Uso controlado do fogo: quando começou?
indícios desde c. 1,0 milhão de anos atrás; uso regular a partir de c. 400 mil anos (em debate) · África Austral
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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O controle do fogo é uma das grandes inovações da trajetória humana, mas sua origem é discutida. Há indícios de queima em contexto arqueológico entre cerca de 1,0 milhão e 790 mil anos atrás, na África do Sul e em Israel; o uso regular e generalizado só aparece a partir de cerca de 400 mil anos.
Um sinal que fica nítido há 400 mil anos
MacDonald e colegas descrevem uma mudança no registro arqueológico: a partir de cerca de 400 mil anos o sinal de uso do fogo fica muito visível, em sítios da África e da Eurásia ocidental e em diferentes subpopulações de hominíneos. Exemplos são a Gruta da Aroeira, em Portugal, com ossos aquecidos em camadas de 400 mil anos, e Jebel Irhoud, no Marrocos, com sinal claro de fogo em 300 mil anos. Os autores interpretam esse padrão como difusão cultural, uma hipótese deles, e propõem que seria o primeiro caso claro de mudança cultural difundida na evolução humana. (MacDonald et al. 2021)
Wonderwerk: queima há cerca de 1,0 milhão de anos
Berna e colegas analisaram sedimentos intactos da caverna de Wonderwerk, na África do Sul, com micromorfologia e espectroscopia de infravermelho. Encontraram osso queimado e restos vegetais cinzados em estratos do Acheulense inicial, de cerca de 1,0 milhão de anos, e os apresentaram como a evidência segura mais antiga de queima em contexto arqueológico. MacDonald e colegas lembram que a origem antrópica dos achados, ali e em outros lugares com mais de 400 mil anos, segue controversa, e citam novas amostras de Goldberg e colegas. (Berna et al. 2012; MacDonald et al. 2021)
Gesher Benot Ya'aqov, em Israel
Em Gesher Benot Ya'aqov, sítio acheulense em Israel, Goren-Inbar e colegas encontraram sementes, madeira e sílex queimados que sugerem controle do fogo por humanos há cerca de 790 mil anos. A distribuição de pequenos fragmentos queimados de sílex indica queima em pontos específicos, possivelmente lareiras. Madeira de seis táxons foi queimada, ao menos três deles comestíveis: oliveira, cevada silvestre e uva silvestre. Esta é a leitura dos autores; MacDonald e colegas mencionam esses achados entre os indícios anteriores a 400 mil anos que ainda são discutidos. (Goren-Inbar et al. 2004; MacDonald et al. 2021)
Europa e o uso regular a partir de 400 mil anos
Roebroeks e Villa revisaram a Europa e concluíram que os primeiros hominíneos chegaram às latitudes do norte sem uso habitual do fogo. Só a partir de cerca de 300 a 400 mil anos o fogo passou a ser parte significativa do repertório técnico, e depois dessa época há casos de conhecimento de pirotecnologia entre neandertais, como a produção de materiais para encabamento. Os autores lembram que há alegações de uso regular de fogo por hominíneos africanos em torno de 1,6 milhão de anos, mas elas não são incontestes. (Roebroeks e Villa 2011)
Fontes
- MacDonald, K.; Scherjon, F.; van Veen, E.; Vaesen, K. et al. (2021). "Middle Pleistocene fire use: The first signal of widespread cultural diffusion in human evolution". Proceedings of the National Academy of Sciences 118(31): e2101108118. DOI 10.1073/pnas.2101108118. Acessar
- Berna, F.; Goldberg, P.; Horwitz, L. K.; Brink, J. et al. (2012). "Microstratigraphic evidence of in situ fire in the Acheulean strata of Wonderwerk Cave, Northern Cape province, South Africa". Proceedings of the National Academy of Sciences 109(20): E1215–E1220. DOI 10.1073/pnas.1117620109. Acessar
- Goren-Inbar, N.; Alperson, N.; Kislev, M. E.; Simchoni, O. et al. (2004). "Evidence of Hominin Control of Fire at Gesher Benot Ya`aqov, Israel". Science 304: 725–727. DOI 10.1126/science.1095443. Acessar
- Roebroeks, W.; Villa, P. (2011). "On the earliest evidence for habitual use of fire in Europe". Proceedings of the National Academy of Sciences 108(13): 5209–5214. DOI 10.1073/pnas.1018116108. Acessar
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