Atlas da História

Mustatils: monumentos rituais do noroeste da Arábia

fim do 6º milênio a.C. (Thomas et al. 2021); data de c. 5000 a.C. (Groucutt et al. 2020) · Península Arábica

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Monumentos de pedra do noroeste da Península Arábica, erguidos no Holoceno médio, em período tradicionalmente chamado de úmido, cuja duração no noroeste da Arábia é debatida. Thomas et al. (2021) os datam do fim do 6º milênio a.C. e os leem como instalações rituais, com o mais antigo indício de culto ao gado na península; num deles, perto de AlUla, havia depósitos em torno de uma pedra erguida, um bétilo.

Do “portão” ao retângulo: como se monta um mustatil

O nome vem do árabe mustatil, “retângulo”, termo criado pelas equipes que trabalham para a Comissão Real de AlUla; antes, vistas só em imagens de satélite, essas estruturas eram chamadas de “portões” (Groucutt et al. 2020). No terreno, a equipe de Groucutt verificou que as extremidades não são muros, mas plataformas de pedra de topo plano, algumas com cerca de 30 m por 10 m e mais de 1 m de altura, ligadas por muros longos sempre baixos, com menos de meio metro, e em geral sem aberturas. Thomas et al. (2021) mostram, em AlUla e Khaybar, uma arquitetura mais complexa do que se supunha, com câmaras, entradas e ortostatos. Kennedy et al. (2024) resumem a planta: uma “cabeça” com câmara central, um pátio, os muros longos e uma “base” com entrada estreita, de 0,3 a 1 m, que obrigava a entrar em fila, talvez em procissão; muitas dessas entradas foram depois bloqueadas. O comprimento vai de c. 10 m a mais de 600 m. (Groucutt et al. 2020; Thomas et al. 2021; Kennedy et al. 2024)

Chifres e crânios diante das pedras erguidas

No mustatil de 140 m escavado a 55 km a leste de AlUla, a câmara principal, na cabeça, tinha três pedras erguidas e passou por quatro fases de uso. O que se depositou ali foram partes escolhidas da cabeça de animais com chifres: bainhas de chifre, frontais com chifres e dentes superiores. Dos 247 restos de fauna, 217 são de bovinos, em boa parte gado doméstico, ao lado de cabras e de um único fragmento de gazela; predominam machos adultos e subadultos e faltam os filhotes, perfil que, segundo os autores, não corresponde ao manejo econômico de um rebanho e indica escolha ritual (Kennedy et al. 2023). Eles interpretam a pedra maior como bétilo, “casa do deus”, mediadora entre as pessoas e uma divindade desconhecida, mas ressalvam que nem todo mustatil tinha bétilo. Comparando sete mustatils escavados em AlUla, Kennedy et al. (2024) encontram o mesmo padrão, só partes superiores do crânio, sem mandíbulas nem membros, com proporções de espécies que variam de um monumento a outro e talvez reflitam o rebanho de cada grupo. (Kennedy et al. 2023; Kennedy et al. 2024)

Erguer em conjunto, voltar ao mesmo lugar

Groucutt et al. (2020) notam a quase ausência de ferramentas, cerâmica e fogueiras em volta dos mustatils do sul do Nefud, sinal de que não eram lugares de moradia, e o costume de construir vários lado a lado, com mediana de c. 165 m entre um e outro. Para eles, o próprio ato de construir, que exigia a cooperação de muita gente, fazia parte do ritual; ligam isso à disputa por pastagens num ambiente sazonal e imprevisível e apontam como possível inspiração os santuários retangulares do deserto do sul do Levante, do fim do 6º milênio a.C. Kennedy et al. (2023) partem de outro indício: o mustatil que escavaram fica escondido entre cânions, a 4 km do assentamento visível mais próximo, e recebeu três ou quatro rodadas de oferendas em uma ou duas gerações, segundo o radiocarbono. Daí a leitura de peregrinação, entendida como viagem a um espaço sagrado, e a hipótese, também dos autores, de banquetes que reuniam famílias e grupos dispersos. (Groucutt et al. 2020; Kennedy et al. 2023)

Retângulos para o sagrado, círculos para a casa

Kennedy et al. (2024) comparam os mustatils com as moradias da mesma época. No Harrat ‘Uwayrid, a oeste do oásis de AlUla, há centenas de assentamentos dos 6º e 5º milênios a.C., provavelmente sazonais, formados por anéis de pedras erguidas e cercados curvos. Como os mustatils são retilíneos, os autores propõem uma separação deliberada: formas curvas para a vida diária, formas retas para o sagrado. Citam paralelos retangulares de função ritual na plataforma de Dûmat al-Jandal, no norte da Arábia, em plataformas de Dhofar, em Omã, e em santuários a céu aberto do Negev. Notam, porém, ecos da casa dentro do monumento: câmaras de oferenda redondas ou ovais, pedras centrais e entradas bloqueadas como nas moradias, além de objetos de uso diário, entre eles um vaso de cerâmica, um dos poucos vasos neolíticos locais conhecidos na Arábia Saudita. Outro contraste: nos depósitos rituais predomina o gado, enquanto nas moradias predominam cabras e ovelhas. (Kennedy et al. 2024)

Chuva, gado e a passagem aos ancestrais

O clima da época é discutido. Pesquisas no antigo lago de Tayma, citadas por Kennedy et al. (2023), encurtam ali o período úmido do Holoceno para c. 6800–5900 a.C. e situam entre 5800 e 4800 a.C., intervalo das datas conhecidas da tradição, uma aridez crescente; os autores notam que isso destoa da abundância de gado, que precisa de água, e de dados de Jubbah com lago alto c. 5300 a.C. Levantam a hipótese de que os rituais buscassem chuva e fertilidade e observam que muitos mustatils se voltam para cursos d’água ou lagoas temporárias; Groucutt et al. (2020) registram uma tendência, não uma regra, de proximidade com a água. O fim da tradição envolve mortos humanos: junto ao mustatil a leste de AlUla, uma pequena cista recebeu, 400 a 500 anos depois, restos parciais de um adulto, provavelmente homem. Kennedy et al. (2024) veem, em meados do 5º milênio a.C., o território passar a ser marcado por ancestrais, e não mais por oferendas de animais, prenúncio, para eles, das paisagens funerárias da Idade do Bronze. (Kennedy et al. 2023; Groucutt et al. 2020; Kennedy et al. 2024)

Fontes

  1. Thomas, H.; Kennedy, M. A.; Dalton, M.; McMahon, J. et al. (2021). "The mustatils: cult and monumentality in Neolithic north-western Arabia". Antiquity 95(381): 605–626. DOI 10.15184/aqy.2021.51. Acessar
  2. Groucutt, H. S.; Breeze, P. S.; Guagnin, M.; Stewart, M. et al. (2020). "Monumental landscapes of the Holocene humid period in Northern Arabia: The mustatil phenomenon". The Holocene 30(12): 1767–1779. DOI 10.1177/0959683620950449. Acessar
  3. Kennedy, M.; Strolin, L.; McMahon, J.; Franklin, D. et al. (2023). "Cult, herding, and 'pilgrimage' in the Late Neolithic of north-west Arabia: Excavations at a mustatil east of AlUla". PLOS ONE 18(3): e0281904. DOI 10.1371/journal.pone.0281904. Acessar
  4. Kennedy, M.; Strolin, L.; Swift, L.; Bagdadi, F. et al. (2024). "The Nexus of Cult and Pastoralism in Neolithic Northwest Arabia: Contextualising the Mustatil Phenomenon". Open Quaternary 10: 6. DOI 10.5334/oq.139. Acessar

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