Atlas da História

Megálitos de Carnac e das margens do Morbihan

c. 5000–2300 a.C. (UNESCO) · Europa Ocidental e do Norte

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Menires, alinhamentos, cromeleques, cairns e dólmens erguidos por mais de dois milênios entre a península de Quiberon e o golfo do Morbihan, na Bretanha, dispostos em relação ao relevo, aos cursos d'água e uns aos outros. Gravuras nas lajes representam objetos, animais e formas abstratas; em Kercado aparecem embarcações.

Quatro componentes e um código de gravuras

O bem inscrito pela UNESCO em 2025 tem quatro componentes, com estruturas erguidas de c. 5000 a 2300 a.C. Segundo a ficha, a intervisibilidade entre os monumentos pesou na escolha dos seus lugares, e as gravuras formam um programa simbólico que deve ter seguido um código predefinido. Depósitos de objetos preciosos, feitos de materiais raros vindos de longe e enterrados em pontos escolhidos da paisagem, ajudam a entender o caráter simbólico do conjunto. A UNESCO destaca a capacidade das comunidades neolíticas de extrair, transportar e manejar pedras e terra em escala monumental, e diz que o repertório gravado inclui arte figurativa rara em contexto megalítico, entre os exemplos mais recuados desse tipo na Europa ocidental. (UNESCO, lista nº 1725)

Tumulus Saint-Michel e as primeiras câmaras da Bretanha

Schulz Paulsson (2019) estima em cerca de 35 mil os megálitos europeus conservados. Na sua cronologia, o noroeste da França é a única região com construções monumentais de terra antes dos megálitos: as sepulturas de Passy, na bacia de Paris, ainda sem câmara de pedra mas com até 280 m de comprimento, recebem o primeiro sepultamento entre 5061 e 4858 a.C. Pouco depois surgem os primeiros túmulos monumentais da Bretanha, sobretudo na região de Carnac, como montes redondos sobre covas, cistas e câmaras de pedra seca; a primeira fase do tumulus Saint-Michel, em Carnac, data de 4782 a 4594 a.C. As primeiras câmaras megalíticas bretãs, como Tumiac, Kervinio, Castellic, Manio 5, Mané Hui e Kerlescan, aparecem nesse horizonte, mas não têm datas de radiocarbono próprias. (Schulz Paulsson 2019)

Navegadores neolíticos e o debate sobre a origem

A transição para os túmulos de corredor está registrada no tertre de Lannec er Gadouer, entre 4503 e 4103 a.C. Schulz Paulsson (2019) lembra que o debate é antigo: Gordon Childe imaginava uma religião megalítica levada por elites de sacerdotes migrantes, e Colin Renfrew, com as primeiras datas de radiocarbono, propôs centros independentes em Portugal, na Andaluzia, na Bretanha, no sudoeste da Inglaterra e na Dinamarca. Com 2.410 datas, a autora defende que os megálitos partiram do noroeste da França e se espalharam pelas rotas marítimas em três fases. Para ela, as habilidades e a tecnologia de navegação dessas sociedades deviam ser muito mais desenvolvidas do que se supunha, o que pede uma nova discussão sobre a mobilidade no Neolítico. (Schulz Paulsson 2019)

Kercado: barcos com tripulação gravados na pedra

Em Kercado, numa elevação sobre o vale de Kerloquet e uma ria hoje assoreada que desemboca a 2 km, na praia de Kerdual, Cassen, Grimaud e Paitier (2018) descrevem um provável monte baixo, o cairn do Mané er Groez, com um túmulo de corredor, e um recinto curvo de cerca de 30 pedras erguidas ao sul. Três lajes do corredor, três da câmara e a pedra de cobertura guardam sinais gravados, inventariados em sua maioria entre 1866 e 1927. À conhecida hache-charrue (machado-arado) do teto da câmara, os autores acrescentam um repertório inédito: pares de lâminas polidas, um anel, arcos, embarcações com tripulação e variações do sinal quadrangular, lidos junto com a forma das pedras que os suportam. (Cassen et al. 2018)

Kerlescan: menires tirados do próprio terreno

Sellier (1995) usou a geomorfologia para reconstituir a paisagem anterior aos alinhamentos de Kerlescan. Distinguiu três tipos de blocos de granito usados como menires: extraídos do substrato, com uma face fresca e outra alterada, ou reaproveitados de rochas já soltas pela erosão. Quase 75% dos menires que restam no sítio vêm de afloramentos ou de blocos que já se projetavam do solo, e a parte mais alta do terreno tinha grandes afloramentos de granito, ambiente que, para o autor, favoreceu a obra. A UNESCO lembra que o conjunto atual é incompleto: erosão, colúvio, subida do mar, desmontagem e reuso das pedras fizeram desaparecer monumentos, e a urbanização, o turismo de praia, o florestamento e a mudança climática ainda ameaçam o bem. (Sellier 1995; UNESCO, lista nº 1725)

Fontes

  1. UNESCO World Heritage Centre, "Megaliths of Carnac and of the shores of Morbihan", lista nº 1725. https://whc.unesco.org/en/list/1725/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
  2. Schulz Paulsson, B. (2019). "Radiocarbon dates and Bayesian modeling support maritime diffusion model for megaliths in Europe". Proceedings of the National Academy of Sciences 116(9): 3460–3465. DOI 10.1073/pnas.1813268116. Acessar
  3. Cassen, S.; Grimaud, V.; Paitier, H. (2018). "Les monolithes gravés dans la tombe à couloir néolithique du Mané er Groez à Kercado (Carnac, Morbihan)". Gallia Préhistoire 58: 87–138. DOI 10.4000/galliap.795. Acessar
  4. Sellier, D. (1995). "Eléments de reconstitution du paysage prémégalithique sur le site des alignements de Kerlescan (Carnac, Morbihan) à partir de critères géomorphologiques". Revue archéologique de l'Ouest 12(1): 21–41. DOI 10.3406/rao.1995.1023. Acessar

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