Batalha de Ayacucho
9 dez. 1824 · Andes
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Batalha travada em 9 de dezembro de 1824 perto da cidade de Ayacucho (Wamanqa), nos Andes peruanos, entre o exército independentista e o exército realista do Vice-Reino do Peru. A capitulação assinada no mesmo dia encerrou o governo espanhol no Peru, depois de mais de três anos de guerra.
Da serra central a Quinua: a campanha final
Nelson Pereyra Chávez (2017), historiador da Universidade San Cristóbal de Huamanga, reconstrói a campanha. Bolívar chegou ao Peru em setembro de 1823 e, com os realistas de novo em Lima e no Callao, foi para Trujillo reunir as tropas do norte; povoados como Huamachuco, Cajamarca e Lambayeque fizeram calças, capotes, sapatos e selas. Com cerca de 10 mil soldados, venceu a cavalaria realista em Junín, em 6 de agosto de 1824, e avançou pela rota Huamanga–Andahuaylas–Abancay. Segundo Patricio Alvarado Luna (2024), o vice-rei La Serna decidiu comandar ele mesmo o exército, partiu em 22 de outubro e chegou a Rajay-Rajay, ao sul de Ayacucho, em 19 de novembro. Em poucas semanas, os dois exércitos percorreram mais de 300 km e cruzaram os vales do Apurímac e do Pampas. Os realistas subiram pelas alturas de Huamanguilla até o cerro Condorcunca; os independentistas passaram por Acos Vinchos e acamparam na planície junto a Quinua. Pereyra conta 9.310 realistas e 5.780 independentistas. (Pereyra Chávez 2017; Alvarado Luna 2024)
Condorcunca, manhã de 9 de dezembro
Antes das nove da manhã, conta Pereyra, soldados dos dois lados desceram às faldas do cerro para abraçar irmãos, parentes e amigos que estavam no campo oposto. O combate começou com a divisão de Valdés contra um flanco independentista; o ataque foi contido pelas tropas peruanas de La Mar e pelos guerrilheiros de Marcelino Carreño, que morreu na investida. Do lado realista, o batalhão de Rubín de Celis atacou antes da hora; Sucre lançou a divisão de Córdova e a cavalaria de Miller, e uma ravina que cortava a planície atrapalhou o desdobramento realista. La Serna foi ferido e capturado, e soldados realistas desobedeceram aos oficiais e debandaram. Pereyra lê a batalha à luz das máximas de Napoleão sobre comando único, marchas rápidas e escolha do terreno, e lembra que La Serna, Canterac, Valdés e La Mar tinham lutado contra os franceses na Península. Ele rejeita como anacrônica a leitura de um simulacro de batalha, apoiada no pequeno número de baixas. (Pereyra Chávez 2017)
Ayllus do Collao no abastecimento realista
Roberto Ramos Castillo (2025), da Universidade Nacional do Altiplano, segue os corpos do “exército do sul” que, no fim de setembro de 1824, cruzaram pela última vez o Collao rumo ao Cuzco e a Ayacucho; Puno só juraria a independência em 30 de dezembro. O arquivo privado de Juan Antonio Larrauri, último subdelegado de Azángaro, mostra a cadeia da coleta: o subdelegado dava ordens a alcaides e coletores, e estes a caciques e às autoridades de cada ayllu, as segundas e os hilacatas. Mais de mil indígenas aparecem nomeados com o que entregaram, inclusive mulheres dos ayllus de Asillo. Em cinco dias, as tropas receberam mais de 3.500 borregos e 3.800 cobertores, além de batata, chuño, sal e cevada para os cavalos, entregues em Juliaca, Calapuja, Nicasio e Pucará, no antigo caminho inca. Alvarado Luna, com base em Julio Albi de la Cuesta, calcula que um borrego alimentava 10 homens. Para Ramos, as entregas foram provavelmente forçadas, e os papéis não permitem dizer que os ayllus fossem fervorosamente realistas. (Ramos Castillo 2025; Alvarado Luna 2024)
Recrutas, cupos e deserções
No começo de 1824, segundo Alvarado Luna, o exército realista somava cerca de 18 mil homens, divididos entre o Alto Peru, o sul, o Cuzco e o norte. Mantê-lo custava caro: em 1823, o vice-rei pediu 20 mil pesos ao comércio do Cuzco e obteve 13.373; vieram depois cupos sobre o clero, o cabildo e os comerciantes, e entre outubro e novembro de 1824 a cidade estava “exausta de numerário”. Quase não se fabricavam armas, e os reforços esperados da Espanha nunca chegaram. As deserções eram cobertas com recrutas, muitas vezes camponeses, e levas sem pagamento regular geravam novas fugas; em Huamanga, a divulgação de fuzilamentos de acusados de traição e de contato com os independentistas devia dissuadir a população. O historiador espanhol Mariano Torrente, citado por Pereyra, atribuiu a derrota sobretudo à “má qualidade” da tropa, feita de prisioneiros de batalhas anteriores e de indígenas e cholos arrancados de casa, que no meio do combate deixaram de lutar e voltaram as armas contra os superiores. (Alvarado Luna 2024; Pereyra Chávez 2017)
Capitulação, “ayacuchos” e memória local
Ascensión Martínez Riaza e Alfredo Moreno Cebrián (2014) tratam a capitulação de Ayacucho, assinada por José de Canterac e Antonio José de Sucre, como a segunda de três: a primeira entregou o Callao em setembro de 1821, e a última, em 22 de janeiro de 1826, encerrou a resistência de José Ramón Rodil na mesma fortaleza. Alvarado Luna descreve outro ritmo: Canterac e Carratalá redigiram bases preliminares depois de conferenciar com Sucre, e os chefes realistas combinaram assiná-las em 10 de dezembro. A Espanha só firmou um tratado de paz com o Peru em 14 de agosto de 1879. Para Pereyra, a consagração da batalha começou no parte de Sucre de 11 de dezembro e na comparação de Bolívar com o Chimborazo; na Espanha, os oficiais vencidos ganharam o apelido de “ayacuchos” e foram acusados de liberalismo. Pereyra registra ainda que, enquanto Lima mal lembra a data, Ayacucho a celebra com uma encenação da batalha da qual participam escolares da cidade. (Martínez Riaza 2014; Alvarado Luna 2024; Pereyra Chávez 2017)
Fontes
- Martínez Riaza, A. (2014). "La conciliación imposible. Las negociaciones entre españoles y americanos en la Independencia del Perú, 1820-1824". In: Martínez Riaza, A. (ed.). La Independencia inconcebible: España y la “pérdida” del Perú (1820-1824). Fondo Editorial de la Pontificia Universidad Católica del Perú, p. 99–211. DOI 10.18800/9786123170547.003; ISBN 9786123170547. Acessar
- Alvarado Luna, P. A. (2024). "La contrarrevolución desde los Andes: el gobierno virreinal de La Serna y la resistencia realista en el Perú, 1821-1824". Almanack 36: ed30623. DOI 10.1590/2236-463336ed30623. Acessar
- Pereyra Chávez, N. E. (2017). "La batalla de Ayacucho (9 de diciembre de 1824): cultura y memoria de un acontecimiento". Revista del Archivo General de la Nación 32(1): 271–283. DOI 10.37840/ragn.v32i1.18. Acessar
- Ramos Castillo, R. G. (2025). "Avituallamiento para las tropas realistas en camino hacia la batalla de Ayacucho. Puno, setiembre, 1824". Argumentos 6(1): 115–138. DOI 10.46476/ra.v6i1.87. Acessar
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