Atlas da História

Guerra de independência na Bahia (1822–1823)

jun. 1822 a 2 jul. 1823 · Terras baixas da América do Sul

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Entre junho de 1822 e 2 de julho de 1823, a Bahia viveu uma guerra pela independência, com milhares de homens e mulheres mobilizados em torno de Salvador até a saída das tropas portuguesas. Indígenas e escravizados lutaram nela, e a data é celebrada em desfiles de caboclos e cabocla.

Leia sobre isto

Do conflito de 1822 ao cerco de Salvador

Segundo Cancela (2026), os conflitos na Bahia começaram com as notícias da revolução de 1820 em Portugal; em fevereiro de 1822, depois que as Cortes de Lisboa nomearam Madeira de Melo governador das armas, houve choques armados entre soldados portugueses e brasileiros nas ruas de Salvador. A cidade ficou ocupada pelas tropas portuguesas e muitos moradores se refugiaram no Recôncavo. Em 14 de junho de 1822, Santo Amaro foi a primeira vila a aclamar d. Pedro como defensor perpétuo do Brasil; três dias depois, tropas portuguesas castigaram a vila, segundo Guerra Filho (2022). Em Cachoeira, em 25 e 26 de junho, a multidão reunida para a aclamação foi alvejada por uma embarcação e por moradores portugueses, e os ataques só pararam quando gente das duas margens do rio Paraguaçu tomou a escuna. A guerra durou quase um ano e terminou com a entrada do Exército Pacificador em Salvador, em 2 de julho de 1823. (Cancela 2026; Guerra Filho 2022)

Povos indígenas no Exército Pacificador

Cancela (2026) mostra, com ofícios e petições, que os indígenas eram numerosos e politicamente ativos na Bahia de então e foram recrutados pelos terços de ordenanças de suas povoações e pela tutela colonial: diretores e missionários convocavam os "índios das aldeias", como os 30 de Santo Antônio, em Jaguaripe, que podiam servir armados de espingarda ou de arcos. Em novembro de 1822 havia 104 deles entre mais de 1.200 homens em Itapuã; também atuaram em Itaparica, Saubara, Funil, Cachoeira, Campinas e Pirajá. Os de Pedra Branca pediram gratificação e depois dispensa, e o Conselho Interino lhes pagou dez tostões por soldado (2 de outubro de 1822). Os kiriri de Aramari, que lutaram em Campinas e Pirajá, escreveram ao fim da guerra denunciando o esbulho de suas terras pelo capitão-mor de Inhambupe. Para Cancela, foram sujeitos que negociaram, e a terra era o centro de seu pedido. (Cancela 2026)

Escravizados, mulheres e o limite da vitória popular

Kraay (2023) lembra que a guerra mobilizou milhares de homens e mulheres de todas as classes e cores e desmente a imagem de uma independência pacífica. Um decreto de 30 de julho de 1823 recomendou libertar os escravizados que haviam lutado, mas, segundo ele, só alguns foram libertos; muitos soldados negros foram transferidos para a Marinha ou para o Sul, e movimentos de escravizados vistos como ameaça foram reprimidos com execuções em massa, como as de 50 pessoas por ordem de Labatut. Sobre as mulheres, Maria Quitéria recebeu pensão de alferes mas foi criticada ao voltar a Salvador, e a existência de Maria Felipa, ligada à defesa de Itaparica, é incerta: pode ser invenção do folclorista Ubaldo Osório. Para Kraay, o povo baiano lutou pela independência, mas não pela forma que ela tomou. (Kraay 2023)

Caboclo e Cabocla: a guerra na memória das festas

Guerra Filho (2022) descreve os desfiles de Caboclo e Cabocla, que fazem referência à guerra e acontecem desde os primeiros anos depois da independência, em Cachoeira, Santo Amaro, Itaparica, Saubara e outras cidades do Recôncavo. A data de Itaparica, 7 de janeiro, lembra a última investida portuguesa contra a ilha, ligada à farinha de mandioca e ao controle do acesso ao Recôncavo. Para o autor, as festas afirmam a presença popular, negra, indígena e feminina e questionam a narrativa centrada em Salvador e Cachoeira e nas autoridades; ele nota que pesquisas em arquivo achavam menos do que a tradição oral sobre Maria Felipa. Kraay (2023) observa que celebrar os heróis populares faz uma narrativa mais inclusiva, mas ainda centrada no Estado, e esvazia o conteúdo mais radical das lutas. (Guerra Filho 2022; Kraay 2023)

Fontes

  1. Kraay, H. (2023). "A independência do Brasil na Bahia e os heróis populares do Dois de Julho". Almanack 34. DOI 10.1590/2236-463334ep00123. Acessar
  2. Cancela, F. (2026). "Os indígenas na guerra de independência do Brasil na Bahia". Revista Trilhas da História 15(32): 175–207. DOI 10.55028/vbhg7b11. Acessar
  3. Guerra Filho, S. A. D. (2022). "Dois de Julho". Em Tempo de Histórias 1(40). DOI 10.26512/emtempos.v1i40.43986. Acessar

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