Tawantinsuyu (Império Inca)
1438–1533 (Wikidata; data alternativa de fim: 1572) · Andes
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Maior Estado da América do Sul antes da conquista espanhola, com centro em Cusco. O Wikidata registra 1533 como fim, com 1572 como alternativa.
Quatro suyus e províncias de tamanho desigual
Martti Pärssinen (2002), da Universidade de Helsinque, descreve o Tawantinsuyu dividido em quatro partes, cada uma com seu chefe, o capac apo. Na época da invasão espanhola, o Chinchaysuyu chegava ao norte até a região de Pasto e, a leste, ao Huallaga, a Chachapoyas e a Moyobamba; o Antisuyu ia ao menos até a confluência dos rios Madre de Dios e Beni; o Collasuyu descia até o rio Maule, ao sul de Santiago do Chile, e a leste até os llanos de Grigotá, na atual Santa Cruz, e Santiago del Estero; o Cuntisuyu, o menor, ficava entre Acarí e Arequipa. Os suyus se dividiam em províncias, os guamaníes. A ideia de que cada uma reunia 40 mil unidades domésticas vem de duas crônicas que não são independentes entre si; as fontes locais mostram províncias de 5 mil a 50 mil famílias, isto é, de 25 mil a 250 mil habitantes, e o guamaní lupaca tinha cerca de 20 mil unidades domésticas, segundo John Murra. (Pärssinen 2002)
Collao, Charcas e as “segundas pessoas do Inca”
Acima das províncias havia confederações que Pärssinen chama provisoriamente de hatun apocazgos, por não se conhecer o termo quíchua; algumas teriam raízes anteriores aos incas, outras seriam criação deles. Charcas reunia Charca, Caracara, Chicha, Chui e outros grupos que, segundo um memorial de 1582 de seus descendentes, foram soldados desde Pachacuti e se juntavam em Macha, Sacaca e Paria antes de seguir para o Cuzco. O Collao abrangia as províncias Colla, Lupaca e Pacasa, cada uma com cerca de 20 mil homens adultos, e os primeiros títulos de encomienda espanhóis ainda usavam esse nome para as três. Apo Cari, senhor de Chucuito, teria sido feito capitão-geral do Collao por Huayna Capac durante a guerra de Pasto; um velho chefe de Ilave declarou em 1567 que ele era “segunda pessoa do inca” e mandava do Cuzco ao Chile. O autor lê esses poderes como recompensas de origem militar ou religiosa e adverte que os testemunhos não devem ser tomados ao pé da letra. (Pärssinen 2002)
Consentimento e coerção: lupaqa, Chimor e chachas
O historiador peruano Franklin Pease (1979) propôs medir o domínio cusquenho pelo grau de consentimento dos povos incorporados, ideia que tomou do antropólogo Maurice Godelier. Entre os lupaqa, do lago Titicaca, o Tawantinsuyu obrigou a população a deixar os povoados fortificados dos morros e a se fixar nas cabeceiras que os espanhóis encontrariam, mas não mexeu no modo como eles obtinham recursos em colônias da costa e das terras baixas a leste: sobrepôs seu próprio circuito ao deles, e a organização local sobreviveu ao fim do Estado. No Chimor, na costa norte, a conquista teria sido muito mais dura; ourives foram levados como mitmaqkuna para vários pontos dos Andes e, como lembra Pease a partir de María Rostworowski, a região não podia portar armas nem fornecia soldados, e o tributo parece ter sido mais pesado. Em Chachapoyas, os curacas se diziam postos pelo inca Túpac Yupanqui e dependentes dele. Para Pease, graus diferentes de consentimento geraram modelos distintos de colonização inca. (Pease 1979)
Mitmaqkuna, “ilhas” e a memória do tempo do inca
Pease distingue duas espécies de gente deslocada. Os mitmaqkuna postos pelo Estado voltavam logo às suas terras quando ele caía: em Millerea, perto de Huancané, o velho Cari de Chucuito, o mesmo Apo Cari de Pärssinen, disse aos colonos, quando Pizarro chegou ao Cuzco, que “já não é tempo do inca” e que podiam voltar, e todos acabaram partindo. Já os colonos que os próprios povos mantinham em “ilhas” produtivas, como os de Chucuito em Sama e Moquegua, ficaram; Chucuito pediu e obteve de volta, em meados do século XVI, gente e terras da costa repartidas em encomiendas, e o vínculo ainda era reconhecido em 1661. Pease adverte que, como os interrogadores espanhóis perguntavam sempre pelo “tempo do inca”, relações muito anteriores entre povos acabaram registradas como obra do Estado cusquenho, e conclui que o Tawantinsuyu talvez fosse mais uma rede extensa e complicada de relações do que o aparato monolítico desenhado pelos cronistas. (Pease 1979; Pärssinen 2002)
Quatro caminhos a partir da praça de Cusco
A UNESCO inscreveu em 2014 o Qhapaq Ñan, o sistema viário andino, como bem compartilhado por Peru, Chile, Equador, Colômbia, Argentina e Bolívia. Segundo a justificativa da inscrição, a rede soma mais de 30 mil km, foi construída ao longo de vários séculos, em parte sobre caminhos anteriores aos incas, e chegou à máxima expansão no século XV, com a consolidação do Tawantinsuyu. Quatro rotas principais saíam da praça central de Cusco e se ligavam a redes menores, das cordilheiras, a mais de 6 mil metros, até o litoral, atravessando florestas e desertos. Por elas passavam caravanas, mensageiros, exércitos e grupos inteiros de população, e circulavam metais preciosos, conchas de spondylus (mullu), alimentos, plumas, madeira, coca e tecidos. A UNESCO lê a rede como projeto político do Estado, que ligava cidades e centros de produção e de culto, e registra que comunidades locais seguem guardando trechos dela e tradições associadas, inclusive línguas. (UNESCO, lista nº 1459)
Fontes
- D'Altroy, T. N. (2002). The Incas. Blackwell. ISBN 9780631176770.
- Rostworowski de Diez Canseco, M. (1988). Historia del Tahuantinsuyu. Instituto de Estudios Peruanos. ISBN (ed. 1999) 9789972510298.
- Wikidata Q28573 (P571 1438; P576 1533 e 1572); consultado via API em out. 2026
- Pease, F. (1979). "La formación del Tawantinsuyu: mecanismos de colonización y relación con las unidades étnicas". Histórica 3(1): 97–120. DOI 10.18800/historica.197901.005. Acessar
- Pärssinen, M. (2002). "Confederaciones interprovinciales y grandes señores interétnicos en el Tawantinsuyu". Boletín de Arqueología PUCP 6: 23–41. DOI 10.18800/boletindearqueologiapucp.200201.002. Acessar
- UNESCO World Heritage Centre, "Qhapaq Ñan, Andean Road System", lista nº 1459. https://whc.unesco.org/en/list/1459/ (dados abertos data.unesco.org, consultados em 07/10/2026). Acessar
Na mesma região
- Manco Cápac e sua mulher saem do lago Titicaca escrito por Garcilaso, nascido em Cusco, depois da conquista; data da edição a conferir (Garcilaso, Comentarios Reales)
- Rebelião de Túpac Amaru II 4 nov. 1780 a 15 mar. 1783
- Batalha de Ayacucho 9 dez. 1824
- Revolução Nacional Boliviana 11 abr. 1952 a 1964
- Cultura Moche c. 100–700 d.C. (o fim varia por região; Kaulicke 1993)
- Chavín de Huántar (Peru): rapé de vilca e tabaco inalado por tubos de osso na Galeria 3, em depósitos de c. 800–350 a.C. c. 800–350 a.C. (faixa dos depósitos de uso da Galeria 3, segundo modelo bayesiano de Rick et al. 2025); a galeria foi selada por volta de 500 a.C. e escavada em 2017–2018