintura feita por um artista holandês a serviço de Maurício de Nassau. Retrata o corpo e os adornos de um homem tupi segundo o interesse de quem encomendou: catalogar e exibir, não representar a sociedade tupinambá. Homem tupinambá, Albert Eckhout, 1643. Domínio público. Ver no acervo

Quem eram e como viviam nas aldeias

Couto e Lima (2017) descreve os Tupinambá como falantes de línguas do mesmo tronco tupi, reunidos em grupos diversos que nunca chegaram a formar uma nação: cada grupo, ao crescer, se dividia em povos distintos, que logo passavam a se estranhar. Apoiando-se em Darcy Ribeiro, o artigo afirma que a tradição de guerra entre esses grupos os tornou dominantes no litoral, onde desalojaram ocupantes anteriores, e que o povoamento da costa atlântica por eles ocorreu apenas nos últimos séculos antes da chegada dos europeus. Para o Rio de Janeiro, Neme e Beltrão (1993) resumem o que os cronistas dizem das aldeias: forma circular, com cerca também circular (e, ao menos depois do contato com europeus, dupla paliçada), grandes casas retangulares dispostas em torno de um pátio central quadrangular, onde se desenrolava a vida social e religiosa. As aldeias eram populosas e ficavam em média cerca de cinco a seis anos no mesmo lugar, perto de cursos de água; as autoras mencionam 22 aldeias indicadas pelo cronista Léry. (Lima 2017; Neme e Beltrão 1993)

Guerra e vingança nas leituras dos cronistas

As fontes sobre a vida social tupinambá são sobretudo relatos de viajantes europeus, e Couto e Lima (2017) analisa como eles interpretaram a guerra e o ritual de execução de prisioneiros. Thevet entendeu a vingança como o motor da guerra; Léry, calvinista que esteve na Guanabara em 1557, também a viu como motivo central e escreveu que a carne não era comida por gulodice. O artigo lembra que a bravura guerreira só foi lida como valor enquanto os europeus dependiam de aliados indígenas, e que discursos posteriores, sobretudo na literatura de língua portuguesa, trataram a antropofagia como prática marginal e horrenda. A etnologia brasileira reviu essas leituras: Florestan Fernandes (tese dos anos 1940 e 1950) concebeu a guerra como fenômeno simbólico e social, não como agressividade inata, e ligou a captura de inimigos à retaliação por parentes mortos. Viveiros de Castro, por sua vez, discorda de Fernandes quanto ao destino do sacrifício e enfatiza a relação com o inimigo, o ponto de vista do outro. Quem narra esses ritos, nos textos lidos, são autores de fora. (Lima 2017)

O contato no Rio de Janeiro e suas consequências

Neme e Beltrão (1993) dividem o contato no Rio de Janeiro em duas fases. Enquanto prevaleceu o escambo, com franceses e depois portugueses (estes instalados a partir de 1565) recebendo provisões, acesso a recursos naturais e trabalho em troca de artefatos, os recém-chegados dependiam dos moradores, e achados arqueológicos mostram europeus habitando malocas tupinambá e usando a cerâmica local. Com a instalação dos portugueses e a empresa colonizadora, dizem as autoras, vieram a transformação das aldeias em aldeamentos, quase todos administrados por jesuítas, a luta armada, a dizimação de grande parte da população, a fuga de muitos para a região de Cabo Frio, onde, anos depois, morreram, e a escravização dos sobreviventes, cujo trabalho fez nascer a cidade do Rio de Janeiro. Elas também notam que a mulher indígena foi veículo da desorganização das relações de produção do grupo. O artigo é de arqueólogas e não traz números, e a extensão do território varia: Fernandes o leva de São Sebastião a Cabo Frio, e Métraux, que usa o nome Tamoio, do Cabo de São Tomé a Angra dos Reis. (Neme e Beltrão 1993)

Tupinambá hoje: a voz da cacique Kawany

O nome Tupinambá não ficou só nos cronistas. Em artigo publicado em 2018, escrito em conjunto com duas pesquisadoras a partir de um relato gravado, a cacique Kawany Lourdes Tupinambá conta que é de uma região do Ceará, que seus antepassados eram indígenas e perderam as terras, passando a trabalhar para coronéis ou a viver no campo, e que ela mesma se mudou para Uberlândia (MG) em 1990. Por volta de 2004 e 2005 conheceu a cacique Kaun Poty Guarani, que a procurou e, nas palavras de Kawany, resgatou sua família, hoje com mais de duzentas pessoas que se reconhecem como Tupinambá. Em 2006 nasceu o Movimento dos Indígenas não Aldeados do Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba (MInA), que Kawany passou a liderar em maio de 2018. As autoras registram que a expressão do título, tomar posse da história, vem do relato dela e se opõe à ideia de que os povos indígenas devam ser tutelados ou não saibam contar a própria história. É uma voz de hoje, sobre identidade e luta pela terra, que não descreve a vida no século XVI. (Tupinambá et al. 2018)

Fontes

  1. Neme, S.; Beltrão, M. da C. (1993). "Tupinambá, franceses e portugueses no Rio de Janeiro durante o século XVI". Revista de Arqueologia 7(1): 133–151. DOI 10.24885/sab.v7i1.99. Acessar
  2. Lima, J. C. e (2017). "A translucidez da antropofagia tupinambá". Espaço Ameríndio 11(1): 195–218. DOI 10.22456/1982-6524.66128. Acessar
  3. Tupinambá, K. L.; Alves, D. S.; Junqueira, G. G. (2018). "Tomando posse da história: o legado de resistência da cacique Kawany Lourdes Tupinambá". Revista Ñanduty 6(9): 189–209. DOI 10.30612/nty.v6i9.9527. Acessar

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