Tráfico atlântico de africanos escravizados
viagens registradas entre 1514 e 1866 · África Ocidental, África Central, Terras baixas da América do Sul, Caribe, América do Norte
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Deslocamento forçado de africanos escravizados através do Atlântico. A base de dados de viagens estima cerca de 12,5 milhões de pessoas embarcadas e 10,7 milhões desembarcadas, a partir de 34.941 viagens registradas entre 1514 e 1866.
Como se contam as viagens
As estimativas sobre o tráfico vêm, em grande parte, de uma base de dados construída ao longo de décadas. Segundo Mariza de Carvalho Soares (2019), as primeiras estimativas sistemáticas surgiram nos anos 1960, a primeira versão da base saiu em CD-ROM em 1999, com 27 mil viagens, e desde 2001 a equipe de Eltis e Richardson a amplia; Manolo Florentino cuidou do tráfico português e brasileiro, e a base chega hoje a 36 mil viagens. O atlas de Eltis, Richardson e Misevich (2026) cobre de 1501 a 1867, reúne quase 200 mapas e parte de quase 35 mil viagens, cerca de 80% do total estimado, com cerca de 12,5 milhões de pessoas embarcadas num comércio que envolveu quase todos os países com costa atlântica. (Soares 2019; Eltis et al. 2026)
Uma base de dados não é neutra
Soares (2019) lembra que um banco de dados não é uma construção neutra. Ela discute a organização das viagens por bandeiras de navios, que trata em separado Portugal e o Brasil, cujo tráfico somado chega a quase 6 milhões de pessoas; a distribuição dos portos e regiões africanas também é discutível, como a Costa da Mina, sem equivalente exato na nomenclatura inglesa. As mercadorias trocadas não entram na base, embora até o séc. XVIII o tráfico fosse um comércio combinado. A autora destaca ainda que o tráfico ilegal, depois dos anos 1830, movimentou mais de 1 milhão de pessoas, e que a historiografia brasileira sobre o tema é pouco lida em inglês. (Soares 2019)
Benguela, Luanda e o Rio de Janeiro
Roquinaldo Ferreira (2006) olha o tráfico em escala pequena, a partir de Benguela, nos séculos XVIII e XIX. Ele mostra redes apoiadas em laços comerciais, familiares, culturais e religiosos, e propõe um contraponto ao viés do Atlântico Norte que domina a literatura. Os negociantes de Benguela dependiam de capitais do Brasil, sobretudo do Rio de Janeiro, e o poder português em Luanda dependia de alianças com autoridades africanas, como Kassanje, os imbangalas e Matamba. Para o autor, Angola foi a região que mais perdeu africanos para as Américas, num tráfico controlado quase todo por negociantes do Brasil, de Luanda e de Benguela. (Ferreira 2006)
Elites africanas e pessoas escravizadas como atores
John Thornton (1998) defende que, antes de c. 1680, o envolvimento africano no tráfico foi voluntário e que a força econômica e militar das elites africanas lhes permitiu decidir como o comércio se desenvolvia. Para ele, nas Américas, a estrutura das propriedades e a demografia condicionaram a capacidade das pessoas escravizadas de formar comunidades e agir como atores culturais. A tese de Thornton e o estudo de Ferreira (2006) olham para lados diferentes do mesmo sistema: um enfatiza o poder das elites africanas no litoral, o outro, o peso dos capitais e negociantes sediados no Brasil. (Thornton 1998; Ferreira 2006)
Fontes
- Williford, M. (2010). "Gross Injustice: The Slave Trade by the Numbers". Humanities (NEH), set./out. 2010. https://www.neh.gov/humanities/2010/septemberoctober/feature/gross-injustice Acessar
- Eltis, D.; Richardson, D.; Misevich, P. (2026). Atlas of the Transatlantic Slave Trade. Yale University Press. DOI 10.12987/9780300289411. Acessar
- Alencastro, L. F. de (2000). O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. Companhia das Letras. ISBN 9788535900088.
- Thornton, J. (1998). Africa and Africans in the Making of the Atlantic World, 1400–1800. Cambridge University Press. DOI 10.1017/cbo9780511800276. Acessar
- Soares, M. de C. (2019). "O comércio “português/brasileiro” de escravos no Transatlantic Slave Trade Database". Almanack 22: 551–568. DOI 10.1590/2236-463320192211. Acessar
- Ferreira, R. (2006). "Biografia, mobilidade e cultura atlântica: a micro-escala do tráfico de escravos em Benguela, séculos XVIII-XIX". Tempo 10(20): 23–49. DOI 10.1590/s1413-77042006000100003. Acessar
Na mesma região
- Mesquita Djinguereber (Tombuctu) 1327 (Wikidata); reconstruída em 1570–1583 (UNESCO)
- Mansa Musa c. 1280 – c. 1337; reinado estimado em 1312–1337 (Wikidata; Canós-Donnay 2019)
- Domínio de Gana (independência de Gana) 6 mar. 1957 a 1º jul. 1960
- Djenné-Djenno (Jenné-jeno) desde o séc. III a.C. (UNESCO)
- Cultura Nok séc. XV a.C. ao séc. I a.C. (Wikidata)
- Oficina de lascamento de quartzo e fogueira de Ravin Blanc X (vale do Falémé, Senegal), c. 9100 anos atrás c. 9100 cal AP (c. 7150 a.C. em ano astronômico). As três datas de carvão da fogueira, calibradas pelos autores, vão de 9271 a 8988 cal AP (c. 7320–7040 a.C.); uma quarta, da mesma camada, de 9397 a 9028 cal AP