Revolta da Chibata
22–26 nov. 1910 (Wikidata) · Terras baixas da América do Sul
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Em novembro de 1910, marinheiros da Armada, em sua maioria negros e pardos segundo Maestri, se rebelaram no Rio de Janeiro. Pediam o fim da chibata e de outros castigos corporais, aumento de soldo, educação para os companheiros e reforma das escalas de trabalho. A revolta terminou poucos dias depois, com a proposta de anistia feita pelo governo.
Marujos de uma Armada modernizada
Maestri, historiador, descreve a Revolta da Chibata como um levante em que marinheiros, em sua maioria negros, mulatos, pardos e caboclos, tomaram os principais navios da esquadra ancorada na baía de Guanabara em 22 de novembro de 1910, pedindo anistia, melhores salários, melhores condições de trabalho e o fim dos castigos físicos. Mais de duas décadas após a Abolição e a República, eram açoitados como nos tempos do cativeiro. Em sua leitura, a modernização da Armada transformara os marujos em trabalhadores especializados (artilheiros, eletricistas, foguistas, mecânicos), que ele chama de proletariado embarcado, tratados ainda como antigos cativos. (Maestri 2010)
Castigo físico, cor e hierarquia
Segundo Maestri, a dissertação de Álvaro Pereira do Nascimento (1997), baseada em processos-crime do Arquivo Nacional, mostra que o castigo físico mantinha a autoridade dos oficiais, que decidiam a duração da punição durante a própria aplicação. Esse trabalho também corrobora, segundo ele, a tensão entre oficiais brancos, de famílias abonadas, e marujos negros e pobres, que no Império eram muitas vezes libertos ou cativos fugidos. Maestri lembra que, em 1916, Álvaro Bomilcar apontou os preconceitos de classe e de cor entre as causas do levante. Arias Neto observa que a República havia abolido oficialmente os castigos corporais, mas eles continuavam na Armada. (Maestri 2010; Arias Neto 2009)
As reivindicações: cidadãos fardados
O manifesto enviado do encouraçado São Paulo em 22 de novembro de 1910, citado por Arias Neto, é assinado por marinheiros que se dizem cidadãos brasileiros e republicanos e afirmam não suportar a escravidão na Marinha. Pedem a retirada de oficiais, a reforma do código disciplinar para que desapareçam a chibata e outros castigos, aumento de soldo, educação dos companheiros e uma tabela de serviço diário. Para Arias Neto, nenhuma dessas demandas criava direito novo: era uma revolta de caráter militar e conservador, em que os marujos se constituíam como sujeitos de direitos por se considerarem cidadãos, e exigiam que a república valesse também para eles. (Arias Neto 2009)
Fim e memória: Morel e João Cândido
Maestri avalia que a revolta de novembro obteve conquistas para os marujos, mas que a derrota de dezembro, possivelmente produto de provocação policial-militar, levou à repressão e ao desligamento de marinheiros. Ele sustenta que o movimento teve pouco apoio de outros setores populares. Sobre a memória, aponta que Edmar Morel, em A revolta da chibata (1959), contou os fatos do ponto de vista dos marinheiros e centrou a narrativa em João Cândido, o Almirante Negro, descendente de escravizados, que morreu em 6 de dezembro de 1969. Para Maestri, depois da obra de Morel os estudos foram raros e o silêncio historiográfico se prolongou, até a dissertação de Nascimento. (Maestri 2010)
Fontes
- Arias Neto, J. M. (2009). "João Cândido 1910-1968: arqueologia de um depoimento sobre a Revolta dos Marinheiros". História Oral 6: 159–185. DOI 10.51880/ho.v6i0.70. Acessar
- Maestri, M. (2010). "A Revolta da Chibata faz cem anos". Antíteses 3 (n. esp.): 24–38. DOI 10.5433/1984-3356.2010v3n0p24. Acessar
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