Atlas da História

As guerras que formaram o Brasil: dos Tamoios a Canudos

Aprofundamento · Guerras e conflitos · 2.636 palavras

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Texto preparado a partir das fontes citadas; edição e revisão de Gabriel Fontes. Como escrevemos.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Em 5 de outubro de 1897, no sertão da Bahia, a última casa de uma cidade de barro e palha ainda resistia. Quem acompanhou a campanha, o escritor Euclides da Cunha, contou que restavam quatro defensores diante de cinco mil soldados: um velho, dois homens feitos e uma criança 1. Era o fim de Canudos, também chamada Belo Monte, uma comunidade fundada em 1893 e destruída pelas tropas da República (ver no mapa).

Três séculos e meio antes, na baía de Guanabara, outra guerra tinha oposto indígenas e europeus, e já com indígenas dos dois lados. O Brasil não nasceu de uma guerra só. Nasceu de muitas, em lugares e séculos diferentes, e quase nenhuma delas foi o que os manuais antigos contavam.

Este artigo percorre essas guerras e faz uma pergunta: que guerras foram travadas no território do Brasil entre 1500 e 1900, quem lutou contra quem e o que as fontes discutem sobre elas? A cobertura não é igual. Algumas guerras têm bom material de pesquisa nas fontes que lemos, como a do Paraguai e a de Canudos. Outras só aparecem em resumo, e por isso ganham poucas linhas. Outras guerras, de outras épocas e lugares, estão no grupo Guerras e conflitos. Antes dos europeus, o território já era habitado há milênios; essa história está em Os primeiros povos da América do Sul e no tema América do Sul.

Em resumo

Guerra dos Tamoios: a baía de Guanabara em disputa

A Guerra dos Tamoios tem datas em duas etapas: uma aliança entre tupinambás e franceses a partir de 1555 e guerra aberta a partir de 1560 (ver no mapa). Os tupinambás, chamados tamoios, aliaram-se aos franceses de Villegagnon, que haviam chegado em 1555, contra os portugueses e seus aliados indígenas. Em 1560, Mem de Sá foi enviado para expulsar os franceses 2.

O ponto central de Alencar (2017) é que a gravidade da guerra veio sobretudo dos indígenas envolvidos 2. Ou seja: não foi só uma disputa entre duas coroas, com os indígenas como figurantes. Eles decidiam alianças e a escala do conflito.

Há também um debate sobre o nome. "Confederação dos Tamoios" ganhou forma no poema de Gonçalves de Magalhães, de 1856, que, segundo Alencar, fixou na historiografia uma imagem romântica do episódio. A autora compara essa memória com a documentação do século XVI 2. Quando a guerra terminou, não sabemos dizer com base nas fontes lidas: a data de fim não aparece nelas.

Insurreição Pernambucana: quem lutou contra os holandeses

No século XVII, a Companhia das Índias Ocidentais governava capitanias do Nordeste, no que se chamou Brasil Holandês. Em 1645 começou a reação luso-brasileira, a Insurreição Pernambucana, que durou até 1654 (ver no mapa). Em 1654 a Companhia capitulou 3.

Por que o levante ocorreu? Luciani (2008) lembra que quem mandava no local eram os senhores de engenho, por meio das câmaras municipais portuguesas. Os neerlandeses criaram câmaras de escabinos, mas a autora nota que muitos senhores de engenho participavam delas e eram maioria. Depois da saída de Nassau, em 1644, a Companhia cobrou as dívidas dos moradores, que pesaram sobretudo sobre os senhores de engenho. Luciani avisa que não basta explicar a reação por sentimento anti-holandês ou nativista, tese do século XIX que ela não aceita 4.

Do lado da Companhia, o problema eram os soldados. Françozo (2016), resenhando o livro de Miranda, informa que a maioria não era neerlandesa: vinha de Estados alemães, da Inglaterra, da França, da Escandinávia e da Escócia. Eram mal alimentados, doentes e mal pagos, e a resenha vê nessa condição um fator decisivo para o fracasso neerlandês 5.

A guerra também foi indígena e africana. Miranda (2025) estuda um documento raro, escrito por cerca de 140 indígenas Potiguara reunidos em Tapesserica, no fim de março de 1645. Pediam que os neerlandeses respeitassem a lei de liberdade dos indígenas e propunham um autogoverno em três câmaras nativas. Dois meses depois, a rebelião dos colonos destruiu aldeamentos. Os Potiguara estiveram nos dois lados: Antônio Felipe Camarão e Pieter Poty trocaram cartas em tupi, e Poty foi capturado em 1649 e morreu prisioneiro 3.

Costa (2022) mostra que a historiografia clássica resumiu a participação negra a Henrique Dias e ao seu terço. Dias era um negro forro, natural de Pernambuco. Os terços davam, segundo a autora, uma liberdade tutelada, sem libelo antiescravista. Do outro lado havia africanos a serviço dos neerlandeses, como os capitães Antônio Mendes e João de Andrade, e a conclusão da autora é que os comportamentos eram ambivalentes 6.

Palmares e Zumbi

Em paralelo à guerra contra os neerlandeses e depois dela, existiu Palmares, o maior assentamento de fugitivos da escravização no Brasil colonial (ver no mapa). O registro de Zumbi vai de c. 1655, data de tradição, não vista em documento, a novembro de 1695 7.

Segundo Lara (2021), Ganga Zumba, chefe de uma população vinda em grande parte de Angola, pode ter negociado a paz de 1678 para salvar seus súditos da destruição. Mas Zumbi e sua "gente de guerra" permaneceram nos matos. Em abril de 1680, o governador de Pernambuco anunciou ter derrotado todos os mocambos, restando só Zumbi com poucos; a derrota, porém, não veio. Em novembro de 1681 a cerca do Barriga foi atacada por mais de três horas e mais de 600 pessoas foram presas. A investida de Domingos Jorge Velho falhou em 1692. O ataque de fevereiro de 1694, com tropas locais e paulistas, venceu a cerca, e a autora considera talvez exagerados os números de 350 a 500 pessoas aprisionadas 7.

O 20 de novembro, data de memória, tornou-se Dia Nacional da Consciência Negra. Lara mostra que os mapas usados para o tombamento da serra da Barriga têm inconsistências com a documentação e que a ocupação de Palmares não foi contínua 7. Macêdo e Lacerda (2024) notam que circula em canções e vídeos uma biografia popular, com nascimento em 1655 e criação por um padre, que o atlas não viu documentada 8. Por isso o texto não afirma onde Zumbi nasceu nem como foi sua infância.

Guerra dos Emboabas: o ouro de Minas

Na Guerra dos Emboabas a disputa era pelo ouro: paulistas, que se achavam com direitos por terem achado as minas, contra os chamados emboabas (ver no mapa). A data é 1708–1709, com 1707 no Wikidata, e é tratada como em debate.

A resenha de Stumpf (2011) sobre o livro de Romeiro explica que os emboabas incluíam reinóis (nascidos em Portugal) e americanos, o que desmonta a leitura nativista, de brasileiros contra portugueses 9. Gomes (2020) conta que Nunes Viana foi aclamado governador pelos emboabas. No Capão da Traição, paulistas que haviam se rendido foram mortos, e o número de mortos varia de 50 (Taunay) a 300 (Vasconcelos); o autor avalia que as baixas totais provavelmente foram poucas. Em novembro de 1709, a Coroa criou a capitania de São Paulo e Minas do Ouro 10.

Gomes lembra que os paulistas tinham muitos indígenas escravizados nas tropas e que potentados formavam milícias com escravizados e agregados 10.

Guerra Guaranítica: o Tratado de Madri e os Sete Povos

Em 1750, Portugal e Espanha assinaram o Tratado de Madri. Os guaranis dos Sete Povos das Missões, a leste do rio Uruguai, resistiram à entrega de suas terras. É a Guerra Guaranítica, de 1754 a 1756 no Wikidata, e de 1753 a 1756 em Correa (2021) (ver no mapa). Sepé Tiaraju foi morto em 7 de fevereiro de 1756 11.

O nome vem da versão oficial das Coroas, segundo Correa, que propõe ler o episódio a partir dos Guarani, como resistência e massacre em Caiboaté, em 10 de fevereiro de 1756. É a tese de uma dissertação de geografia, de posição crítica declarada, e não um consenso 11. Não damos número de mortos.

A independência foi uma guerra na Bahia

A Independência do Brasil é um processo de 1821 a 1825, e a data comemorada é 7 de setembro de 1822 (ver no mapa). Wehling (2023) mostra que, nas Cortes de Lisboa, a representação brasileira era fragmentária: Pará, Maranhão e Piauí votaram com os Regeneradores, Pernambuco ficou equidistante, e a bancada paulista foi a mais assertiva 12. Hees (2013) acrescenta que a disputa foi também de palavras: a palavra "constituição" só ganhou sentido político depois da Revolução do Porto 13.

Na prática, houve combate. A guerra de independência na Bahia durou de junho de 1822 a 2 de julho de 1823 (ver no mapa). Segundo Cancela (2026), depois que as Cortes nomearam Madeira de Melo governador das armas, houve choques armados nas ruas de Salvador, e muitos moradores se refugiaram no Recôncavo 14. Em 14 de junho de 1822, Santo Amaro foi a primeira vila a aclamar d. Pedro, e três dias depois tropas portuguesas castigaram a vila 15. A guerra terminou com a entrada do Exército Pacificador em Salvador, em 2 de julho de 1823 14.

Cancela mostra, com ofícios e petições, que indígenas eram numerosos e ativos. Em novembro de 1822 havia 104 deles entre mais de 1.200 homens em Itapuã. Os kiriri de Aramari lutaram em Campinas e Pirajá e, ao fim da guerra, denunciaram o esbulho de suas terras. Para Cancela, foram sujeitos que negociaram 14.

Kraay (2023) lembra que a guerra mobilizou milhares de homens e mulheres de todas as classes e cores. Um decreto de 30 de julho de 1823 recomendou libertar os escravizados que lutaram, mas só alguns foram libertos, e movimentos de escravizados foram reprimidos com execuções em massa. Quanto a Maria Felipa, a existência dela é incerta e pode ser invenção do folclorista Ubaldo Osório. Para Kraay, o povo baiano lutou pela independência, mas não pela forma que ela tomou 16. A guerra vive nos desfiles de Caboclo e Cabocla, que Guerra Filho (2022) descreve em cidades do Recôncavo 15.

Guerra dos Farrapos: lanceiros negros

A Guerra dos Farrapos, de 20 de setembro de 1835 a 1º de março de 1845, foi uma guerra republicana no Rio Grande do Sul, aberta com a tomada de Porto Alegre (ver no mapa). Os rebeldes sitiaram a capital entre 1836 e 1840, e o cerco trouxe fome e uma epidemia de escarlatina que atingiu crianças livres e escravizadas 17.

Os rebeldes formaram infantarias de negros, os lanceiros. Ribeiro (2024), numa dissertação, aponta o apagamento deles na história tradicional gaúcha e observa que o governo rebelde não decretou o fim da escravidão 18. O episódio de Porongos (1844) não foi tratado nas fontes lidas, e por isso não o contamos aqui.

Guerra do Paraguai: a maior da região

A Guerra do Paraguai, também chamada Guerra da Tríplice Aliança, durou de dezembro de 1864 (ou outubro) a 1º de março de 1870 e opôs o Paraguai ao Brasil, à Argentina e ao Uruguai. Os livros didáticos brasileiros analisados por Caimi e Teixeira (2013) apontam o mesmo estopim: a captura do vapor Marquês de Olinda pelo governo paraguaio, em 11 de novembro de 1864 19.

A historiografia de orientação marxista desloca a origem para o Uruguai: em 1863–64, o Império teria apoiado a "Cruzada Libertadora" que levou ao poder o colorado Venancio Flores, derrubando o governo blanco, aliado do Paraguai 19. Quem tem razão é parte do debate.

Como se contou a guerra

Caimi e Teixeira dividem a historiografia brasileira em quatro momentos: a militar-patriótica, até os anos 1930; a crítica positivista; o revisionismo de esquerda dos anos 1960 a 1980; e o neorrevisionismo, desde os anos 1990. Nos manuais escolares, o Brasil agredido de surpresa dá lugar, em 1984, a um manual que afirma o contrário, e os dos anos 2010 combinam razões políticas, territoriais e econômicas 19.

A crítica à guerra é antiga. Pires Junior e Izecksohn (2020) a recuam ao argentino Juan Bautista Alberdi, que publicou panfletos em 1865, reunidos em 1869. No Paraguai, a recuperação de Solano López começou com Juan E. O'Leary, em artigos a partir de 1902 20.

A tese do imperialismo britânico

Nos anos 1960, autores como José María Rosa e León Pomer atribuíram a guerra a interesses britânicos. No Brasil, o revisionismo ganhou força com Genocídio americano (1979), de Júlio José Chiavenato 19,20. Pires Junior e Izecksohn argumentam que faltam provas: o algodão paraguaio vendido à Grã-Bretanha equivalia a cerca de 3% do que o Brasil exportava do mesmo produto, e em 1880 os negócios britânicos no Paraguai eram 1% do investimento britânico na América do Sul 20. Doratioto, em Maldita guerra, explicou a guerra pelas contradições platinas e pela ação agressiva do governo paraguaio. Essa informação vem do resumo de Caimi e Teixeira, não da leitura direta do livro 19,21.

Quantos paraguaios morreram?

Esta é a pergunta mais disputada, e a resposta depende de como se leem censos incompletos. Reber (1988) estima queda de 8,7% a 18,5% da população 22. Whigham e Potthast (1999) apresentaram um censo de 1870 recém-encontrado e concluíram que as estimativas altas, cerca de 70%, estavam basicamente corretas 23. Kleinpenning (2002) resume essa estimativa como perda de 60% a 69% e a contesta: o censo de 1870–72 contou 116.351 habitantes, e os dois autores somaram de 25 a 50 mil pessoas de povoados que não enviaram dados, o que para ele superestima a confiabilidade dos censos 24. As fontes dão porcentagens da população, e não um número absoluto de mortos; por isso este texto não dá um. Sobre a tese de genocídio de Chiavenato, Caimi e Teixeira registram que hoje é contestada por grande parte dos estudiosos 19.

Canudos: uma testemunha e seus limites

Voltamos ao começo. Canudos tem data em debate: 1893, quando foi fundada, a outubro de 1897, quando foi destruída. O começo das expedições militares não foi confirmado nas fontes lidas.

Segundo a resenha de Oliveira (2026) sobre Clóvis Moura, Antônio Conselheiro e seus seguidores chegaram em 1893 à fazenda Canudos e fundaram o Belo Monte, com economia coletiva e um sistema de vales no lugar do dinheiro. Moura diz que a comunidade derrotou as três primeiras expedições e caiu diante da última 25. Rozeaux (2023) escreve que as fontes dos rebeldes são escassas, mas que documentos e a memória oral dos sobreviventes permitem reconstituir o que era viver ali: uma escolha comunitária e religiosa, em ruptura com a república laica 26.

Em Os Sertões, Euclides da Cunha chama a campanha de crime. Ele conta 5.200 casas destruídas e estima a população em quinze ou vinte mil pessoas, número que obteve observando à distância. Relata que o corpo de Conselheiro foi exumado e decapitado, e o crânio levado ao litoral 1. Mas a mesma obra usa termos de classificação biológica dos sertanejos e prevê o desaparecimento do jagunço, linguagem das teorias da época. Rozeaux observa que Euclides criticou a guerra e a morte de civis, mas retratou os moradores de modo desfavorável 26,1.

O que os pesquisadores discutem

O que ainda não sabemos

Linha do tempo

  1. aliança tupinambá-francesa a partir de 1555; guerra aberta a partir de 1560 (Alencar 2017) Guerra dos Tamoios (Confederação dos Tamoios) mapa
  2. 1645–1654 Insurreição Pernambucana mapa
  3. c. 1655 (tradição; não visto em documento) – nov. 1695 (Lara 2021; o 20 de novembro é a data de memória) Zumbi dos Palmares mapa
  4. 1708–1709 (Wikidata: 1707) Guerra dos Emboabas mapa
  5. 1754 – 1756 (Wikidata); Correa 2021 recorta 1753–1756 Guerra Guaranítica e resistência dos Sete Povos das Missões mapa
  6. 7 set. 1822 (data comemorada); processo de 1821 a 1825 (Wikidata) Independência do Brasil (1821–1825) mapa
  7. jun. 1822 a 2 jul. 1823 Guerra de independência na Bahia (1822–1823) mapa
  8. 20 set. 1835 – 1º mar. 1845 (Wikidata) Guerra dos Farrapos (Revolução Farroupilha) mapa
  9. dez. 1864 (ou out. 1864) a 1º mar. 1870 Guerra do Paraguai / Guerra da Tríplice Aliança mapa
  10. 1893 (fundação de Belo Monte) a out. 1897 (destruição) Guerra de Canudos e a comunidade de Belo Monte mapa

Fontes

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Este artigo faz parte do tema Guerras e conflitos.