Ritual de abate e deposição de gado em monumentos de pedra do Messak (sudoeste da Líbia, c. 5200–3800 a.C.): restos de bovinos e de ovelhas ou cabras, muitas vezes queimados, guardados em ‘corbeilles’
c. 5200–3800 a.C. (6080–5120 BP não calibrado, segundo di Lernia et al. 2013); a estrutura datada mais antiga, 00/301, dá 5216–4796 cal a.C. (95,4%) · África do Norte
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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No platô do Messak, no sudoeste da Líbia, pastores do Pastoral Médio ergueram monumentos circulares de pedra (corbeilles) e neles depositaram os restos, em boa parte queimados, de bovinos e, em menor número, de ovelhas ou cabras abatidos num rito bem padronizado. Vinte das 22 estruturas datadas por radiocarbono caem entre cerca de 5200 e 3800 a.C., e junto delas aparecem maças de pedra, cacos de cerâmica e gravuras de bois. Di Lernia e colegas (2013) leem o conjunto como cerimônias coletivas de grupos que se moviam com as estações, sem poder ligá-lo a um evento preciso como iniciação ou casamento.
Os monumentos e a datação
O Messak é um platô de arenito de mais de 15.000 km² entre 24° e 26°30′ N, hoje hiperárido, com milhares de painéis gravados do Holoceno e centenas de estruturas funerárias e rituais, mas só vestígios leves de moradia. O Projeto dos Monumentos Cerimoniais do Messak (2007–2010) escavou 42 monumentos, sobretudo no meandro do Wadi Bedis, 26 deles corbeilles: plataformas circulares com lajes fincadas em volta e, muitas vezes, uma pedra erguida. Vinte e duas estruturas foram datadas em carvão, ossos queimados e esmalte dentário; vinte delas caem entre 6080 e 5120 BP e duas são bem mais tardias, de visitas posteriores aos mesmos lugares. Os autores veem esses locais como ‘lugares de memória’ reabertos geração após geração. (Di Lernia)
O que foi feito com os animais
Mais de 25.000 restos de fauna saíram de 22 monumentos. Em dezessete feições há gado ou grandes ungulados, quase sempre um só indivíduo adulto, e as ovelhas ou cabras, em geral mais jovens, aparecem como espécie secundária. Nos quatro bovinos cujo sexo pôde ser estimado, todos eram machos. Cortes de esfola e desarticulação mostram que a carne foi comida; depois os restos foram queimados de propósito, com muitos ossos calcinados, e só então guardados no monumento. A cabeça tinha peso especial: em 07/55 C1 e 09/69 C1 o crânio e a mandíbula não estão queimados, e os autores sugerem que foram enterrados ainda com tecidos moles. A estrutura 00/301, a mais antiga, é um caso à parte, com ao menos dois bovinos e três ovicaprinos. (Di Lernia)
Maças, cerâmica e flores
Foram achadas 16 maças de quartzarenito em 11 estruturas, pesando em média cerca de 2,8 kg e que os autores supõem reafiadas pouco antes do último uso; ficavam dentro do monumento, perto da cabeça do animal, ou do lado de fora, e os autores as chamam de emblema do abate ritual. A cerâmica é rara (145 cacos em nove estruturas), de decoração do Pastoral Médio, e estava nas camadas mais baixas, junto ao crânio. Em três monumentos (07/79 C1, 07/39 C3 e 07/110 C1) há frutos de azedas (Rumex) e flores da família das margaridas, que os autores tratam como oferendas e usam para estimar o rito no fim da estação seca, em abril ou maio. (Di Lernia)
Gado local, pastos diferentes
As razões de estrôncio nos dentes de bovinos do Messak (0,70966 a 0,70998) caem na faixa local e se sobrepõem às do Edeyen de Murzuq, enquanto um boi do Erg Uan Kasa fica fora dela. Os padrões de carbono e oxigênio no esmalte indicam animais nascidos na mesma época do ano mas que pastaram em áreas diferentes, e dois indivíduos (07/39 C2 externa e 07/79 C1) parecem ter se movido entre substratos geológicos distintos. Para os autores isso sustenta uma transumância sazonal, com os grupos acampados junto aos lagos do Edeyen na estação chuvosa e subindo ao Messak na seca, e sugere que grupos diferentes se reuniam em torno do mesmo monumento. Só nove dentes deram resultados confiáveis de carbono e oxigênio. (Di Lernia)
Fontes
- Di Lernia, Savino; Tafuri, Mary Anne; Gallinaro, Marina; Alhaique, Francesca; Balasse, Marie; Cavorsi, Lucia; Fullagar, Paul D.; Mercuri, Anna Maria; Monaco, Andrea; Perego, Alessandro; Zerboni, Andrea. Inside the “African Cattle Complex”: Animal Burials in the Holocene Central Sahara. PLOS ONE, 8(2), 2013, e56879, doi:10.1371/journal.pone.0056879, texto completo em pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3577651. Lido em 02/11/2026 o texto bruto (XML do Europe PMC); os textos S1 e S2 e as tabelas S1–S6 não foram lidos. Acessar
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