Variolação em Constantinopla e Edirne: curandeiras, Timonis, Pylarinos e Lady Montagu
1707 (epidemia em Constantinopla) – 1721 (reedição em Leiden dos relatos; filha de Montagu variolada em Londres); a prática popular é anterior (Kyrkoudis et al. 2021) · Anatólia e Cáucaso
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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No Império Otomano do início do séc. XVIII, curandeiras (descritas como mulheres idosas, gregas ou do Cáucaso) faziam a variolação: arranhavam a pele de crianças e introduziam matéria de pústulas de varíola. Os médicos Emmanuel Timonis e Jacobus Pylarinos publicaram relatos entre 1714 e 1716 e, segundo Kyrkoudis e colegas, Lady Mary Wortley Montagu levou a prática à Inglaterra depois de variolar o filho em 1717, em Edirne. Esses autores veem no episódio uma contribuição otomana e grega que a história centrada em Jenner deixou de lado.
As curandeiras e a técnica
Segundo Kyrkoudis e colegas, algumas mulheres curandeiras do império, majoritariamente gregas e do Cáucaso, passavam líquido de pústulas de varíola em arranhões na pele das crianças. Durante a epidemia de 1707 em Constantinopla, uma nobre, mãe de quatro meninos, perguntou a Pylarinos se podia levá-los a essas mulheres; a curandeira descreveu em detalhe o processo, e ele concluiu que o método não era incompatível com a lógica e a natureza. Pylarinos escreveu que, todo setembro, algumas mulheres idosas faziam a operação, quando o calor diminuía. Segundo um livro francês de 1756 citado pelos autores, Timonis aprendeu com uma curandeira de Filipópolis que se devia tomar laxante e evitar carne, ovos e vinho por 5 ou 6 dias antes; outra, em Salônica, marcava a pele em cruz. (Kyrkoudis)
Timonis e Pylarinos
Emmanuel Timonis (1669–1720), de Quios, estudou em Pádua e Oxford; Jacobus Pylarinos (1659–1718), de Cefalônia, trabalhou em Constantinopla entre 1704 e 1707 e depois em Esmirna, segundo Kyrkoudis e colegas. Os dois publicaram em 1714 nas Philosophical Transactions, em Londres; Pylarinos lançou em 1715, com licença da Inquisição de Veneza, o Nova et tuta variolas excitandi per transplantationem methodus, e os relatos foram reeditados juntos em Leiden em 1721. Na introdução, Pylarinos defende confiar nas curandeiras e sistematizar o saber empírico, e inclui casos de resultado ruim. Para os autores, os dois trabalharam em colaboração. (Kyrkoudis; Pearce)
Montagu e a ida à Inglaterra
Montagu acompanhou o marido, nomeado embaixador britânico em agosto de 1716. Em carta de Edirne, de 1º abr. 1717, descreveu as mulheres idosas que "enxertam" todo setembro. Segundo Pearce, ela investigou o procedimento com Maitland e mandou variolar o filho na Turquia; em 1721, com epidemia na Inglaterra, convenceu Maitland a variolar a filha. A princesa de Gales, Caroline, interessou-se; houve o chamado experimento real com seis condenados de Newgate, poupados da forca. Kyrkoudis e colegas acrescentam que em 1721 Zabdiel Boylston iniciou a variolação em Boston, reconhecendo o trabalho dos dois médicos gregos. (Pearce; Kyrkoudis)
Antecedentes e leitura crítica
Kyrkoudis e colegas citam registros anteriores: um variolista cristão, Ali Chelepi, teria variolado vários em Edirne por volta de 1657, inclusive o filho; em 1712 o médico Edward Tarry disse ter visto mais de 4.000 casos de otomanos variolados em Pera e Galata; Timonis escreveu que o método vinha da Ásia interior e era usado havia pelo menos 40 anos. Um manuscrito do fim do séc. XVIII fala de uma variolista que tratou de 50 a 60 crianças em Edirne. Para os autores, como muitos desses praticantes eram cristãos, o debate científico ficou eurocêntrico. Pearce, por sua vez, lembra que Jenner (1796–98) passou a usar a varíola bovina. (Kyrkoudis; Pearce)
Fontes
- Kyrkoudis, T.; Tsoucalas, G.; Thomaidis, V.; Bakirtzis, I.; Nalbandi, E.; Polychronidis, A.; Fiska, A. "Vaccination of the Ethnic Greeks (Rums) Against Smallpox in the Ottoman Empire: Emmanuel Timonis and Jacobus Pylarinos as Precursors of Edward Jenner". Erciyes Medical Journal 43(1), 2021, p. 100–106 (acesso aberto, CC BY-NC 4.0). DOI 10.14744/etd.2020.82856. Acessar
- Pearce, J. M. S. "Lady Mary Wortley Montagu and smallpox". Hektoen International: A Journal of Medical Humanities, 13 jul. 2020 (data tirada do endereço). https://hekint.org/2020/07/13/lady-mary-wortley-montagu-and-smallpox/ Acessar
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