Atlas da História

Tráfico atlântico de pessoas escravizadas

anos de chegada registrados no banco de dados: 1514–1866 · África Central, África Ocidental, Caribe

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Entre 1514 e 1866, viagens registradas levaram milhões de pessoas escravizadas da África à América. O banco SlaveVoyages registra cerca de 10,7 milhões de pessoas embarcadas em 36 mil viagens, e as estimativas somam cerca de 12 milhões, com mais de 1 milhão de mortos na travessia (Soares 2019); a África Centro-Ocidental e a Baía do Benim abasteceram sobretudo o Brasil, o maior destino individual; o conjunto das ilhas do Caribe, somando várias potências, recebeu volume comparável.

Quem circulava e por onde

No arquivo do SlaveVoyages (tastdb-exp-2019), a região de África Centro-Ocidental e Santa Helena aparece com 3,47 milhões de pessoas embarcadas, seguida pela Baía do Benim (1,53 milhão), pela Baía de Biafra (1,12 milhão), pela Costa do Ouro (745 mil) e pela Senegâmbia (603 mil). Os portos mais citados são Luanda, a Costa da Mina, Bonny, Ouidah, Benguela e Cabinda. Do lado americano, o Sudeste do Brasil recebeu 1,39 milhão, a Bahia 1,21 milhão, a Jamaica 935 mil, Cuba 764 mil e Saint-Domingue 695 mil. Somados por grandes regiões, o Caribe aparece com 4,38 milhões e o Brasil com 3,17 milhões, mas a soma agrega dezenas de colônias de várias potências contra um único destino, e o arquivo tem desembarques ausentes para o Brasil (Soares 2019 critica essa agregação). (SlaveVoyages; Soares 2019)

Como funcionava e quem controlava

Ferreira (2006) descreve o tráfico angolano como quase todo controlado por comerciantes do Brasil, de Luanda e de Benguela, e mostra que os traficantes de Benguela dependiam do capital do Rio de Janeiro. Autores como Law e Mann falam em uma comunidade atlântica; Thornton e Eltis divergem sobre o quanto Luanda controlava o interior africano. Os trechos do mapa mostram o período em que cada fluxo concentrou as chegadas: os do Caribe espanhol vêm dos séculos XVI e XVII, e os do Sudeste do Brasil, do XVIII e do início do XIX. Cada trecho ligado ao Brasil ou ao Caribe é uma linha entre dois portos escolhidos pelo atlas, nunca a rota seguida por um navio. (Ferreira 2006; Thornton 1998; SlaveVoyages)

O que o banco mostra e o que discute

Soares (2019) lembra que o banco reúne cerca de 36 mil viagens e atesta ao menos 12 milhões de pessoas transferidas, com mais de 1 milhão mortas na travessia ou logo depois. Ela critica a distribuição de portos e a junção de viagens “portuguesas” e “brasileiras”, que somam quase 6 milhões, e lembra que o tráfico ilegal depois da década de 1830 passou de 1 milhão de pessoas. No arquivo analisado, a diferença entre embarcados e desembarcados chega a 13% nas viagens com os dois valores. O próprio banco, portanto, é uma reconstrução, com campos imputados, e não uma contagem direta. (Soares 2019; SlaveVoyages)

Vozes e memória

Equiano (1789) escreveu em primeira pessoa sobre o porão do navio, o cheiro insuportável e a chegada a Bridge Town, em Barbados; o debate sobre seu local de nascimento e seu nome, resumido por Lovejoy (2022), mostra como até essa voz é discutida. A UNESCO inscreveu a Ilha de Gorée, que segundo ela foi, do século XV ao XIX, o maior centro de comércio de pessoas escravizadas da costa africana, como lugar de memória, e o Cais do Valongo, no Rio, em 2017: o cais foi iniciado em 1811 e teria recebido até 900 mil pessoas africanas. O catálogo liga o tema a Palmares, a Ambuíla, ao Reino do Congo e à Revolução Haitiana. (Equiano 1789; Lovejoy 2022; UNESCO, lista nº 26; UNESCO, lista nº 1548)

Fontes

  1. Soares, M. de C. (2019). "O comércio “português/brasileiro” de escravos no Transatlantic Slave Trade Database". Almanack 22: 551–568. DOI 10.1590/2236-463320192211. Acessar
  2. Ferreira, R. (2006). "Biografia, mobilidade e cultura atlântica: a micro-escala do tráfico de escravos em Benguela, séculos XVIII-XIX". Tempo 10(20): 23–49. DOI 10.1590/s1413-77042006000100003. Acessar
  3. Thornton, J. (1998). Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800. Cambridge University Press. DOI 10.1017/cbo9780511800276. Acessar
  4. Equiano, O. (1789). The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa, the African. Written by Himself. Londres: o autor. Texto digital em Project Gutenberg, https://www.gutenberg.org/ebooks/15399 (consultado em 07/10/2026). Acessar
  5. Lovejoy, P. E. (2022). "Olaudah Equiano ou Gustavus Vassa: o que há em um nome?". Fronteiras: Revista de História 24(43): 14–37. DOI 10.30612/frh.v24i43.16560. Acessar
  6. SlaveVoyages, Trans-Atlantic Slave Trade Database, arquivo tastdb-exp-2019.csv (36.108 viagens). https://www.slavevoyages.org/documents/download (consultado em 07/10/2026). Acessar
  7. UNESCO World Heritage Centre, "Island of Gorée", lista nº 26. https://whc.unesco.org/en/list/26/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
  8. UNESCO World Heritage Centre, "Valongo Wharf Archaeological Site", lista nº 1548. https://whc.unesco.org/en/list/1548/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar

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