Atlas da História

Mfecane / Difaqane

décadas de 1810 a 1840 (descrição do Wikidata) · África Austral

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Nome dado a um período de conflitos na África Austral entre as décadas de 1810 e 1840, tradicionalmente associado à ascensão de Shaka. O próprio conceito é contestado na historiografia.

Ithunga (vaso para leite)
Vaso de madeira para leite, feito por artista zulu no século XIX. Lembra a economia pastoril e a arte cotidiana dos povos da região durante e depois do período do Mfecane, quando o reino zulu se consolidou. Ithunga (vaso para leite), artista zulu não identificado, séc. XIX. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo

Uma crítica ao conceito

Em 1988, Cobbing argumentou que o “mfecane” era um produto da historiografia liberal sul-africana, usado pelo Estado do apartheid para legitimar a divisão desigual da terra. Segundo ele, um uso seletivo e até a invenção de evidências criaram o mito de uma destruição gerada pelas próprias sociedades africanas, centrada nos zulus de Shaka. Cobbing propôs que o termo e o conceito fossem abandonados. (Cobbing 1988)

Trabalho para o Cabo, escravizados para o Brasil

Para Cobbing, a partir de c. 1810 as sociedades africanas da região ficaram presas entre duas pressões: a busca de mão de obra para a Colônia do Cabo e o tráfico de pessoas escravizadas pela baía de Delagoa, voltado sobretudo às plantações de açúcar do Brasil. Ele reinterpreta dois episódios. Em Dithakong (1823), houve um ataque griqua liderado por missionários, em busca de cativos para suprir a falta de trabalhadores entre os colonos do Cabo. Em Mbolompo (1828), os ngwane foram atacados por um exército britânico que buscava mão de obra; a alegação de que se repelia uma invasão zulu seria propaganda. A violência regional, conclui, não nasceu apenas das sociedades africanas. (Cobbing 1988)

O debate depois de Cobbing

Segundo Fagan (2021), em texto da iniciativa Archive and Public Culture da Universidade da Cidade do Cabo, a tese de Cobbing foi examinada num colóquio na Universidade do Witwatersrand em setembro de 1991, organizado por Carolyn Hamilton. Entre os participantes estava Omer-Cooper, cujo livro de 1966 era um pilar da interpretação da “revolução interna”. Partes da argumentação de Cobbing foram refutadas, mas sua crítica geral permaneceu. Fagan registra que o termo aparece por escrito pela primeira vez em 1825 e observa que o debate deu pouca atenção às fontes e historiografias africanas, ponto retomado no ensaio de Nomalanga Mkhize (2018). O título do livro organizado por Hamilton (1995), The Mfecane Aftermath, anuncia “debates de reconstrução” sobre a história da África Austral. (University of Cape Town; Hamilton 1995)

Fontes

  1. Cobbing, J. (1988). "The Mfecane as Alibi: Thoughts on Dithakong and Mbolompo". The Journal of African History 29: 487–519. DOI 10.1017/s0021853700030590. Acessar
  2. Hamilton, C. (org.) (1995). The Mfecane Aftermath: Reconstructive Debates in Southern African History. Wits University Press. DOI 10.18772/21995012521. Acessar
  3. University of Cape Town, Archive and Public Culture Research Initiative, "Spotlight on the 'Mfecane' Debate" (H. Fagan, 22/12/2021). https://humanities.uct.ac.za/apc/articles/2021-12-22-spotlight-mfecane-debate (consultado em 07/10/2026). Acessar

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