Atlas da História

Caverna de Panga ya Saidi

c. 78 mil anos atrás (sepultamento: 78,3 ± 4,1 mil anos; Martinón-Torres et al. 2021) · África Oriental

Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.

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Caverna na floresta costeira úmida do Quênia com um registro arqueológico de cerca de 78 mil anos, que mostra inovações técnicas e simbólicas graduais. Ali foi achada a cova de uma criança de 2,5 a 3 anos, enterrada em posição fletida há c. 78 mil anos, que os autores apontam como o sepultamento humano mais antigo conhecido na África.

Uma caverna entre a floresta e a savana

Panga ya Saidi fica no distrito de Kilifi, a cerca de 150 m de altitude, nas colinas do escarpamento de Dzitsoni e a uns 15 km do mar. O entorno é um mosaico da floresta costeira Zanzibar-Inhambane, numa faixa de transição entre floresta e savana. Shipton et al. (2018) escavaram o sítio entre 2010 e 2013, com licença da Presidência do Quênia obtida por meio dos Museus Nacionais do Quênia e com apoio do British Institute in Eastern Africa. O depósito tem 3 m e 19 camadas, e 20 datas por radiocarbono e por luminescência opticamente estimulada, combinadas num modelo bayesiano, mostram uma ocupação que vai de c. 78 mil anos atrás até o Holoceno. (Shipton et al. 2018; Faulkner et al. 2021)

Mudança gradual, sem revolução

Os achados somam mais de 30 mil peças de pedra lascada, 17 fragmentos de ocre, 8 artefatos de osso trabalhado, 88 contas de casca de ovo de avestruz e 27 contas de concha marinha. Por volta de 67 mil anos atrás, as ferramentas ficaram menores e passaram a usar mais quartzo e sílex criptocristalino. Uma conta de concha do gênero Conus foi datada de c. 67 a 63 mil anos, e as contas de casca de avestruz atingem o pico por volta de 25 mil anos atrás. Para Shipton et al. (2018), essas mudanças não seguem uma linha única nem formam uma revolução súbita no comportamento humano. (Shipton et al. 2018)

A cova da criança

O sepultamento que deu fama ao sítio foi publicado por Martinón-Torres et al. (2021). Segundo os autores, a criança foi colocada numa cova escavada de propósito, e o corpo se decompôs ali mesmo, coberto pela terra da sepultura. A análise dos dentes indica um Homo sapiens com alguns traços dentários arcaicos. Para a equipe, trata-se portanto de um enterro intencional, e não de restos cobertos por acaso. (Martinón-Torres et al. 2021)

Conchas levadas da praia à caverna

Faulkner et al. (2021) estudaram as conchas marinhas do sítio. As primeiras chegam há c. 67 a 62 mil anos, sem modificação; entre elas há Conus cf. geographus, espécie venenosa, provavelmente recolhida já vazia na praia. Uma Ovula aparece há c. 48 mil anos, e contas feitas de espiras de Conidae atingem o pico entre 48 e 33 mil anos atrás. O transporte de conchas por mais de 15 km ocorre em pulsos, de 67 a 62 mil e de 48 a 25 mil anos atrás, no fim do Pleistoceno e no Holoceno tardio, e conchas comestíveis aparecem do fim do Pleistoceno até a época do comércio suaíli. Segundo os autores, é a evidência estratificada mais antiga de relação com o mar na África oriental. (Faulkner et al. 2021)

Pequenos animais e armadilhas na floresta

Prendergast et al. (2023), com pesquisadores dos Museus Nacionais do Quênia, examinaram os ossos de animais. Nas fases de floresta, os moradores capturavam pequenos animais com armadilhas, laços e redes, uma caça à distância; nas fases mais secas, caçavam por encontro animais maiores. Essas tecnologias quase não deixam vestígios arqueológicos, e por isso, segundo os autores, o trabalho dos membros do grupo que as faziam e operavam costuma ser ignorado nas reconstruções do passado. (Prendergast et al. 2023)

Fontes

  1. Martinón-Torres, M.; d'Errico, F.; Santos, E.; Álvaro Gallo, A. et al. (2021). "Earliest known human burial in Africa". Nature 593: 95–100. DOI 10.1038/s41586-021-03457-8. Acessar
  2. Shipton, C.; Roberts, P.; Archer, W.; Armitage, S. J. et al. (2018). "78,000-year-old record of Middle and Later Stone Age innovation in an East African tropical forest". Nature Communications 9. DOI 10.1038/s41467-018-04057-3. Acessar
  3. Faulkner, P.; Miller, J. M.; Quintana Morales, E. M.; Crowther, A. et al. (2021). "67,000 years of coastal engagement at Panga ya Saidi, eastern Africa". PLOS ONE 16(8): e0256761. DOI 10.1371/journal.pone.0256761. Acessar
  4. Prendergast, M. E.; Miller, J.; Mwebi, O.; Ndiema, E. et al. (2023). "Small game forgotten: Late Pleistocene foraging strategies in eastern Africa, and remote capture at Panga ya Saidi, Kenya". Quaternary Science Reviews 305: 108032. DOI 10.1016/j.quascirev.2023.108032. Acessar

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