Atlas da História

Reino do Congo

c. 1395 a 1914 (Wikidata; outra declaração dá 1888) · África Central

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Reino da África Central Ocidental com capital em M'banza Congo. Sua história está ligada à formação do mundo atlântico, das relações com Portugal ao tráfico de escravizados.

Crucifixo
Crucifixo de latão e cobre feito por artista kongo. Mostra como o cristianismo, adotado pela corte do Congo a partir das relações com Portugal, foi reinterpretado em oficinas locais, com técnicas de fundição africanas. Crucifixo, artista kongo não identificado, séc. XVI–XVII, com acréscimos posteriores. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo
Bastão com Santo Antônio de Pádua
Bastão de latão e madeira com a figura de Santo Antônio, santo católico muito venerado no Congo. Peça feita por artista kongo, exemplo da longa presença do cristianismo no reino e da sua apropriação local. Bastão com Santo Antônio de Pádua, artista kongo não identificado, séc. XIX. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo

Formação e organização do reino

Vainfas e Souza (1998) situam a formação do reino no fim do séc. XIV, em torno de um mito de fundação que liga a dinastia a Nimi a Lukeni. O rei governava com um conselho e dividia o território em províncias, como Nsoyo (Soyo), no litoral. As sedes de poder eram chamadas mbanza, e conchas nzimbu serviam de moeda. Segundo os autores, a capital, chamada pelos portugueses de São Salvador, teria cerca de 60 mil habitantes no séc. XVII. (Vainfas e Souza 1998)

A “conversão coroada”

O contato com os portugueses começou em 1483, quando Diogo Cão chegou à costa e entrou em contato com o mani Nsoyo, governante da província litorânea. O rei se converteu ao catolicismo em 1491. Para Vainfas e Souza, o núcleo da “conversão coroada” foi o reinado de Afonso I (1506–1543): seu filho Henrique foi sagrado bispo, e o Regimento português de 1512 tentou ordenar as relações entre as duas coroas. A UNESCO registra que as elites se cristianizaram sem renunciar à própria cultura e que a catedral de Mbanza Kongo, hoje conhecida como Kulumbimbi, já existia em 1608, quando o papa recebeu em Roma um embaixador do reino. (Vainfas e Souza 1998; UNESCO, lista nº 1511)

Guerras civis e o movimento antoniano

Os autores veem um declínio do reino depois de Álvaro II. O reinado de Garcia II (1641–1663) foi marcado pelas relações com os holandeses e pela chegada dos missionários capuchinhos. Depois de 1665, uma guerra civil dividiu o reino entre facções rivais. Nesse quadro, por volta de 1702–1703, Kimpa Vita, batizada Dona Beatriz, liderou o movimento antoniano: jovem aristocrata, dizia morrer às sextas-feiras e voltar aos sábados, e reuniu apoio popular e de facções nobres. Vainfas e Souza dialogam com a leitura de Thornton, que vê no movimento uma expressão de “cristianismo africano”. (Vainfas e Souza 1998)

Mbanza Kongo, patrimônio mundial

Os vestígios da capital entraram na Lista do Patrimônio Mundial em 2017. A UNESCO descreve a cidade, num planalto a 570 m de altitude, como capital política e espiritual do reino do séc. XIV ao XIX, com um núcleo formado pela residência real, pelo tribunal costumeiro, pela árvore sagrada e pelos lugares funerários reais, ao qual os portugueses acrescentaram construções de pedra e igrejas. Segundo a UNESCO, num colégio jesuíta local foi escrito, em 1624, o primeiro catecismo em kikongo. O reino esteve no centro de uma rota importante do tráfico de pessoas escravizadas para as Américas, mas nenhum vestígio material desse tráfico foi achado no sítio. O tribunal costumeiro voltou a funcionar depois de quatro décadas de guerra, e as autoridades costumeiras participam da gestão. (UNESCO, lista nº 1511)

Fontes

  1. Thornton, J. K. (2020). A History of West Central Africa to 1850. Cambridge University Press. DOI 10.1017/9781316411568. Acessar
  2. Thornton, J. (1998). Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800. Cambridge University Press. DOI 10.1017/cbo9780511800276. Acessar
  3. Wikidata Q796583 (P571 1395; P576 1914 e 1888); consultado via API em out. 2026
  4. Vainfas, R.; Souza, M. de M. e (1998). "Catolização e poder no tempo do tráfico: o reino do Congo da conversão coroada ao movimento antoniano, séculos XV-XVIII". Tempo 3(6). https://www2.historia.uff.br/tempo/wp-content/uploads/2024/11/artg6-7.pdf (consultado em 07/10/2026). Acessar
  5. UNESCO World Heritage Centre, "Mbanza Kongo, Vestiges of the Capital of the former Kingdom of Kongo", lista nº 1511. https://whc.unesco.org/en/list/1511/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026) Acessar

Na mesma região