Paleopaisagem de Faya (Jebel Faya)
c. 210 mil a 6 mil anos atrás (UNESCO 1735) · Península Arábica
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Paisagem entre o Golfo Pérsico e o Mar da Arábia, nos Emirados Árabes Unidos, com vestígios de ocupação humana de c. 210 mil a 6 mil anos atrás. Segundo a UNESCO, caçadores-coletores e pastores se adaptaram ali a fases áridas e chuvosas que se alternavam a cada 20 mil anos, apoiados em fontes de água e matérias-primas.
Sete camadas sob um abrigo de rocha
As escavações recentes no abrigo de rocha de Jebel Faya, no emirado de Sharjah, expuseram cerca de 3 m de sedimentos com sete camadas arqueológicas, ligadas pela estratigrafia às do terraço escavado antes à frente do abrigo (Bretzke et al. 2022). As idades vêm da luminescência opticamente estimulada (OSL), que estima a idade de soterramento dos sedimentos. A camada mais baixa do abrigo deu c. 172 mil anos; as duas seguintes, c. 134 mil e c. 123 mil anos; e o conjunto mais profundo do terraço, antes sem data, c. 212 mil anos. Nas camadas do abrigo aparecem técnicas do Paleolítico Médio: lascas tiradas de núcleos Levallois, raspadores, peças denticuladas, pontas e peças bifaciais. Os autores notam que, apesar de um intervalo de c. 25 mil anos entre duas camadas, as ferramentas pouco mudam, sinal de que não foi preciso uma adaptação técnica sofisticada para viver na região. (Bretzke et al. 2022)
Chuvas curtas, ocupações repetidas
A leitura corrente ligava a presença humana na Arábia aos longos períodos úmidos e supunha abandono nas fases áridas. Bretzke et al. (2022) argumentam que Faya foi ocupado com mais regularidade: as camadas de c. 172 mil anos caem numa fase supostamente árida, em que breves aumentos da chuva das monções bastaram para ativar leques aluviais, rios e vegetação. Por isso propõem trocar o esquema global de glaciais e interglaciais, que chamam de visão euro-americana, por índices regionais da monção do Índico, e veem o sudeste da Arábia como provável refúgio de populações no fim do Pleistoceno Médio. Bretzke e Herkert (2023) somam a isso a continuidade técnica e uma flexibilidade de comportamento crescente entre c. 210 mil e 120 mil anos atrás. A UNESCO resume o quadro como adaptação a fases áridas e chuvosas que se alternavam a cada 20 mil anos, com apoio em fontes de água e matérias-primas variadas. (Bretzke et al. 2022; Bretzke e Herkert 2023; UNESCO, lista nº 1735)
Quem deixou as ferramentas e de onde veio
Em 2011, Armitage et al. dataram artefatos do leste da Arábia, o conjunto C de Jebel Faya, que Bretzke et al. (2022) situam em c. 125 mil anos, e concluíram que humanos modernos deixaram a África cedo, aproveitando as oscilações do clima, pela chamada rota sul. Os trabalhos posteriores são mais cautelosos quanto à origem: Bretzke et al. (2022) escrevem que não se sabe de onde exatamente vinham os grupos de Faya e que a reocupação rápida durante uma fase úmida curta sugere uma região de origem vizinha, e não deslocamentos longos. Bretzke e Herkert (2023) defendem que a evolução do comportamento humano, e não só o clima, deve entrar nos modelos de ocupação da Arábia e da expansão global da nossa espécie. A UNESCO, por sua vez, fala apenas em ocupação humana, sem atribuir as ferramentas a uma espécie. (Armitage et al. 2011; Bretzke et al. 2022; Bretzke e Herkert 2023; UNESCO, lista nº 1735)
Os pastores neolíticos de Faya
A paisagem continuou habitada no Holoceno. Uerpmann et al. (2013), em estudo assinado também por Sabah Jasim, da Autoridade de Arqueologia de Sharjah, descrevem quatro fácies neolíticas sucessivas em Jebel Faya. A mais antiga, com datas por radiocarbono do fim do 9º milênio a.C. (calibradas), tem pontas de flecha em lâmina parecidas com as pontas do Neolítico Pré-Cerâmico B (PPNB). A segunda, do fim do 8º e início do 7º milênio a.C., reúne grandes peças de sílex. A terceira, de c. 6000 a.C., trouxe um dente de ovelha, indício de economia pastoril, e pequenos fragmentos de ossos humanos cremados. A quarta pertence à Tradição Bifacial Arábica, de pouco antes de 5000 a pouco depois de 4000 a.C. É essa sequência, do Paleolítico Médio ao Neolítico, que a UNESCO inscreveu em 2025 como paleopaisagem. (Uerpmann et al. 2013; UNESCO, lista nº 1735)
Fontes
- UNESCO World Heritage Centre, "Faya Palaeolandscape", lista nº 1735. https://whc.unesco.org/en/list/1735/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
- Armitage, S. J.; Jasim, S. A.; Marks, A. E.; Parker, A. G. et al. (2011). "The Southern Route 'Out of Africa': Evidence for an Early Expansion of Modern Humans into Arabia". Science 331(6016): 453–456. DOI 10.1126/science.1199113. Acessar
- Bretzke, K.; Preusser, F.; Jasim, S.; Miller, C. et al. (2022). "Multiple phases of human occupation in Southeast Arabia between 210,000 and 120,000 years ago". Scientific Reports 12(1). DOI 10.1038/s41598-022-05617-w. Acessar
- Bretzke, K.; Herkert, K. (2023). "Jebel Faya and the Middle to Late Pleistocene Transition: Settlement Continuity and Behavioural Flexibility". Paléorient 49(1): 63–81. DOI 10.4000/paleorient.2728. Acessar
- Uerpmann, H.-P.; Uerpmann, M.; Kutterer, A.; Jasim, S. A. (2013). "The Neolithic period in the Central Region of the Emirate of Sharjah (UAE)". Arabian Archaeology and Epigraphy 24(1): 102–108. DOI 10.1111/aae.12019. Acessar
Na mesma região
- O Neolítico árabe e o 'Ubaid no Golfo (segunda metade do VI ao V milênio a.C.): pastores e pescadores da Arábia em contato com aldeias do sul do Iraque do fim do VI ao V milênio a.C. (Carter 2018); auge por volta de 5300 a.C. segundo o capítulo; o texto não diz se as datas são calibradas
- Necrópole neolítica de al-Buhais 18 (Sharjah, c. 5200–4000 a.C.): enterros secundários e adornos funerários de pastores móveis c. 5200 a 4000 a.C. (datas de radiocarbono, segundo de Beauclair 2008; o artigo não diz se estão calibradas); abandono por volta de 4200 a.C. na conclusão do mesmo artigo
- Mustatils: monumentos rituais do noroeste da Arábia fim do 6º milênio a.C. (Thomas et al. 2021); data de c. 5000 a.C. (Groucutt et al. 2020)
- Túmulos de Dilmun c. 2200–1750 a.C. (UNESCO 1542; Laursen 2008)
- Marcos do Reino de Saba (Marib) Marib capital desde meados do séc. VIII a.C. (Görsdorf e Vogt 2001) até a chegada do Islã, c. 630 (UNESCO 1700)
- Nabonido, rei da Babilônia, no oásis de Tayma (c. 549–540 a.C.): a Crônica, o Poema Verso, o Cilindro de Ciro e a voz do oásis c. 549/548 a.C. (7º ano de Nabonido, o primeiro em que a Crônica o põe em Tayma) a c. 540/539 a.C. (16º ano, segundo o resumo de Livius)