Saída da África pelo norte (vale do Nilo, Sinai e Levante)
c. 130 mil a 50 mil anos atrás, em pulsos (Beyin 2011; Pagani et al. 2015) · África Oriental, África do Norte, Mesopotâmia e Levante
Em pesquisa: texto escrito a partir das fontes listadas abaixo, ainda sem revisão de especialista. Datas e interpretações podem mudar.
Abrir no mapa e na linha do tempo
Hipótese de que o Homo sapiens deixou a África por terra, subindo do nordeste do continente pelo vale do Nilo e cruzando o Sinai até o Levante. Seria a passagem mais acessível em fases úmidas, é associada aos fósseis de Skhul e Qafzeh e, segundo uma análise genômica de 2015, à principal leva de saída.
Skhul, Qafzeh, Manot e Misliya
A rota norte foi por muito tempo ligada aos fósseis de aparência moderna das cavernas de Skhul e Qafzeh, no Levante, que Beyin situa entre 130 mil e 90 mil anos atrás, no estágio isotópico 5; Groucutt e colegas dão cerca de 120 mil a 90 mil anos para Skhul e de 100 mil a 90 mil para Qafzeh. Não se sabe ao certo se esses grupos vieram da África ou evoluíram ali, e depois deles, segundo Beyin, não há sinal de humanos modernos no Levante até depois de 50 mil anos. O crânio da caverna de Manot tem idade estimada em cerca de 55 mil anos, tirada de uma crosta que o cobria e por isso mínima. Em 2018, Hershkovitz e colegas descreveram em Misliya, no Monte Carmelo, um maxilar do grupo do Homo sapiens com idade provável de pelo menos 177 mil anos, o que recua a presença da espécie fora da África. (Beyin 2011; Groucutt et al. 2015; Hershkovitz et al. 2018)
Genomas do Egito e da Etiópia
Em 2015, uma equipe com geneticistas do Reino Unido, da Itália e da Universidade de Adis Abeba sequenciou 225 genomas de egípcios e de cinco populações etíopes (amhara, oromo, somali, wolayta e gumuz). Depois de mascarar os trechos com ancestralidade não africana recente, os autores estimaram que os egípcios se separaram das populações de fora da África por volta de 55 mil anos atrás, os etíopes por volta de 65 mil e os oeste-africanos por volta de 75 mil. A maior proximidade dos egípcios foi lida como sinal de que a saída principal passou pelo Egito, leitura que, para os autores, também acomoda a mistura com neandertais e os restos humanos de cerca de 55 mil anos achados em Israel. (Pagani et al. 2015)
O ambiente e os corredores alternativos
Beyin lembra que a ponte de terra do Sinai torna essa passagem a mais fácil de percorrer, mas a aridez do Saara a tornaria praticável sobretudo em fases úmidas. Ele descreve também dois corredores alternativos entre o leste da África e o Levante: um a oeste, pelo Saara central até a costa do Mediterrâneo, e outro a leste, pelo litoral ocidental do mar Vermelho. Nesse litoral, o único sítio bem datado do Pleistoceno Superior é Abdur, no golfo de Zula, na Eritreia, com artefatos num recife de coral de 125 mil anos (mais ou menos 7 mil); grupos adaptados à costa eritreia poderiam ter subido até o Sinai seguindo o mar. (Beyin 2011)
Críticas à leitura genômica e lacunas
Shriner e Keita, dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos e do Smithsonian, contestaram a conclusão de Pagani e colegas no ano seguinte. Para eles, a amostra egípcia não cobre toda a diversidade do país, pois não inclui ancestralidade nilo-saariana como a dos núbios; a escolha das amostras etíopes mistura componentes diferentes, e a ancestralidade omótica, muito divergente e restrita à Etiópia, distorce a comparação. Questionam ainda a premissa de que as populações atuais representam as da época da saída e concluem que os dados autossômicos, do cromossomo Y e mitocondriais dessas amostras não decidem a rota; o DNA antigo poderia ajudar, se houver restos da época certa. Beyin acrescenta que as tentativas de ligar o Paleolítico Médio do vale do Nilo ao do Levante nem sempre mostram ligação cultural forte. (Shriner e Keita 2016; Beyin 2011)
Fontes
- Beyin, A. (2011). "Upper Pleistocene Human Dispersals out of Africa: A Review of the Current State of the Debate". International Journal of Evolutionary Biology 2011: 1–17. DOI 10.4061/2011/615094. Acessar
- Pagani, L.; Schiffels, S.; Gurdasani, D.; Danecek, P. et al. (2015). "Tracing the Route of Modern Humans out of Africa by Using 225 Human Genome Sequences from Ethiopians and Egyptians". The American Journal of Human Genetics 96(6): 986–991. DOI 10.1016/j.ajhg.2015.04.019. Acessar
- Hershkovitz, I.; Weber, G. W.; Quam, R.; Duval, M. et al. (2018). "The earliest modern humans outside Africa". Science 359: 456–459. DOI 10.1126/science.aap8369. Acessar
- Groucutt, H. S.; Petraglia, M. D.; Bailey, G.; Scerri, E. M. L. et al. (2015). "Rethinking the dispersal of Homo sapiens out of Africa". Evolutionary Anthropology 24(4): 149–164. DOI 10.1002/evan.21455. Acessar
- Shriner, D.; Keita, S. O. Y. (2016). "Migration Route Out of Africa Unresolved by 225 Egyptian and Ethiopian Whole Genome Sequences". Frontiers in Genetics 7. DOI 10.3389/fgene.2016.00098. Acessar
Na mesma região
- Saída da África pelo sul (Bab el-Mandeb e costa da Arábia) c. 130 mil a 60 mil anos atrás, conforme a versão do modelo (Armitage et al. 2011; Beyin 2011; Groucutt et al. 2015)
- Caverna de Panga ya Saidi c. 78 mil anos atrás (sepultamento: 78,3 ± 4,1 mil anos; Martinón-Torres et al. 2021)
- Pesca de bagres e produção de lamelas de obsidiana em Lakora-03 (bacia do lago Abhe, Afar, Etiópia), a partir de c. 11.100 anos cal AP 11.164–10.737 cal AP (faixa de 95,4% publicada por Khalidi e colegas, 2020, para o carvão do nível principal, Poz-111634, 9590 ± 60 BP; mediana 10.939 ± 121); em ano astronômico (1950 − cal AP), c. 9214 a 8787 a.C. O início foi tomado na ponta mais antiga da faixa, não na mediana
- Hora 3, adulto cremado em pira no abrigo de Hora 1 (monte Hora, norte do Malaui), c. 9500 anos atrás morreu e foi cremado entre c. 9540 e 9454 cal AP (c. 7590–7500 a.C. em ano astronômico), intervalo de 2 sigma para 8530 ± 30 anos 14C AP (UGAMS-30618), calibrado pelos autores com a curva do hemisfério sul (SHCal20); o ano −7547 é o meio do intervalo, usado só como marca no tempo
- Abrigo de Kakapel (Busia, Quênia): forrageadores do Holoceno inicial no monte Elgon (c. 9400–7000 anos cal AP) fase I de ocupação por forrageadores: c. 9400–3900 anos cal AP (c. 7450 a.C. a 1950 a.C.), com uso mais intenso entre c. 9400 e 7000 cal AP (c. 7450–5050 a.C.), segundo Goldstein e outros (2025)
- Cerâmica de estilo Kansyore no abrigo de Kakapel (oeste do Quênia, bacia do Lago Vitória): os contextos mais antigos, de c. 9300–9000 anos atrás c. 9300–9000 cal AP (c. 7350–7050 a.C. em ano astronômico) para os contextos mais antigos com cerâmica Kansyore; a fase I do abrigo, de pescadores-coletores com cerâmica, vai de c. 9400 a 3900 cal AP. Datas de radiocarbono calibradas pelos autores com a curva do hemisfério sul (ShCal20). O ano −7350 é o início da faixa e vale como marca no tempo