Rebelião de Túpac Amaru II
4 nov. 1780 a 15 mar. 1783 · Andes
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
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Levante de camponeses indígenas e mestiços no vice-reino do Peru contra as reformas bourbônicas, liderado por Túpac Amaru II. Durou de 1780 a 1783.
Canas y Canchis, o núcleo de um levante regional
Scarlett O'Phelan (1979) estudou o processo aberto contra 73 participantes, guardado nos legajos 32 e 33 da Audiência do Cuzco no Arquivo Geral de Índias, em Sevilha. Cerca de 80% dos réus vinham de Canas y Canchis, a província de Tinta, e a direção saiu sobretudo dos cacicados que Túpac Amaru controlava: Pampamarca, Surimana e Tungasuca. O apoio local tinha razões: ele disputava com a família Betancur a legitimidade do cacicado e, em 1777, fora a Lima pedir, em memorial coletivo, a dispensa da mita de Potosí para os tributários da província. Dos 13 caciques aliados que a autora identificou, 9 estavam ali; só os de Coporaque e Sicuani resistiram. Na vizinha Quispicanchis, 10 dos 12 réus foram condenados à morte. Para O'Phelan, os documentos favorecem a hipótese de movimentos autônomos, coexistentes na mesma conjuntura e herdeiros de protestos iniciados no começo da década de 1770, mais do que a de um levante geral planejado. (O'Phelan 1979)
Parentes, arrieiros e caciques
A rebelião se apoiou em redes de parentesco: um cunhado de José Gabriel vivia em Urcos, outros parentes em Acomayo e Pomacanchis, e quatro dos seis arrieiros processados eram da família; um deles fazia a rota Cuzco–Potosí. O'Phelan sugere que esses tropeiros espalharam, sem levantar suspeita, os bandos que chamavam à revolta. Os caciques aliados mandavam gente e víveres; segundo Hipólito, filho do líder, o chumbo vinha de Asillo e a coca de Carabaya. Tomasa Tito Condemaita, cacica de Acos, foi enforcada e esquartejada, e outros caciques de Quispicanchis foram desterrados para Valdivia, no Chile. Fora de Tinta, o movimento perdeu força: caciques de Lampa, Azángaro e Paruro barraram o avanço em Puno, as autoridades formaram uma companhia de indígenas nobres, e o exército espanhol explorou a velha rivalidade dos lupaca contra os colla, que haviam aderido. Cahill (2003) lembra que Pedro Sahuaraura, cacique nobre de Oropesa e realista, morreu no incêndio da igreja de Sangarará. (O'Phelan 1979; Cahill 2003)
Capitães criollos e uma tropa indígena
O exército rebelde, observa O'Phelan, seguia padrões militares hispânicos. Os postos de capitão e comandante cabiam em geral a criollos, mestiços e caciques; os indígenas do comum formavam a tropa de choque, e o tributário Isidro Poma só comandou forças em Chuquibamba depois de ser feito cacique. Escrivães criollos guardavam chaves e dinheiro, redigiam cartas e éditos e pagavam soldos. Os éditos prometiam liberdade às pessoas escravizadas, mas Antonio Oblitas, o mulato livre que enforcou o corregedor Antonio de Arriaga, foi posto na cozinha, ao lado de negros escravizados tirados das fazendas embargadas. Depois da vitória de Sangarará, muitos que tinham aderido sob pressão perderam a convicção, e o pagamento passou a segurar a tropa: mestiços e criollos recebiam em dinheiro, indígenas em tecidos dos obrajes e coca. Numa carta, Micaela Bastidas censurou a demora do marido em tomar o Cuzco e avisou que os soldados só seguiam pelo interesse. (O'Phelan 1979)
Fisco bourbônico e o refúgio na categoria de mestiço
Para O'Phelan, as reformas fiscais bourbônicas abriram tantas frentes que criaram as condições de uma aliança. O censo dos indígenas provocou recusa; a ideia de estender o tributo a mestiços, zambos e mulatos, protestos; a alta da alcabala de 4% para 6% e as alfândegas, desconfiança entre criollos; e o repartimento forçado de mercadorias atingia indígenas, mestiços e até criollos. Ser registrado como mestiço, ou como criollo, livrava de tributo e mita. Em 1785, o intendente Benito de la Mata Linares, que esperava achar a população reduzida, mandou recensear os indígenas e encontrou 12.821 tributários a mais: cerca de 30% da população indígena de 18 a 50 anos vinha escapando do tributo. Na repressão, criollos foram desterrados para o Chile ou o Callao, os escravizados voltaram a seus senhores, e indígenas, inclusive da elite, receberam penas brutais, que a autora lê como castigo exemplar. (O'Phelan 1979)
Um inca que a nobreza inca do Cuzco recusou
David Cahill (2003) examina outra frente. Em 1777, José Gabriel litigou em Lima pelo marquesado de Santiago de Oropesa, um morgadio no vale do Vilcanota cujo título valia como prova de sucessão a Túpac Amaru I, executado em 1572 por ordem do vice-rei Toledo. O rival era Diego Felipe Betancur Túpac Amaru, e os Vinte e Quatro Eleitores do Alferes Real, corporação com dois membros por cada uma das doze “casas”, ou panacas, da nobreza inca do Cuzco, ficaram com ele: em 1779, acusaram José Gabriel de usar documentos falsos e o chamaram de forasteiro, mestiço e filho de mãe tributária. Para Cahill, não há prova de que ele pertencesse a alguma panaca, e sua identidade tinha cinco faces: inca, indígena, espanhola, provinciana e mestiça. No cerco do Cuzco, de 5 a 8 de janeiro de 1781, a milícia criolla de Tinta se retirou levando a maior parte das armas, e a partir daí ele se aproximou da sociedade indígena. (Cahill 2003)
Fontes
- Walker, C. F. (2014). The Tupac Amaru Rebellion. Harvard University Press. DOI 10.2307/j.ctt6wpmhf. Acessar
- O'Phelan, S. (1979). "La rebelión de Tupac Amaru: organización interna, dirigencia y alianzas". Histórica 3(2): 89–121. DOI 10.18800/historica.197902.005. Acessar
- Cahill, D. (2003). "Nobleza, identidad y rebelión: los incas nobles del Cuzco frente a Túpac Amaru (1778-1782)". Histórica 27(1): 9–49. DOI 10.18800/historica.200301.001. Acessar
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