Atlas da História

Cultura Moche

c. 100–700 d.C. (o fim varia por região; Kaulicke 1993) · Andes

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

Abrir no mapa e na linha do tempo

Cultura que floresceu na costa norte do atual Peru durante a chamada Época de Desenvolvimento Regional. A Huaca de la Luna é um de seus sítios monumentais.

Garrafa com alça em estribo e cena de sacrifício no monte
Garrafa de cerâmica pintada com cena ritual, típica da arte moche. A pintura em engobe, em que as figuras são narradas em cenas, é uma das principais fontes para estudar a religião e a vida política moche, que não deixou escrita conhecida. Garrafa com alça em estribo e cena de sacrifício no monte, artista moche, autoria não registrada, 500–800 d.C.. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo
Garrafa com alça em estribo e cena de combate
Garrafa de cerâmica moche com cena de combate. Os ceramistas moche representaram guerreiros, divindades e rituais em vasos feitos para uso cerimonial e funerário. Garrafa com alça em estribo e cena de combate, artista moche, autoria não registrada, 200–500 d.C.. CC0 1.0 (domínio público). Ver no acervo

Larco, cinco fases e uma duração encolhida

Em 1948, Rafael Larco ordenou a cerâmica fina da costa norte em cinco fases, de Mochica I a V, a partir sobretudo das garrafas de alça em estribo do vale de Chicama. Peter Kaulicke (1993) lembra que os dados publicados por Larco eram escassos e que o esquema, adotado como guia prático por quem estudava peças de coleção, nunca foi confirmado com clareza fora dos contextos funerários. Ele também encurta a cronologia: se o Formativo termina por volta de 200 a.C. e o Horizonte Médio começa por volta de 600 d.C., e se Salinar e parte de Gallinazo ocupam o começo desse intervalo, a cultura mochica teria durado provavelmente menos de 500 anos, com Moche V já contemporâneo de Wari. Castillo, Fernandini e Muro (2012) contam que, em meados dos anos 1990, os achados de Sipán e de San José de Moro, que não cabiam nas formas de Larco, levaram a propor duas regiões: uma ao norte, nos vales de Piura, Lambayeque e Jequetepeque, e outra ao sul, de Chicama e Moche para baixo. (Kaulicke 1993; Castillo et al. 2012)

Huacas de Moche e os centros do sul

Larco definiu um território mochica que ia do sul do Jequetepeque ao vale de Nepeña e o imaginou sob um governo dinástico e teocrático, cujos chefes ele reconhecia nos vasos-retrato, cabeças modeladas de feições muito naturalistas. Theresa Lange Topic, resume Kaulicke (1993), situou o início de um Estado na fase Moche III, com capital no sítio de Moche, o das Huacas do Sol e da Lua, por ser o maior. Pañamarca, no Nepeña, Pampa de los Incas, no Santa, Huancaco, no Virú, e Mocollope, no Chicama, repetem em escala menor suas pirâmides truncadas de adobes retangulares orientadas de noroeste a sudeste, e Pañamarca e a Huaca de la Luna conservam restos de murais policromos; os cinco centros ficam a cerca de 40 km um do outro, ao longo de uns 180 km. Kaulicke admite que isso sugere um Estado, mas lembra que faltavam escavações para sustentá-lo. Castillo et al. (2012) descrevem esse Moche do sul como um Estado territorial expansivo, diferente do norte. (Kaulicke 1993; Castillo et al. 2012)

Vicús e o norte que não cabia no esquema

Entre 1987 e 1990, Kaulicke dirigiu escavações em Vicús, no Alto Piura, a mais de 400 km do vale de Moche, onde a cerâmica mochica antiga costumava ser lida como sinal de uma colônia. Ali, junto a um grande cemitério, ele achou uma sequência local: primeiro, construções altas de quincha com troncos de algarrobo, fornos de cerâmica, escória de metal, milho, ají, feijão e abóbora, além de peixes e conchas trazidos do litoral; depois, um centro de plataformas de adobe em forma de U, com praças rebaixadas e áreas de produção de chicha. Ossos humanos queimados e mordidos, misturados a restos de animais, são lidos pelo autor como sacrifícios, talvez com antropofagia ritual, hipótese que ele liga às imagens de prisioneiros. As datas caem nos primeiros quatro séculos da era comum, e a arquitetura e a cerâmica lembram Salinar e Gallinazo, do Virú. Para Kaulicke, nem ali nem no Virú há sinal claro de conquista violenta, como incêndios ou esqueletos feridos por armas, e Vicús dificilmente teria sido colônia. (Kaulicke 1993)

Muitos senhorios e os “Estados oportunistas”

Kaulicke concluiu que a variedade da cerâmica sugeria vários senhorios, de territórios pequenos e ritmos próprios, com relações que iam do atrito à coalizão; o centro de Moche, embora mais imponente, dificilmente teria sido a capital de todo o território durante toda a duração mochica. Castillo et al. (2012) levam a ideia adiante. No norte, Piura, Lambayeque e Jequetepeque tiveram cemitérios reais quase contemporâneos, em Loma Negra, Sipán, Dos Cabezas e San José de Moro, cada qual com sequência cerâmica própria. No Jequetepeque, Castillo propõe “Estados oportunistas”: entidades políticas locais que se juntavam por um tempo, para grandes rituais ou para administrar a irrigação, e depois voltavam a se separar; no Moche Tardio, ao menos quatro teriam coexistido no vale, entre guerras endêmicas e celebrações regionais. Nos contextos domésticos dos períodos Antigo e Médio predomina a cerâmica de tradição Gallinazo, a ponto de os autores falarem em Moche para os ricos e Gallinazo para os pobres. (Kaulicke 1993; Castillo et al. 2012)

Objetos wari nos túmulos e a crise das elites

Até o Moche Tardio, quase não há objetos estrangeiros em contextos moche, o que alguns leem como estratégia das lideranças para afastar ideologias concorrentes. San José de Moro, cemitério de elite e centro cerimonial do Jequetepeque, rompe esse padrão: ali apareceram centenas de vasos de estilos wari e lâminas de obsidiana, além de peças de Cajamarca, da serra vizinha, e de Nievería, do vale do Rímac, sobretudo nos túmulos das sacerdotisas. A cerâmica Moche Policroma junta a pasta local a pigmentos de técnica wari, mais simples. Castillo et al. (2012) atribuem a iniciativa à própria elite local, que controlava a rota para Cajamarca, por onde os objetos wari parecem ter chegado. Como hipótese, sugerem que enterrar governantes semidivinos com objetos alheios ao ritual moche, num tempo de instabilidade política, social e climática, minou a legitimidade dessa elite. No Período Transicional, de cerca de 850 a 1000 d.C., as peças wari aumentam, e estilos híbridos de vida curta abrem caminho para Lambayeque e Chimú. (Castillo et al. 2012)

Fontes

  1. Bawden, G. (1996). The Moche. Blackwell. ISBN 9781557865205.
  2. Wikidata Q208188 (P580 ano 1, P582 700; descrição '100 to 700'); consultado via API em out. 2026
  3. Kaulicke, P. (1993). "La cultura mochica: arqueología, historia y ficción". Histórica 17(1): 93–107. DOI 10.18800/historica.199301.003. Acessar
  4. Castillo, L. J.; Fernandini, F.; Muro, L. (2012). "Relaciones multidimensionales entre los estados Wari y Moche del norte del Perú". Boletín de Arqueología PUCP 16: 53–78. DOI 10.18800/boletindearqueologiapucp.201201.004. Acessar

Na mesma região