Paisagem cultural de Budj Bim (Gunditjmara)
há pelo menos 6,6 mil anos (UNESCO 1577) · Austrália / Sahul
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Paisagem do território gunditjmara, no sudeste da Austrália, onde sobre os derrames de lava do vulcão Budj Bim foram feitos canais, açudes e represas de pedra para capturar, guardar e colher enguias kooyang. Um canal do complexo de Muldoons tem pelo menos 6.600 anos, e partes do sistema são bem mais recentes (McNiven 2017); segue em uso, e em 2010 um açude cultural devolveu água ao Tae Rak (lago Condah).
Budj Bim: vulcão, ser ancestral e enguias
Para a UNESCO, Budj Bim é ao mesmo tempo um Ser Ancestral gunditjmara e o vulcão de onde saiu o derrame de lava sobre o qual o sistema foi construído. O bem tem três partes ligadas pelo derrame, com complexos em Tae Rak (lago Condah), Kurtonitj e Tyrendarra. McNiven (2017) descreve o terreno do lago Condah como um relevo acidentado de elevações de basalto, depressões alagadas e cursos d'água, formado pela erupção do monte Eccles (Budj Bim) há pelo menos 30 mil anos. O alvo era o kooyang, a enguia-de-barbatana-curta, que migra pelo sistema nas estações certas; como as enguias se reproduzem no mar de Coral, manter mais delas vivas e por mais tempo aumentava a oferta. Os Gunditjmara usaram a rocha vulcânica para erguer canais, açudes e represas, e a UNESCO cita também a construção de açudes de pedra e o trançado de cestos de fibra entre as práticas que continuam. Daniell e Moggridge (2024) lembram que armadilhas trançadas eram acrescentadas às estruturas de pedra. (UNESCO, lista nº 1577; McNiven 2017; Daniell e Moggridge 2024)
De Robinson a Muldoons: 6.600 anos de canais
McNiven (2017) conta a história das pesquisas. Em 9 de julho de 1841, perto do monte William, ao norte do território gunditjmara, o Protetor-Chefe dos Aborígines George Augustus Robinson registrou um grande terreno cortado por valas e aterros, feito para pegar enguias. Os colonos não quiseram ouvir: a ocupação dependia de ver os aborígines como nômades, não como gente que trabalhava a terra, e a prova foi ignorada ou atribuída a supostos cultivadores anteriores aos aborígines. Nos anos 1970, Peter Coutts mapeou no lago Condah o que os Gunditjmara sabiam havia muito: centenas de metros de canais e dezenas de muros de blocos de basalto, além de fundações de casas em forma de C. Coutts supôs até 3.500 anos de idade; Harry Lourandos falou em "fazendas" de enguias; Heather Builth, com os Gunditjmara, modelou em 3D os tanques do arroio Darlot e chamou o sistema de aquicultura. Na escavação de Muldoons, no lago Condah, a equipe de McNiven datou por radiocarbono um canal com pelo menos 6.600 anos e uma parede de represa acrescentada há 500 anos. (McNiven 2017)
Lago drenado, lago devolvido
Segundo o resumo de Jackson (2023), em menos de 150 anos de colonização, a violência de fronteira, a despossessão e as mudanças nos fluxos de água puseram fim ao sistema. A Gunditj Mirring, corporação dos donos tradicionais, conta que o lago Condah e seu pântano sofreram drenagens desde a chegada dos europeus; depois das enchentes de 1946, um dreno maior foi aberto e concluído em 1954, ligado à nascente da missão aborígine do lago Condah. As primeiras propostas de devolver água ao lago, nos anos 1970, pensavam na caça esportiva. A missão e terras vizinhas voltaram aos donos tradicionais em meados dos anos 1980, e um açude experimental fracassou. Em 2007, segundo a UNESCO, a Corte Federal reconheceu o título nativo dos Gunditjmara pela ligação forte e ininterrupta com a área onde seus ancestrais criavam enguias para alimento e troca. Em março de 2008 o estado de Vitória devolveu o lago aos Gunditjmara, e o novo açude foi construído de janeiro a maio de 2010, com trabalhadores gunditjmara e de outros povos indígenas na obra. (Jackson 2023; Gunditj Mirring Traditional Owners Aboriginal Corporation; UNESCO, lista nº 1577)
Patrimônio vivo sob gestão gunditjmara
Daniell e Moggridge (2024) registram a entrada de Budj Bim na Lista do Patrimônio Nacional em 20 de julho de 2004, o reconhecimento como marco nacional da engenharia em 20 de outubro de 2011 e a inscrição na lista da UNESCO em 6 de julho de 2019. Segundo a UNESCO, todo o bem é de propriedade ou gestão aborígine: o parque nacional é administrado com o governo de Vitória, as áreas protegidas indígenas de Budj Bim e Tyrendarra são de propriedade indígena, e guardas-parque contratados pela Winda-Mara aprendem com os anciãos gunditjmara. Para McNiven (2017), os tanques de aquicultura rompem a imagem dos aborígines como simples caçadores-coletores e borram a fronteira entre coletores e agricultores. Daniell e Moggridge veem em Budj Bim um desmentido aos mitos da terra nullius e da aqua nullius, um lugar de resistência indígena e uma fonte de princípios para a gestão da água hoje. Jackson (2023) descreve a restauração das áreas alagadas como parte da reconstrução da nação gunditjmara, que reconta a engenharia e a pesca da enguia para afirmar sua capacidade de se adaptar. (Daniell e Moggridge 2024; UNESCO, lista nº 1577; McNiven 2017; Jackson 2023)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Budj Bim Cultural Landscape", lista nº 1577. https://whc.unesco.org/en/list/1577/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- McNiven, I. J.; Crouch, J.; Richards, T.; Dolby, N. et al. (2012). "Dating Aboriginal stone-walled fishtraps at Lake Condah, southeast Australia". Journal of Archaeological Science 39: 268–286. DOI 10.1016/j.jas.2011.09.007. Acessar
- Daniell, K. A.; Moggridge, B. (2024). "Indigenous Water Engineering and Aquaculture Systems in Australia: The Budj Bim Cultural Landscape and Baiame’s Ngunnhu (the Brewarrina Aboriginal Fish Traps)". Blue Papers 3. DOI 10.58981/bluepapers.2024.1.01. Acessar
- McNiven, I. (2017). "The detective work behind the Budj Bim eel traps World Heritage bid". The Conversation. DOI 10.64628/aa.pmfmjwfcf. Acessar
- Jackson, S. (2023). "Caring for Waterscapes in the Anthropocene: Heritage-making at Budj Bim, Victoria, Australia". Environment and History 29(4): 591–611. DOI 10.3197/096734022x16384451127393. Acessar
- Gunditj Mirring Traditional Owners Aboriginal Corporation, "Lake Condah Restoration Project". https://www.gunditjmirring.com/lake-condah-restoration-project (consultado em 07/10/2026). Acessar
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